Entrevista: Marcelo Brandão Cipolla (II)

Entrevista

Hoje, damos continuidade à entrevista com o coordenador das traduções de inglês da Martins Fontes, Marcelo B. Cipolla. Descubra um pouco mais sobre o mercado editorial, a relação entre a tradução literária e a tecnologia e qual o melhor caminho a seguir para ser tradutor de livros. Boa leitura e não esqueça que a entrevista continua na semana que vem!

Você pode contar como é o seu processo de trabalho hoje? De que maneira o computador e a internet mudaram seu trabalho?

Segundo o meu ponto de vista, a tecnologia usada para traduzir é uma questão relacionada ao aspecto comercial da profissão, e não ao aspecto da excelência da tradução em si. A questão tecnológica é determinada pela necessidade de lucro das empresas que nos contratam e pela necessidade do tradutor de atender às expectativas das empresas contratantes quanto a prazo, modo de entrega etc. A tecnologia não tem absolutamente nenhum glamour. É uma imposição comercial. São Jerônimo traduziu a Bíblia à mão, e o mesmo fez Marpa Lotsawa com os textos do budismo indiano. Todo o desenvolvimento tecnológico ocorrido de lá para cá tem tudo a ver com a ganância e nada com o conhecimento e a excelência. Nesse sentido, o computador mudou meu processo de trabalho, mas quero crer que não fez aumentar a qualidade da minha tradução. Aliás, com a crescente redução dos prazos, espero que a qualidade não tenha mudado para pior! Objetivamente, uso o computador como uma máquina de escrever com uns recursos a mais, como por exemplo os de busca e substituição no Word – bastante úteis por sinal, mas nada que não pudesse ser feito antes, quando as expectativas de prazo eram mais dilatadas. A internet mudou principalmente o modo como faço a pesquisa terminológica. Antes, eu anotava minhas dúvidas e, a certa altura, ia a uma das bibliotecas da USP para pesquisar. De vez em quando conversava com um especialista, quer um pago pela editora, quer um amigo disposto a me ajudar. Hoje, uso basicamente a internet. Desnecessário dizer que é preciso saber procurar as fontes mais confiáveis… Além disso, existem certas dúvidas que só se resolvem com a ajuda de um especialista ou de alguém que esteja por dentro do tema. Então, não sou a pessoa indicada para falar sobre o uso dos recursos da informática na tradução (exceto, talvez, sobre como fazer uma busca terminológica decente na internet). Por outro lado, há no mercado excelentes tradutores que usam esses recursos e podem falar sobre eles.

Você recebe os livros em folhas impressas ou digitalizados?

No meu ramo, ainda costumo receber o livro propriamente dito, em papel. Ponho ele aberto do meu lado e vou traduzindo. Ultimamente tem se tornado mais comum a editora receber o livro original em pdf ainda antes de o mesmo ser lançado no exterior. Nesse caso, recebo também o pdf, o que me ajuda na hora de traduzir coisas como índice remissivo, bibliografia etc. Ressalto que todas essas “facilidades” vieram acompanhadas da concomitante redução de prazo e aumento do custo de vida, de modo que o saldo foi – zero, se deixarmos de fora os olhos doloridos pela tela… Então, resumindo, meu processo de trabalho é o seguinte: recebo o livro da editora, dou uma bela olhada para me familiarizar com ele, verifico o alcance dos meus conhecimentos sobre o tema, se for o caso falo com um especialista e/ou faço uma boa pesquisa a respeito do assunto, ponho ele do meu lado e traduzo. Trabalho com alguns dicionários: um inglês-português, alguns português-português, alguns inglês-inglês, um dicionário de regência verbal, um dicionário de sinônimos e o excelente Guia Prático de Tradução Inglesa do Agenor Soares dos Santos. Depois do Acordo Ortográfico consulto bastante o VOLP. Consulto vários dicionários e glossários especializados na internet. Tenho uma boa biblioteca em casa que me ajuda bastante, além de um glossário próprio, o Tesouro do Tradutor, com soluções que venho acumulando ao longo dos anos e que também uso regularmente.

