Especialização

Como ser um tradutor especializado? Quando se especializar? A especialização é obrigatória?

Essas são perguntas que muitos tradutores iniciantes se fazem. As respostas, como sempre, não vêm prontas. Como já sabemos, a tradução, sendo um mercado tão variado e extenso, permite trilhar diversos caminhos. Não é diferente com a especialização. Vejamos, então, quais são os diferentes rumos que levam à especialização e o que ela significa para o tradutor.

Ter formação em outra área

Quando uma pessoa escolhe ser tradutora depois de ter se formado em outra área, especializar-se é um caminho natural. Um engenheiro que vira tradutor já tem o conhecimento técnico necessário para traduzir textos da área, pois vivenciou experiências nela e se acostumou com os termos e jargões do setor. Ao buscar novos clientes, ele vai se concentrar naqueles que estejam envolvidos com a indústria. Seu trabalho será mais fácil quanto à pesquisa, porque com os conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação, não será necessário procurar todos os termos técnicos e específicos do texto. No geral, sua remuneração será melhor, já que nem todos podem oferecer a qualidade técnica que ele oferece. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que a tradução em si também exige conhecimentos específicos e que não basta conhecer engenharia e inglês para traduzir com qualidade. É preciso aperfeiçoar continuamente as habilidades com a língua e o texto.

Buscar áreas de afinidade

Para quem escolheu a tradução como primeira formação, o caminho para a especialização é um pouco mais longo. Com os conhecimentos linguísticos e tradutórios em mãos, o tradutor iniciante depara-se com um mundo de áreas e assuntos para serem traduzidos. O que acontece é que o tradutor iniciante começa traduzindo de tudo. Não é o ideal, mas é uma realidade que não se pode negar. Afinal, como ele vai saber quais são os melhores tipos de texto para o seu perfil? O principiante é, antes de tudo, um generalista. Depois de ter tido contato com inúmeros textos, ele começa a se identificar com alguns tipos. A partir dessa descoberta é que ele vai buscar clientes que estejam inseridos nos setores de que mais gosta. Vale também fazer cursos sobre o(s) assunto(s) de maior interesse e participar de eventos da(s) respectiva(s) área(s). Não é um passo fácil, é preciso ter paciência. Mas mantendo o foco, as coisas acontecem.

Acasos e coincidências

Outro modo de se especializar é o puro acaso. Às vezes começamos a traduzir para um cliente que manda sempre um certo tipo de texto. Ele gosta do nosso trabalho e continua mandando textos sobre aquele assunto. Vamos acumulando conhecimentos sobre a área, formando glossários, e fica cada vez mais fácil traduzi-la. Está dado o primeiro passo para a especialização. Daí podemos passar a procurar outros clientes com as mesmas necessidades. É claro que pode acontecer de fazermos um bom trabalho em determinada área, ma simplesmente não gostarmos dela. Essa é a hora de mudar o foco e tentar seguir outro rumo.

Especializar-se no tipo de texto ou no tipo de tradução?

Precisamos lembrar também que além de diferentes tipos de texto, há diferentes tipos de tradução. O que você gostaria de fazer: legendar, traduzir livros de ficção, interpretar em eventos, fazer localização de software? São escolhas importantes, pois nem sempre um bom tradutor é um  bom intérprete, por exemplo. São tipos de tradução que exigem habilidades e técnicas distintas. Mas também não são áreas excludentes. Muitos tradutores de legenda também traduzem textos técnicos, muitos intérpretes fazem tradução escrita, e por aí vai. Escolher entre tipo de texto e tipo de tradução é uma escolha conjunta, que vamos fazendo conforme adquirimos mais experiência.

A especialização é obrigatória?

Aqui vai uma opinião sincera: nada é obrigatório. Existem, sim, caminhos que são mais naturais, ou mais fáceis, ou mais óbvios. O importante é traduzir com qualidade. Dizer “eu gosto de traduzir de tudo” é uma cilada, porque até esse “tudo” tem um limite. Dificilmente uma pessoa gosta tanto de física nuclear quanto de religiões orientais. Se você não quer se especializar em um único assunto, não é tanto um problema. Apenas delimite o seu “tudo”. Escolha algumas áreas de que gosta mais e concentre-se nelas.

