Entrevista: Marcelo Brandão Cipolla (III)

Entrevista

Oi, pessoal!

Hoje vocês leem a última parte da entrevista com Marcelo Brandão Cipolla, coordenador das traduções de inglês da Martins Fontes. Confiram abaixo as dicas preciosas para quem está iniciando na profissão, está imperdível!

E MAIS! caso vocês tenham outras dúvidas, o Marcelo gentilmente se disponibilizou a respondê-las aqui no blog. Então, não sejam tímidos e mandem suas perguntas pelos comentários, pelo formulário de contato ou então para: aoprincipiante@gmail.com. Não percam essa chance, não é todo dia que podemos trocar ideias com um profissional como o Marcelo 🙂

 

 

Você é revisor também, certo? Que habilidades um tradutor precisa ter para se tornar um bom revisor?

Desnecessário dizer que o revisor deve ter excelente domínio da língua de partida e da língua de chegada, como o tradutor. Com isso, ele pega os erros mais grosseiros, de entendimento do original. Ao mesmo tempo, o revisor deve abstrair completamente o original em outra língua e pensar no texto como um texto em português; deve avaliá-lo quanto à fluência, à sonoridade, ao ritmo. Por fim, deve ser detalhista para pegar os erros de ortografia, pontuação etc. E tem de fazer tudo isso ao mesmo tempo… Uma coisa muito importante é que ele não pode se deixar influenciar pelo texto do tradutor. Não pode se “acostumar” com o estilo dele; deve manter sempre o olhar crítico para poder pegar os erros e impropriedades.

Como funciona a revisão de um livro? Pelo que entendi, nem sempre a revisão da tradução é feita, somente a revisão do texto final em português. Quando a revisão da tradução é necessária?

Quando assumi a coordenação das traduções do inglês na Editora Martins Fontes, a regra era que o livro tivesse sempre uma revisão de tradução. As pressões do mercado mudaram isso, não só na atual WMF como também em outras editoras. A meu ver, se não fosse pela pressão econômica, o ideal era que toda tradução tivesse uma revisão. O tradutor, por melhor que seja, não é um super-homem. Às vezes ele se deixa levar pelo literalismo; às vezes está pouco inspirado, escreve pior. Às vezes padece de simples desatenção. A revisão, no mínimo, conserta essas coisas. Na prática, hoje em dia reservamos a revisão ou para os textos muito difíceis, ou para aqueles trabalhos feitos por tradutores sub-ideais ou que não estavam num bom momento. Saiba que também é difícil encontrar bons revisores. Algo que temos feito bastante é o que se chama preparação: a tradução é lida sem cotejo com o original; o preparador tem de ser um cara esperto para, além de arredondar o português, “pegar” trechos estranhos ou que fazem pouco sentido. Então essas frases, ou expressões, ou palavras, são examinadas em detalhe, desta vez com cotejo, para se determinar a solução.

Você lembra quais desafios enfrentou no início da carreira? Quais eram as maiores dificuldades?

Acho que não tive muitas dificuldades. De certo modo, para mim foi natural pegar um livro em inglês e passá-lo para o português. Mais para a frente, quando peguei trabalhos mais técnicos, tive dificuldades terminológicas, que na época eu resolvia nas bibliotecas da USP. Mas, em vez de falar das dificuldades, eu gostaria de falar sobre aqueles fatores importantíssimos que me permitiram ter poucas dificuldades iniciais no trabalho. Vou tratá-los em forma de lista:

1) Primeiríssimo de tudo, um domínio absoluto da língua inglesa. Eu tinha morado por dois anos na Inglaterra completamente inserido na vida de lá; falava sem sotaque e pensava tão naturalmente em inglês quanto em português.

2) Depois, um bom domínio da língua portuguesa. Era bom aluno e adorava fazer dissertações na escola (já ficção nunca foi o meu forte). Não me lembrava distintamente da terminologia da gramática, mas sabia escrever bem.

3) Depois, muita, muita leitura em português. Sempre fui amigo dos livros. Isso desenvolve em nós o repertório do vernáculo.

4) Depois, bons conhecimentos gerais. Trata-se de um fator essencial para a gente entender do que o autor está falando.

