O estresse de cumprir o prazo com qualidade

Olá, pessoal!

Estou de volta com a dúvida de uma leitora que recebi por e-mail. Tenho certeza de que, senão todos, a maioria dos iniciantes passam pela mesma coisa, então resolvi responder por aqui.

Se vocês estão passando por dificuldades semelhantes, seria muito valioso se relatassem suas experiências lá nos comentários. Em fases complicadas, é muito bom saber que não estamos sozinhos, não é?

Fiz o curso de Letras/Tradução (Francês) e possuo o curso completo da Aliança Francesa, portanto posso dizer que tenho um bom conhecimento da língua estrangeira da qual traduzo (o francês) e um bom conhecimento também do português. Recentemente fiz também um curso de Especialização em Tradução. Posso dizer que conheço bastante a teoria da tradução. Entretanto quando se trata de pôr isso em prática no Mercado de Trabalho da Tradução, a coisa se torna muito complicada. Já tive uma curta experiência em agência de tradução e tive muita dificuldade de conciliar a qualidade do trabalho à quantidade de laudas que tinha que produzir por dia. Como cumprir o prazo de entrega é sempre muito importante, acabava pecando na qualidade do meu trabalho. Acabei não suportando a frustração de não estar realizando um bom trabalho (como se aprende na Universidade) e o trabalho sob pressão. Como posso resolver esta questão, já que não gostaria de abandonar anos de estudo e dedicação à Tradução e partir para outra área.

Essa, sem sombra de dúvidas, é uma das maiores frustrações dos tradutores. Acredito que todo tradutor já passou ou irá passar por isso um dia. Não há uma fórmula mágica para responder a essa pergunta, mas posso deixar aqui minha opinião com base em experiências passadas.

A qualidade do trabalho é sempre mais importante do que o prazo. É nisso que devemos acreditar, ainda que as agências ou outros clientes digam o contrário ou queiram nos forçar a acreditar que não é. A qualidade do trabalho é o nosso produto final e nosso cartão de visitas, é o que fica. Ninguém, depois que você entrega uma tradução, pensa no tempo que você teve para fazer, nem nas condições, nem no prazo. E, consequentemente, ninguém vai relevar erros e inconsistências que aparecerem como resultado disso.

Por outro lado, como devemos proceder quando tantas agências exigem de nós prazos irreais? Como lidar com condições nada razoáveis? Minha opinião é: negociar. Sempre.

Primeiro, tenha uma ideia de quanto você consegue produzir por hora, por exemplo. Quantas palavras você consegue traduzir por hora? Qual o seu rendimento para tradução, versão e revisão? Quantas horas você consegue ou tem disponível para trabalhar por dia? Sabendo como é sua produção e seu ritmo, fica mais fácil avaliar se o prazo que a agência está requisitando está dentro ou fora dos padrões (o seu e o do mercado – se uma agência pedir 30 mil palavras em um dia, não é só você que não conseguirá cumprir essa meta, mas provavelmente nenhum outro tradutor).

Não há problemas em tentar negociar o prazo. Simplesmente explique que o prazo pedido não é possível de ser cumprido e diga em que data poderá entregar a tradução (faça isso sempre ANTES de confirmar o trabalho; renegociar prazos durante o trabalho, só em casos excepcionais). Muitas vezes, os iniciantes têm medo de contrariar a agência e de perder o trabalho. Tratando do assunto com cordialidade (pois negociar não significa xingar o cliente porque ele não tem noção do que está pedindo, embora às vezes dê vontade ;)) é possível ainda conseguir o trabalho. A agência pode querer passar a outra pessoa, e a gente precisa aceitar que isso também acontece. Mas também precisa entender que nem sempre essas negativas são ruins para nós. Pode ser que apareça uma outra oferta de trabalho com melhores condições (que você não poderia aceitar caso estivesse se descabelando para cumprir o prazo da outra). Ou que essa mesma agência volte para você futuramente com melhores prazos, pois percebeu que não adiantou passar para outro tradutor, que aceitou as condições mas fez um trabalho muito ruim.

Outro ponto: não somente as agências podem fazer exigências. O tradutor também pode. O prazo é apertado e o arquivo está em PDF difícil de converter? Peça que mandem o arquivo já convertido e formatado para poupar tempo da tradução (e que o prazo só comece a correr a partir do recebimento deste arquivo).  São pequenas (grandes) coisas como essa que mostram para os clientes que somos profissionais e que não podemos aceitar qualquer condição sem que respeitemos as nossas próprias.

Quando saímos do meio acadêmico, encontramos um mundo muito diferente lá fora. Eu também senti isso e, com medo, demorei para me arriscar no mercado. Acho que já contei aqui que depois de ter me formado em tradução fui fazer jornalismo, e hoje vejo que foi por fuga, por insegurança. Justamente pelo fato de não saber encaixar as teorias na prática. Então, por experiência própria, eu digo: não é preciso desistir da tradução. O medo é normal no começo e, com o tempo, a gente vai se acostumando com o mercado, com o que ele exige de nós e com o que podemos exigir dele também. E isso em qualquer profissão.

As teorias que aprendemos na faculdade são ótimas porque ficam internalizadas em nós. São elas que nos dão noção do que podemos e devemos fazer na hora de traduzir, que aperfeiçoam nossa tradução. Porém, as teorias estão na base do que somos como tradutores, mas constituem uma parte pequena da nossa totalidade. Ou seja, um tradutor é a soma do que ele aprendeu e do que ele pratica como profissional perante o mercado, os colegas de trabalho, os clientes, as agências.