Interessante ver sua visão sobre a tecnologia. No meu caso, uma ferramenta que vem me ajudando imensamente é o Wordfast. É muito bom para as traduções técnicas, em que os termos são bastante recorrentes. Mas imagino que para a tradução literária seja um programa, se não totalmente, quase inútil.

Faço parte de uma lista do Yahoo Grupos chamada Litterati, dedicada à tradução de literatura e ciências humanas e frequentada por tradutores de peso. Outro dia surgiu lá uma questão a respeito do uso de programas como o Wordfast na tradução literária. Vários colegas muito competentes, como a Beatriz Medina, a Malu Cumo, o Guilherme Braga e o Fábio Said, falaram sobre como usam esses programas. Vale uma consulta a essas mensagens no grupo Litterati. A discussão ocorreu entre os dias 21 e 22 de novembro de 2010. (…) De fato, o uso desses recursos na tradução editorial ainda é incipiente e muito mais limitado que na tradução técnica. Por outro lado, talvez uma memória de tradução tivesse me auxiliado quando traduzi o On Food and Cooking, um livro técnico-científico sobre culinária, que lista milhares de ingredientes e técnicas de cocção. Ressalto porém que o recurso só vale uma vez encontradas as soluções para os pepinos de tradução. No caso desse livro, isso só foi possível com a ajuda constante do chef Celso Vieira Pinto, contratado pela editora para me auxiliar na parte técnica durante toda a tradução.

É possível ler o livro todo antes de começar a traduzir? Quem define o prazo do serviço,  a editora ou o tradutor?

Eu, pessoalmente, não leio o livro todo antes de traduzir, embora dê uma boa olhada. Mas meu motivo para não ler não tem a ver com prazo. Não leio porque o trabalho de tradução é muitas vezes enfadonho, especialmente quando os livros são longos. Nesse caso, gosto de me reservar o gosto de ir descobrindo o livro aos poucos, à medida que traduzo. Creio, porém, que isso varia muito de acordo com o tradutor. Em regra quem define o prazo é a editora, mas às vezes ela incorpora, nessa definição, uma consulta ao tradutor. Atualmente tem se tornado mais comum na área editorial a prática de mandar imprimir livros no exterior, geralmente na China ou em outros países asiáticos onde esse processo é mais barato. Quando isso acontece, os prazos são muito mais rígidos e devem ser cumpridos à risca. Quando não é assim, geralmente há certa maleabilidade que permite à editora, às vezes, aumentar o prazo para poder contar com os serviços de determinado tradutor.

O sonho de muitos tradutores iniciantes é traduzir livros. Você poderia contar um pouco como é o mercado editorial para o tradutor? Qual caminho seguir para traduzir livros?

Posso falar sobre a minha experiência junto às editoras com quem trabalhei. Quando a quantidade de livros a serem traduzidos é grande, as editoras costumam fazer testes com tradutores, iniciantes ou não, para avaliar a capacidade deles. Cada editora tem seu protocolo para esses testes. Mas gostaria de ressaltar que o número de bons tradutores (me refiro sempre ao inglês-português) é muito pequeno. Embora o mercado seja aparentemente concorrido, pode ter certeza de que, quando encontram um tradutor bom, os editores e seus auxiliares dão pulos de alegria. Então, o conselho que dou aos iniciantes é o de aprimorar a competência. Encontrar tempo para fazer suas próprias traduções de treino e, se tiverem essa possibilidade, submetê-las à apreciação de profissionais experimentados. Começar traduzindo textos curtos: um conto, um ensaio, um capítulo de um livro. Estudar as traduções de grandes mestres, comparando-as com os originais. E então tentar a sorte junto às editoras.