5) Por último, mas não menos importante, contei com o apoio de pessoas que me protegeram e me levaram pela mão, relevando e corrigindo meus erros de tradução, sempre dispostas a me dar mais uma chance, orientando-me mesmo sem eu pedir. Sinceramente, não sei como uma pessoa pode começar como tradutor, ou em qualquer profissão, sem uma orientação desse tipo. Refiro-me aqui à Mônica Stahel, da Martins Fontes, e ao Frederico Ozanam Pessoa de Barros, da Editora Pensamento, para a qual passei a prestar serviços pouco depois. O Luiz Carlos Borges, que daí a um tempo assumiu a coordenação de traduções da Martins Fontes, também me ajudou bastante.

A maioria desses fatores dependem de sorte, mas alguns deles podem ser supridos, ao menos em parte, pelo esforço. Isto é muito importante.

Como você acha que alguém que não teve experiência no exterior pode suprir essa lacuna? Você acha que essa é uma experiência essencial?

Não é essencial. O que é essencial é uma compreensão profunda, intuitiva, do uso daquela língua. A experiência me diz que existem pessoas capazes de adquirir esse tipo de compreensão pelo estudo, sem viajar ao exterior. Então, não é necessário viajar ao exterior; mas é absolutamente necessário estudar bastante o idioma estrangeiro, ler muitos livros dos autores consagrados daquela literatura, assistir a filmes antigos e modernos, conversar, se possível, com quem fala bem aquele idioma. Uma coisa preciosa, meio esquecida nesta época de predomínio da imagem e dos olhos, é fazer uso somente do sentido da audição: ouvir rádio naquele idioma, ouvir uma palestra, ouvir música, ouvir declamação de poesia. Isso ajuda muito.

Um assunto já discutido no blog foi a necessidade de os iniciantes aceitarem trabalhos de versão, pois no Brasil há bastante demanda por eles. O que você acha de um tradutor passar textos para uma língua que não é sua língua materna?

Acho que, como eu disse, ele terá mais dificuldade. Sobre esse assunto, concordo, no geral, com o que você disse nos seus posts sobre Tradução x Versão. Mas acredito também que é possível ao falante nativo de português exercitar-se a tal ponto no inglês que seja capaz de fazer versões praticamente sem erros. É algo que leva tempo, mas é possível. Nisso, conta muitíssimo o treino e a experiência de escrever em inglês, embora escrever e traduzir não sejam a mesma coisa.

Você comentou sobre o Tesouro do Tradutor, um glossário próprio. Como surgiu a ideia de compilar as soluções que encontrava?  Não seria um guia bacana para ser publicado algum dia?

A ideia de compilar as soluções surgiu naturalmente no começo da minha vida profissional. De início, eu anotava os conselhos que recebia do Fred, da Mônica ou do Luiz Carlos. Como desde muito cedo comecei a fazer revisão de tradução, anotava também as soluções interessantes, inteligentes ou elegantes que encontrava no trabalho de outros tradutores. E logo passei a anotar as que eu mesmo criava ou descobria. Trabalhando como coordenador, anoto ainda as boas soluções que meus “coordenados” propõem. Creio que esse tipo de registro, seja qual for a forma que assuma, é essencial para todo tradutor da área editorial. É algo que desde já recomendo a todos os principiantes. Eu tenho dois documentos: um Tesouro, com a tradução de palavras e expressões, e um Repertório de Soluções com a tradução de frases inteiras. A publicação desses registros seria interessante. Talvez um dia eu publique esses documentos, já mais elaborados e incrementados, num blog ou num site, por exemplo. Um exemplo de uso comercial de um bom “tesouro” desses é o livro Vocabulando, da Isamara Lando, que ajuda muitos tradutores.

Muitos tradutores iniciantes são questionados sobre qual sua especialidade. Mas tradutores iniciantes ainda não tiveram tempo de se especializar em uma área. Você acha que há um caminho para a especialização? Por exemplo, escolher uma área de interesse e tentar trabalhar nela sempre que possível? Ou esse é mais um processo natural? É problemático um tradutor não se especializar?