Vantagens e desvantages da especialização

Quando o tradutor se “ultra-especializa” e fica conhecido no setor por isso, dificilmente os clientes irão procurá-lo para fazer outros tipos de tradução. De certo modo, fechar muito as opções pode ser limitador. É uma desvantagem querer se aventurar em outras áreas e não ter a chance. Por outro lado, a vantagem do tradutor bem especializado é não ter que lidar com uma ampla concorrência e poder elevar o patamar de seus preços consideravelmente. Ele sendo bom, os clientes pagarão. Mas vale lembrar que se especializar visando somente o lado financeiro pode ser um tiro no pé. Ninguém é feliz fazendo o que não gosta, só para ganhar bem. Dinheiro é consequência, não causa.

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9 responses to “Especialização”

  1. Bete Oliveira says :

    Puxa, Lorena. O site está maravilhoso! Parabéns! Você, sempre esclarecendo várias dúvidas dos principiantes como eu. No meu caso, possuo formação na área pedagógica. Acho que, por isso, estou tendo que começar do começo. Estou terminando um curso de inglês e me inscrevi em uma pós de Tradução. Ainda não sei se é o meu perfil, mas gostaria de trabalhar com legendagem. Sei que existem alguns cursos muito bons. A Carol Alfaro vai iniciar um, mas as datas me impediram de fazê-lo. Vi no seu perfil que está fazendo isso. Se puder falar um pouco mais sobre o assunto pensando em quem está começando agora, agradeceria muito. Será que existe alguma forma de especialização pensando em legendagem? Especializar-se em quê? Ficção, espionagem, documentário, etc. Ou o certo é trabalhar com legendagem de uma forma ampla? Dúvidas, dúvidas…

  2. Lorena Leandro says :

    Oi Bete, obrigada!

    Sim, eu fiz o curso da Carol em 2010 (básico) e 2011 (avançado) e valeu muito! Ainda estou fazendo meus primeiros trabalhos na área, então talvez não seja a pessoa mais indicada para falar sobre isso. Mas o site da Carol está recheado de textos bacanas sobre o mercado de legendagem, dá uma passada lá!

    http://artedatraducao.blogspot.com/

  3. Alonso Freire says :

    Concordo, Lorena. Bom post.

  4. Fátima Barros says :

    Lorena, querida. A “cara nova” do site está maravilhosa, parabéns! Eu diria que está impecável e, como sempre, os assuntos que você aborda são de muita valia para quem está querendo entender melhor a respeito da profissão de Tradutor. Estou sempre atenta às suas dicas. @!@

    • Lorena Leandro says :

      Obrigada, Fátima! Fico muito contente que tenha gostado, eu também estou curtindo bastante as mudanças do site 🙂

  5. rpvillas says :

    Resolvi contribuir com o assunto com minha própria experiência.
    Por ter amplo conhecimento e formação extracurricular no idioma inglês, sempre preferi os livros do meu curso de engenharia em inglês. Por conta disso, com frequência era solicitado a fazer “traduções” de capítulos, artigos de periódicos e outros para colegas da faculdade.
    Uma vez formado, não raro tomava a iniciativa de condensar manuais de determinados procedimentos em manuais devidamente traduzidos, o que significava pesquisar muito (na época não havia Internet) para ser o mais fiel possível.
    Uma vez precocemente aposentado, fui apresentado ao mundo da tradução técnica via Internet e após muito trabalho consegui conquistar um certo respeito na área. E não credito isso à minha formação, mas sim a algumas coisas que aprendi. Entre elas coloco:
    – Coloque-se no lugar do leitor. Isso exige uma releitura cuidadosa do texto traduzido. Você pode dizer que os prazos dados não permitem, mas se você tentar vai conseguir;
    – Pesquise, pesquise e pesquise. Isso exige que você aprenda a pesquisar. Faça seus próprios glossários. De preferência um para cada cliente. Isso vai dar consistência às suas traduções;
    – Na dúvida, pergunte. Já houve casos de ir até a um aeroporto para tirar uma dúvida sobre uma determinada peça;
    – Escolha uma área ampla o suficiente para te garantir trabalho sempre, como foi abordado no tópico acima sobre as vantagens e desvantagens da especialização. No meu caso quando falo em engenharia, fui além da minha especialidade (Elétrica/Eletrônica/Ciências da computação) me “especializando” nas áreas de mecânica (petróleo e gás, principalmente), civil e de produção e, tendo tempo não recuse outros trabalhos. Recentemente comecei a traduzir textos sobre viagens e turismo;
    – Domine a linguagem técnica. Escreva conforme as normas da ABNT para evitar eventuais problemas e garantir a boa vontade de clientes exigentes;
    – Procure sempre continuar aprendendo. Isso é essencial e vai ajudá-lo a manter o gosto pela profissão;
    – E sempre, sempre compartilhe o que aprendeu. Só assim você consiguirá continuar aprender mais.

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