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About Lorena Leandro

Tradutora e revisora no par EN-PT(Br)

5 responses to “Entrevista: Marcelo Brandão Cipolla (II)”

  1. Ana Iaria says :

    Lorena,

    Só uma coisa: as CATs vieram para ficar, queiram ou não. Eu não traduzo literatura e raramente traduzo textos técnicos, para os quais você acha que uma CAT se presta. Uso para tudo. Não por causa de repetições, mas para manter a uniformidade terminológica. Até contratos altamente complexos eu traduzo com CAT. E nem WF é.
    Acho muito errado transmitir a iniciantes esta ideia de que CAT é só para textos técnicos e altamente repetitivos. Não é. É ferramenta de trabalho de profissional.

    • Lorena Leandro says :

      Oi, Ana, obrigada pelo comentário.

      Sim, as CATs vieram para ficar e eu não consigo mais trabalhar sem elas. Inclusive, na empresa de traduções em que eu trabalhava, insisti muito para que todos os tradutores trabalhassem com alguma(s) delas e o resultado da minha insistência valeu, inclusive, um curso com o Roger Chadel e WF comprado para todos os tradutores. Ultimamente também tenho usado o Swordfish para poder atender um cliente de fora.

      Quanto ao uso das CATs em tradução literária, eu apenas baseei a minha observação em algumas conversas que tive com tradutores da área editorial. Longe de mim querer passar ideias erradas para os principiantes, senão não me dedicaria tanto a esse blog. E, para mim, “contratos altamente complexos” se encaixam na categoria de textos técnicos (eu apenas fiz uma oposição simplista entre textos literários para editora x demais textos, já que não estava tratando particularmente desse assunto e não queria me estender).

      Ainda que minha pergunta possa ter gerado uma certa confusão, acho que a resposta do Marcelo serviu para esclarecer essa dúvida.

      Bom saber que tem lido o blog!
      Abraços,
      Lorena

  2. Kleber Pedroso says :

    Lorena… sobre a questão das CATs na tradução de livros, estou enfrentando uma grande dificuldade neste exato momento, não por não utilizá-las, mas porque estou traduzindo um livro de uma área técnica, e a editora não possui o arquivo .doc para que eu possa usar a CAT.

    Quando estamos acostumados a atuar para agências e utilizar CATs em todos os trabalhos anos a fio, e nos deparamos com um PDF de centenas de páginas, além de não poder usar uma CAT, tendo, ainda, de ter uma janela do Word aberta, vemos como ficamos dependentes dessa tecnologia…

    Imagino que para literatura as CATs realmente não auxiliem tanto, mas para um grosso livro técnico em que termos, frases e enunciados se repetem às centenas, acredito que diminuiria o prazo de entrega em cerca de 30%.

    • Lorena Leandro says :

      Oi Kleber! No caso de textos em PDF, há algumas soluções. Você pode, por exemplo, passar o texto por um programa de OCR (ou terceirizar esse serviço). Assim, você ficará com ele em formato .doc e mantendo a formatação. Caso o PDF não seja cheio de tabulações e formatos excessivos, também é possível trabalhar nele diretamente em alguma CAT que aceite esse formato, como o MemoQ, por exemplo. No final, você terá um arquivo de texto também.

  3. Hilton F Santos says :

    Achei interessante a menção ao hábito de ler ou não todo o livro antes de traduzir. Fui aluno em dois cursos da tradutora Lia Wyler (Harry Porter para o Brasil) e lembro-me dela ter dito que jamais lia todo o livro antes de começar a tradução. Já traduzi 5 livros e em nenhum deles fiz a leitura completa antes. Em todos achei que compensava digitalizar todo o livro antes de começar, pois não trabalho sem usar uma CAT. Hoje existem multifuncionais que escaneiam de ambos os lados da folha (até 100, embora o manual indique 30 folhas como máximo) e penso que isto seria aplicável à tradução de um livro se a editora cedesse um volume para corte da lombada numa gráfica, viabilizando a alimentação da bandeja da multifuncional. Tenho várias fontes de consulta no computador que vieram por este caminho. Imagine, livros de 400 páginas, ou 200 folhas, poderiam ser digitalizados com apenas duas alimentações do escâner!

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