Lar doce escritório

Quando ainda estava na faculdade, ficava aflita ao pensar que, como tradutora, iria trabalhar em casa. Em parte, creio que esse foi um dos aspectos que me levou a desviar do caminho da tradução por um tempo. Eu “gostava de ver gente” e isso me levou a entrar no curso de Jornalismo, onde fiquei por dois anos.

Os anos de limbo entre o término do curso de Tradução, a passagem pelo curso de Jornalismo e a volta ao mercado tradutório mudaram totalmente a minha visão sobre o home-office. Trabalhei como secretária bilíngue em uma clínica de cirurgia plástica, como assistente de assessoria de imprensa e de eventos em uma entidade regional e, já como tradutora e em meio a aulas de inglês, em uma empresa de commodities e uma empresa de tradução. Foi nesta última que tive minha primeira experiência com o trabalho feito em casa.

No começo ia para o escritório todos os dias, mas depois passei a trabalhar para a empresa de casa e comparecer apenas a reuniões semanais. Descobri que, para o meu tipo de personalidade, trabalhar em casa era muito melhor do que eu esperava. Ainda não era a experiência de ser freelancer, mas foi o que me fez perceber que eu teria plenas condições de ser autônoma um dia. A diferença, claro, é que eu ainda prestava contas de tudo o que fazia, não tinha escolha nos tipos de texto que recebia, tinha número certo de horas para trabalhar e não dava palpite em prazos (que pena!). Era como se meu empregador estivesse bem ali, atrás de mim, olhando o que eu fazia no computador. Não era de todo ruim, até porque, de certa forma, eu tinha bem menos responsabilidades do que um freelancer tem.

Agora, com pouco tempo de vida de freela, estou aprendendo a modificar certas estruturas mentais. Descobri, por exemplo, que rendo muito no começo da noite (que, antes, era o horário em que eu estava acabando de trabalhar). Outra descoberta foi ver que consegui manter o nível de organização que tinha quando trabalhava em escritório. O engraçado é que durante todo o tempo que trabalhei em casa no regime CLT eu realmente me comportei como se estivesse na empresa. Quase não saía da mesa nem da frente do computador e tinha hora certa para almoçar todos os dias. Quase não fazia nada que interferisse no trabalho, nem serviços domésticos, que eu só fazia depois do expediente. Isso não é ruim e aposto que muitas pessoas precisam mesmo pensar que estão no escritório para conseguir produzir bem. No meu caso, havia muita rigidez. Hoje, como freelancer, descobri o prazer de fazer o meu horário, de trabalhar em um domingo chuvoso e descansar na segunda ensolarada. De conseguir intercalar as exigências domésticas com as profissionais sem me atrapalhar e de colocar o nariz para fora de casa vez por outra em “horário comercial”. Às vezes me distraio mais do que deveria, como todo mundo, e em alguns dias uma power nap de meia hora pode virar um cochilão de duas horas, o que detona a produtividade.

Hoje penso que a parte ruim de trabalhar fora é o estresse. Por mais que o freelancer tenha uma série de preocupações, como captação de clientes, renda mensal, organização de projetos, etc., o empregado de uma empresa precisa enfrentar o caos do trânsito e conviver com pessoas com as quais, muitas vezes, não se identifica. Está preso a horários rígidos e sofre cobranças muitas vezes desnecessárias ou até injustas. Por outro lado, tem os benefícios da carteira assinada, como vale alimentação, e a segurança de que todo mês receberá o mesmo valor em sua conta.

O que me deixava aflita antigamente era que, talvez, eu não me sentisse capaz de arcar com as responsabilidades de ser minha própria empregadora ou de lidar bem com o fato de trabalhar sozinha. E vejo que isso acontece com muitos estudantes e recém-formados da área. Creio que sejam dúvidas normais. Mas também não é preciso dar a volta que eu dei e abandonar tudo, para depois reatar com a profissão. No fim das contas, há vantagens e desvantagens tanto na vida de CLT como na de freelancer. O negócio é se informar muito sobre todas as exigências de ser um profissional autônomo, conversar com pessoas mais experientes e ter jogo de cintura. Também é bom ficar atento ao seu tipo comportamento e personalidade, para ver se realmente consegue trabalhar longe das pessoas e ser disciplinado sem ter um chefe à vista.

Como é sua experiência trabalhando em casa? Ou como você acha que será quando começar a trabalhar em casa?

Dicas de leitura:

3 things no one told you about working from home destaca alguns pontos importantes de serem lembrados por quem pensa em trabalhar em casa. Não é preciso levá-los a ferro e fogo, mas são situações reais que fazem parte do cotidiano de todo tradutor.

Opportunity is a bird that never perches foi um post que escrevi aqui no blog citando as vantagens de ser tradutor in-house antes de se jogar na vida de freelancer. É, sem dúvida, uma grande escola.

How to Start Your Freelancing Journey with No Experience ajuda a levantar algumas questões para quem não tem experiência como freelancer e dá dicas de como tornar a decisão mais fácil.

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2 responses to “Lar doce escritório”

  1. Heitor says :

    É, sócia, eu ainda tô longe de abraçar a vida de freelancer, mas às vezes também tenho medo dessas coisas todas, principalmente de não saber me organizar…

    • Lorena Leandro says :

      A questão da organização e da disciplina sempre foram os meus grandes medos quando saí da faculdade. A gente sempre pensa que, por estar em casa, vai ter vontade de fazer mil coisas que não trabalhar. Mas acontece que, se a gente gosta do que faz, de uma maneira ou de outra e gente se organiza. Fora que a necessidade de ter dinheiro no bolso é o que, na maioria das vezes, faz a gente correr atrás da bola! 😉

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