Na minha área é raro encontrar tradutores especializados. Para quem quer se dedicar à tradução editorial, o ideal é ter um grande cabedal de conhecimentos gerais das mais diversas espécies. Já aconteceu de eu procurar tradutores especializados em direito para traduzir certos livros. E tem sempre um ou dois para quem prefiro passar os livros de arte e arquitetura. Então, a “especialização” existe sim, numa medida módica, em ambiente editorial. Certos livros de humanas são extremamente técnicos e a tradução é facilitada quando o tradutor domina aquele vocabulário. Mas quero ressaltar que o profissional deve ser primeiro tradutor e depois “especialista” em x ou y. Um dos erros que já cometi como coordenador, e que já vi ser cometido por outros na mesma posição, foi entregar a tradução de um livro de direito, por exemplo, a uma pessoa que entende horrores de direito e conhece a língua inglesa, mas tem pouca ou nenhuma experiência como tradutor. O resultado, em 100% dos casos, foi decepcionante: uma tradução literal em que mesmo os termos técnicos, muitas vezes, não estavam resolvidos. Hoje em dia só trabalho com gente que é primeiro tradutora e depois especialista. Quando o texto é tecnicamente complicado e não há uma única pessoa que reúna os dois conhecimentos (de tradução e da área do livro), o esquema com que mais gosto de trabalhar é dar a tradução a um tradutor bom, inteligente e com muitos conhecimentos gerais e contratar um revisor técnico que se prontifique a tirar dúvidas por e-mail durante a tradução e depois faça a revisão técnica do texto em português. O investimento é grande, mas compensa quando o livro é importante. A lição que fica é: o mais importante na área editorial é ter muita cultura literária e geral. Se o tradutor além disso conhece bem a terminologia de uma ou mais áreas, ótimo. (É o meu caso, que já fiz – embora não tenha terminado – a maior parte das faculdades de arquitetura, letras e direito). Quanto à exigência de especialização feita aos iniciantes, ela só se justifica, a meu ver, no caso de certos livros que de fato são muito técnicos. Para a maioria dos livros, ela não se justifica em absoluto. O que vale é a competência do iniciante como tradutor e, não menos, sua inteligência.

Quais os principais erros que um novato comete, em termos de tradução mesmo e também de postura profissional?

Primeiro os erros de postura profissional, assunto mais simples. Não cumprir prazo é um erro grave. Não cumprir e não dar satisfação é pior ainda (por incrível que pareça, esses casos existem). Desatender a uma sugestão, pedido ou ordem do coordenador é lamentável. Não aceitar uma correção de tradução é, além de lamentável, perda de tempo. Já os erros de tradução são muitos. Terei de falar deles de forma resumida, identificando somente certas categorias gerais, sem entrar em exemplos e detalhes. O pior e o menos remediável é simplesmente não entender o inglês. O segundo pior é o literalismo na tradução. O terceiro pior, e um erro que acomete principalmente os mais novos, é usar a linguagem dos jornais e especialmente da internet, uma linguagem empobrecida e repleta de anglicismos sintáticos e semânticos em razão da má qualidade das traduções que se difundem hoje em dia. Há também um quarto erro: é o do tradutor que entende o original e escreve bem em português, mas toma certas liberdades com o texto, “interpreta-o” demais. Este erro é, a meu ver, o menos ruim, pois é o mais fácil de corrigir.

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About Lorena Leandro

Tradutora e revisora no par EN-PT(Br)

2 responses to “Entrevista: Marcelo Brandão Cipolla (III)”

  1. Renato Motta says :

    Entrevista excelente, com dicas importantes. Uma das coisas que me chamou a atenção foi Marcelo Cipolla mencionando a importância de ouvir rádio no idioma de origem, palestras e músicas. Costumo ouvir os audiobooks dos títulos que traduzo, quando estão disponíveis. Isso me dá uma visão prévia do desenrolar da história e ajuda até mesmo a determinar o ritmo do texto no idioma de chegada.

    Também ouço palestras, aulas e podcasts em inglês. Escolho temas variados e díspares como sociologia, filosofia, história e até física quântica. Além de interessante, isso é um verdadeiro exercício de neurolinguística que descobri ser muito útil no meu trabalho.

    Parabéns pela entrevista, Marcelo e Lorena!

  2. Mariana M Costa says :

    Obrigada por dividir conosco essa entrevista tão preciosa. Estou tentando entrar para o mercado de tradução, e as palavras do Marcelo me deram muita esperança e orientação.

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