Mãe e freelancer: o que aprendi até agora e algumas dicas

Essa é a segunda parte (leia a primeira aqui) do meu artigo respondendo a dúvidas de uma leitora que quer iniciar na tradução para, entre outras coisas, poder passar mais tempo com o filho pequeno. Portanto, hoje o artigo será dedicado ao que se pode esperar da rotina de mãe e freelancer. Clicando nos links ao longo do texto, você poderá ler outros artigos sobre o assunto.

2013 foi o primeiro ano em que me dividi entre maternidade e trabalho. Aprendi muita coisa e a palavra que definiu esse período foi “adaptação”, sem sombra de dúvidas. Para que essa adaptação seja mais tranquila, compartilho abaixo um pouco da minha rotina e algumas dicas de como tornar o dia-a-dia mais fácil.

Prepare-se para diminuir o ritmo

Antes de ter meu filho, eu chegava a trabalhar até 12 ou 13 horas num dia, dependendo do tamanho ou da quantidade de projetos. Como estava começando na vida de autônoma, me acostumei com esse ritmo pois era um momento de muita prospecção de clientes, de tentar coisas novas, de testar a produção diária.

Quando engravidei, o ritmo já não estava tão insano, mas ainda assim trabalhava o dia todo, entre seis e oito horas.  Já na própria gravidez comecei a desacelerar, especialmente porque o corpo pediu. Quando tive meu filho, fiquei quatro meses longe dos teclados.

A volta ao trabalho foi bem gradual. Precisei pensar muito bem em quantas horas poderia trabalhar por dia, e não seriam muitas. Sem babá ou empregada, quem cuidaria do pequeno seriam as vovós durante as tardes, então precisei me organizar de acordo com a agenda delas.

Sair de 13 horas de trabalho diárias para no máximo quatro é uma diferença brutal. No começo a gente sente como se ainda estivesse fora da vida profissional, como se fosse apenas um ensaio para a grande volta. Mas depois acostuma. E acabamos fazendo escolhas mais inteligentes por conta disso: escolhemos os clientes a dedo, não pegamos mais trabalho do que daremos conta, administramos melhor o tempo de trabalho.

Dica 1: se você está grávida, já vá pensando em quais clientes deseja manter e quais deseja dispensar quando voltar da licença. Cultive os primeiros e vá largando os segundos aos poucos.
Dica 2: se você está deixando a vida de CLT para a de autônoma, o começo vai ser devagar mesmo. No início, seu tempo de trabalho será dedicado para prospectar clientes, estudar, participar de eventos. Leve isso a sério, porque isso é trabalho também, e se você fizer direito, renderá ótimos frutos.

Saiba aproveitar o tempo

Procrastinação todo tradutor autônomo conhece. É difícil manter a concentração e a produtividade sempre, todos os dias. O problema é que quanto mais tempo a gente tem, mais procrastina, porque sabe que “pode” deixar para depois.

Mas quando a gente é mãe e nossos filhos ainda não vão para a escola, ou contamos com ajuda limitada, sabemos que se não fizermos o trabalho naquela hora, dificilmente teremos outro momento para continuar ou finalizar a tarefa. É uma espécie de “agora ou nunca”. Claro que, ainda assim, especialmente se o prazo for folgado, haverá aquelas dias de produção baixa, por causa de uma série de fatores: cansaço, doença, imprevistos. Isso só não pode se tornar regra.

Portanto, é preciso saber se organizar e alocar o tempo para cada serviço, tentando não deixar as coisas da casa invadirem o horário de trabalho e vice-versa.

Dica: não use todo e qualquer horário para colocar o trabalho em dia. O melhor é trabalhar na hora que precisa trabalhar, descansar na hora que precisa descansar. Assim você não gasta energia fora de hora e pode passar mais tempo com seu filho ou cuidando dos assuntos domésticos.

Não estranhe se suas prioridades mudarem

(…) lembre-se de que você é uma só e que, a partir do momento em que se torna mãe, essa é a sua profissão principal. (leia aqui o artigo completo da Rafa Lombardino)

A Rafa não poderia estar mais certa com essa frase! Quando a gente é mãe, o foco simplesmente muda. Se antes, toda a minha concentração e maior parte dos meus esforços iam para o trabalho, hoje é totalmente diferente.

Por mais que tenha sido difícil diminuir o ritmo de trabalho, hoje não me vejo trabalhando mais do que cuidando do meu filho e da minha casa. Eu confesso que era bastante negligente com os assuntos domésticos antes de engravidar, e achava que toda a minha energia tinha que ir para o trabalho.

Atualmente, não me importo de trabalhar menos (e, consequentemente, ganhar menos também). Eu fico feliz de ter encontrado o equilíbrio entre casa e trabalho, e acho que jamais voltaria a negligenciar meu lar por conta dos compromissos profissionais. Tenho plena noção de que, para muitas pessoas, essa negligência não é voluntária, mas sim uma imposição das circunstâncias. Por outro lado, escolher a vida de autônomo pressupõe justamente ter a liberdade de escolher também o que vamos priorizar.

Se você está passando da vida de CLT para a de autônomo a fim de passar mais tempo com seu filho, tenha essas coisas em mente. Enquanto seu(s) filho(s) forem pequenos, muito provavelmente você não ganhará tanto quanto antes, porque não trabalhará tanto quanto antes. E isso não é problema algum. É que, no começo, é difícil mesmo deixar de se enxergar somente como profissional. Mas, aos poucos, a equação vai mudando, e a proporção entre vida doméstica e trabalho também.