Todos nós, experientes ou não, temos que conciliar tudo isso no cotidiano da profissão. Muitas vezes é frustrante, a gente se decepciona, se desanima. Mas, com o tempo, conseguimos encontrar o equilíbrio entre todas essas coisas. É difícil de acreditar nisso quando estamos no meio do turbilhão. Mas persevere e você verá que, assim como muitos, você também vai conseguir.

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12 responses to “O estresse de cumprir o prazo com qualidade”

  1. Beatriz Araujo says :

    Lorena
    Seu post é ótimo! Qual tradutor que nunca passou por este susto no início da carreira?
    Meu caminho é um pouco diferente, não sou formada em tradução, sou farmacêutica.
    A sugestão que deixo para os iniciantes é procurar se especializar numa área. Jurídico, contabilidade, engenharia, saúde, TI… Mas se especializar, sempre. Isto envolve dedicação, insistência, pesquisar, quebrar a cabeça e até levar uns sustos. Vale a pena.
    Acredito que isto afeta diretamente os prazos dos trabalhos. E ajuda a selecionar os projetos também. O iniciante perceberá que terá uma produtividade muito maior com textos que usem termos com os quais ele está acostumado. Assim você sabe quanto tempo precisa para dar conta de um projeto.
    E recusar um projeto por causa do prazo não é o fim do mundo! Sempre digo que não posso entregar um trabalho de qualidade com um prazo tão curto! Os gerentes de projeto que conheço já se acostumaram com minha resposta. E perguntam quando eu posso entregar o trabalho. As vezes eles não podem aumentar o prazo. Tudo bem, mandam para outro tradutor. Melhor do que a dor de cabeça de consertar uma tradução de qualidade questionável.
    Abraços e boa sorte!

  2. Lorena Leandro says :

    Bia, excelente seu comentário! Principalmente porque esse é justamente o assunto do próximo post! Especialização é assunto importante e muitos também têm dúvidas sobre isso. Bacana, você já me fez pensar em um ótimo gancho 🙂

    Quanto aos prazos, no começo é um pouco de tentativa e erro mesmo. Quando a gente ainda não tem muita noção do que consegue pegar, tanto em relação a volume quanto ao assunto do texto a ser traduzido, a gente peca em aceitar prazos nada razoáveis. Mas depois que começa a prestar atenção na nossa própria produção ou nas nossas limitações, fica mais fácil saber quando aceitar ou recusar um job.

    E, é como a gente falou, não é errado recusar ou renegociar prazos. Faz parte da rotina do tradutor. Por mais chato que seja, é algo com que temos que lidar.

    Obrigada e super beijo 🙂

  3. Sheila Gomes says :

    Mais uma vez na mosca, Lorena. Ontem tive a chance de dar uma palestra sobre tradução no curso de letras de uma universidade local e recomendei seu blog como um dos mais profícuos em ótimos conselhos para principiantes. E essa questão de prazo é realmente das mais importantes, pois é um dos primeiros indicativos que o cliente vai ter de quanto pode confiar em seu trabalho, antes mesmo de avaliar a qualidade do mesmo. Muito bom!

    • Lorena Leandro says :

      Sheila, que bacana, obrigada pela indicação do blog 🙂

      Concordo com o que você disse sobre prazo. Não adianta sermos ótimos se não conseguirmos respeitar as datas de entrega.

  4. Carlos Vieira says :

    Estou iniciando na carreira de tradutor, e estou me surpreendendo com a quantidade de trabalhos que tenho dispensado por causa dos prazos das agências. Parece que elas estão sempre com prazos apertadíssimos. Será que estão mesmo, ou passam prazos apertados pra entregar mais trabalhos e aumentar a produção? Como tradutor iniciante, recusar um trabalho é recusar adquirir mais experiência, né?! É bem complicado!

    • Lorena Leandro says :

      Pois é, Carlos, são muitos fatores que contribuem para esses prazos tão apertados. Inclusive porque há agências de todos os tipos. Há aquelas que querem aumentar a produção e pegam mais serviços do que podem dar conta, há as que realmente recebem muitos trabalhos de urgência por causa do tipo de clientes que possuem e há as desorganizadas, que às vezes recebem prazos razoáveis, mas ficam com o trabalho parado (e quando finalmente repassam para o tradutor, o prazo já está chegando ao fim).

      O iniciante acaba, sim, aceitando muitas condições desfavoráveis, muitas vezes porque ainda não tem muita ideia do quanto consegue produzir ou de como o mercado se comporta em relação a prazos. O negócio é achar o meio termo: não precisa recusar tudo, nem aceitar tudo. Aos poucos, a pessoa encontra seu ponto de equilíbrio. O importante é buscar, constantemente, condições e clientes que nos sejam mais favoráveis. Isso leva tempo, é complicado diversificar a cartela no começo, mas é um processo natural. Aos poucos, a gente acaba elevando o patamar.

  5. Carlos Vieira says :

    Ah! Esperando ansioso o post sobre especialização. Essa é um ponto que tenho dúvidas, como se especializar quando se vem de uma garduação em Letras, por exempo?

    • Lorena Leandro says :

      Não desanime se demorar um pouquinho pra sair. 🙂
      Estou escrevendo mas o tempo anda curtíssimo. Mas realmente, esse assunto é importantíssimo e também estou ansiosa para falar sobre ele!

  6. Jesse dziedzic says :

    I don’t disagree with you!!!

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