Marcelo Brandão Cipolla responde aos leitores

Vocês enviaram as perguntas e o Marcelo respondeu!
Espero que possam aproveitar bem as novas dicas e conselhos que ele nos dá.

Marcelo: mais uma vez, obrigada por tudo 🙂


Tenho uma dúvida quanto ao ingresso de novos tradutores no mercado editorial. A partir do que já li sobre o assunto, um fator quase onipresente nos textos trata da credibilidade do tradutor, de sua reputação na área. Tendo isso em vista, não se torna um tanto difícil para novos profissionais adentrarem este ramo da tradução, já que muitos tradutores de reputação consolidada também o disputam?

Que é difícil, não há dúvida. Creio inclusive que a “concorrência” aumentou nos últimos tempos, pois um número maior de pessoas conhece a língua inglesa e aspira a ser tradutor. Mas tenha certeza de que sempre há lugar para quem está começando. Como eu disse, o número de bons tradutores não é grande. E quem está na área há tempo sabe que reputação nem sempre significa qualidade.

Na minha experiência como coordenador, já peguei livros traduzidos por gente muito reputada que tiveram de passar por revisão extensa e profunda para poderem ser publicados. E já aconteceu de eu ir deliberadamente atrás de gente nova para renovar o quadro de tradutores. Na realidade, alguns dos melhores tradutores com quem trabalho foram novatos cujos testes eu corrigi e aprovei.

Acho que o principal fator a afetar a disponibilidade de trabalho para os tradutores novos é o mercado editorial estar aquecido ou não. Numa fase de calmaria, de poucas traduções, é evidente que as editoras ficarão com aqueles tradutores que elas já conhecem bem – note que digo “que elas já conhecem bem”, não “que são famosos” ou “que têm excelente reputação”. Mas numa fase em que o mercado se aqueça, em que muitos livros estejam sendo traduzidos, elas tendem a se abrir para receber testes e aceitar novos tradutores de bom potencial.

Meu negócio é tradução, presto serviço para poucas editoras e não sou pessoa qualificada para dizer se o mercado está numa fase aquecida ou não. Com essa importante ressalva, arrisco o palpite de que atualmente as coisas andam meio lentas na área da tradução editorial no Brasil. Isso, a meu ver, se insere no panorama da crise econômica mundial.

Quais são as línguas que a Martins Fontes mais traduz? Ou é apenas o inglês?

Um esclarecimento: a Editora Martins Fontes não existe mais. Há dois anos ela dividiu-se em duas: a Martins Martins Fontes e a WMF Martins Fontes, para a qual presto serviços. A WMF Martins Fontes traduz principalmente do inglês e do francês, um pouco do espanhol e do italiano, um pouco menos do alemão e quase nunca do russo.

Quanto tempo em média se leva para traduzir um livro?

Isso depende do tamanho do livro. É mais fácil falarmos em quantas laudas podem ser traduzidas por dia. O tamanho da lauda varia, segundo a editora, entre 1800 e 2100 toques, com espaços, de texto já traduzido. O número de páginas do original a que essa lauda corresponde vai depender do tamanho da letra e do tamanho da mancha gráfica. Mas digamos que um tradutor experiente pode fazer, em média, umas 8 laudas por dia.

Na prática, constato que é muito difícil trabalhar mais que seis horas por dia numa mesma tradução. É claro que numa ocasião de urgência ou necessidade é possível trabalhar mais que isso. Mas não é um ritmo que se possa manter por muito tempo – não sem comprometer a qualidade da tradução e, às vezes, a saúde do tradutor.

O Sr. Marcelo comentou que “não cumprir prazo” é um erro muito grave que o tradutor pode cometer. Não existem casos em que, no avanço do trabalho, o tradutor percebe que o prazo combinado não é suficiente? Qual deve ser a atitude do tradutor se isso vir a acontecer? Isso pode queimar seu cartucho com a editora?

Esses casos existem, sim. Pode acontecer de um tradutor fazer uma avaliação errada de sua produtividade ou da dificuldade de um trabalho. Pode acontecer também de ele enfrentar algum imprevisto grave em sua vida pessoal. Nesses casos, a atitude deve ser sempre a de ter uma conversa franca com o editor ou coordenador. O pior que pode acontecer é ele começar a atrasar e não dar satisfação. Quanto a queimar o cartucho ou não, creio que isso depende da editora, do editor, de quem lida com o tradutor. Conheço várias pessoas que exercem essa função e estariam dispostas a relevar um atraso justificado.

Por enquanto a tradução editorial free-lancer ainda não é um trabalho onde as relações humanas são totalmente mecanizadas, apesar de existir uma tendência forte nesse sentido. Ainda há, sim, espaço para diálogo e transigência.

É claro também, por outro lado, que se o problema começa a se repetir aquele tradutor fica “marcado” como alguém que sempre atrasa, que enrola etc.

Tenho um amigo que traduz obras que gosta como hobby. Ele poderia oferecer uma tradução feita por ele para uma editora? Aliás, como as editoras escolhem as obras que vão ser traduzidas para o nosso mercado?

Por duas vezes fui a uma editora oferecer uma tradução minha. Em nenhuma das duas a tradução foi aceita, mas na primeira vez arranjei serviço. (Na Editora Pensamento, em 1990. Presto serviço para eles até hoje.)

Na WMF já aconteceu de pessoas proporem livros para publicação e os livros serem aceitos. Num dos casos que presenciei, a mesma pessoa que propôs o livro fez a tradução (dois livros seguidos, propostos em dois momentos diferentes!). Em outro, após avaliação, a tradução foi passada para outro tradutor e o proponente fez a revisão técnica. Resumindo, creio que não há perda em apresentar uma tradução pronta a uma editora ou sugerir a publicação de um livro. O máximo que pode acontecer é ouvir um “não”.

Sobre como as editoras escolhem as obras que vão ser traduzidas, não sou a pessoa indicada para responder, pois essa decisão cabe aos chefões. Fica aqui uma sugestão à Lorena: fazer uma entrevista com um editor-chefe ou um dono de editora, que esclareça esse mistério para nós!

O Marcelo também respondeu a um comentário feito aqui no blog:

Vi um comentário um pouco amargo no blog acerca da importância das indicações para conseguir trabalho. Esse fator é, com efeito, muito importante, e deixei isso bem claro quando disse – e repito – que a maioria dos fatores que podem facilitar a carreira profissional do tradutor dependem muito da sorte. Mas isso não ocorre só na vida do tradutor, nem somente na vida profissional. Isso é assim em todos os aspectos da vida de todas as pessoas. E a sorte num campo da vida muitas vezes vem acompanhada do azar em outro… Mas enfim: o importante a lembrar aqui é que (correndo o risco de cair no banal) a sorte favorece a mente preparada. Independentemente de sorte ou azar, todo aquele que pretenda ser tradutor profissional deve se esforçar para aperfeiçoar suas capacidades e tentar encontrar alguém – um professor, um amigo – que o oriente nesse sentido. O esforço pela aquisição de conhecimento e pelo desenvolvimento da habilidade tem um valor intrínseco que não deve ser subestimado.

E uma historinha tirada da minha experiência pessoal: nesses sete anos em que venho coordenando as traduções do inglês da Martins Fontes/WMF, em várias ocasiões chamei amigos meus que eu considerava capacitados (e que, portanto, “tiveram sorte”) para fazer traduções. Saibam que em todos os casos – 100% – houve problemas na tradução, a tal ponto que hoje, em princípio, não chamo mais nenhum amigo nem aceito indicação de amigo sem antes fazer um teste.

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