Dica: nem todo cliente é carrasco. Há clientes que compreendem sua situação se você jogar aberto com eles. Eu tenho deixado claro que não posso aceitar trabalhos de urgência ou prazos muito apertados, e não tem faltado trabalho. Se você for competente, o cliente vai passar serviço mesmo assim, porque ele sabe que receberá um trabalho bem feito. Portanto, nunca aceite um trabalho se você não vai dar conta. Perder um prazo ou entregar um trabalho de baixa qualidade é garantia de perder o cliente também.

Estabeleça uma rotina (sabendo que ela pode mudar)

Já tivemos várias rotinas desde que meu filho nasceu. As fases da criança mudam, nossa rotina também. Algumas são mais tranquilas, outras mais complicadas, mas a rotina é sempre bem-vinda.

É preciso pensar em diversos fatores quando queremos definir uma rotina que inclua os serviços profissionais e domésticos, sem embaralhar tudo. Por exemplo:

Em que horários você poderá ficar sozinha para trabalhar?
Dá para conciliar esses horários com seus horários mais produtivos?
Qual a melhor hora para cozinhar para o seu filho?
Dá para congelar a comida e não precisar fazer almoço todo dia?
E a limpeza? Tem faxineira, empregada ou é tudo por sua conta?
Em que horário você poderá limpar a casa sem atrapalhar a rotina profissional?
E os fins de semana?
Você trabalhará aos sábados e domingos?
Vai separar um dia da semana ou dois para descansar?

Enfim, são algumas perguntas básicas a se fazer antes de estabelecer seus horários. Como exemplo, posso falar um pouco do que funciona para mim.

De manhã me dedico somente à casa (limpeza, comida etc.) e ao meu filho. Mesmo quando tenho um tempinho nesse período, uso-o para mim. Pode ser para tomar um banho mais longo, ou para escrever um artigo para o blog. Enfim, as manhãs são nossas.

À tarde, meu filho fica com minha mãe ou minha sogra, dependendo do dia da semana. É hora de produzir o máximo que der, enviar e-mails, cobrar clientes.

À noite, é hora de descansar, cozinhar se precisar, sair um pouquinho nos dias quentes, ler, conversar com o marido, dormir,  enfim… Um apanhado de coisas que não deu para fazer durante o dia.

Fins de semana são para descansar (a rotina da semana já é muito pesada, não é?), passear e me dedicar à família. Raramente trabalho, mas se precisar, faço alguma coisa no sábado. No domingo, nunca.

Dica 1: a dinâmica da rotina pode mudar (inclusive de um dia para o outro). Para ajudar a manter uma certa consistência em meio às mudanças, estabeleça uma rotina ideal, que vai ajudar a manter a rotina real (entenda melhor aqui).
Dica 2: seja flexível. Não é sempre que conseguimos cumprir o que planejamos, do jeito que planejamos. Às vezes temos um dia muito produtivo e no outro estamos cansados demais. Veja as pequenas mudanças na rotina como algo natural e não se cobre pelo que acabou deixando de fazer. Saber re-planejar é essencial.
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2 responses to “Mãe e freelancer: o que aprendi até agora e algumas dicas”

  1. Marcela Fregonezi says :

    Querida, vc não imagina o quanto me ajudou. Sou revisora de texto freelancer, estou casada há 1 ano e ainda não tenho filhos (nem estou grávida), mas esse assunto sempre acaba rolando e uma das minhas preocupações é: como vou manter meu trabalho LOUCO sendo mãe? Eu também chego a trabalhar às vezes mais de 12 horas por dia, então teria que abrir mão de muito trabalho pra poder seguir a “profissão de mãe”. Daí penso no quanto de despesa extra terei com um filho e em quanto de dinheiro a menos eu ganharei, rsrs. É bem desafiante, né? Mas aposto que vale a pena cada sacrifício. Quando chegar a hora eu volto aqui nesse texto pra me dar inspiração, rsrs
    Beijos, sucesso!

  2. Natália says :

    Oi Lorena!!!

    Conheci seu blog hoje e não sei bem como cheguei aqui, só sei que eu amei! Você está de parabéns por manter um blog tão legal quanto esse, com assuntos tão pertinentes e tão úteis!

    Sou tradutora profissional há 3 anos, e há 5 meses nasceu meu príncipe encantado, meu primeiro filhinho que é a razão de tudo o que faço. Antes dele nascer, era exatamente como você disse, trabalhava muiiitass horas, sem preocupação nenhuma com o gerenciamento do meu tempo, porque afinal só tinha que me dedicar aos deadlines e meu namorido, era tudo de boa. Aí, o Alê nasceu…..

    Fiquei 3 meses sem nem abrir o notebook, me dedicando totalmente a ele, nesses 2 meses que já estou na ativa, como você disse também, é como se eu ainda estivesse treinando pra voltar de verdade. Também não aceito trabalhos com urgência.

    Eu não tenho parentes com quem possa deixar meu neném, e creche, nem pensar, então, minha rotina louca (mas que dá certo) é: Trabalho de madrugada. Não tenho problema com isso porque é o meu horário mais produtivo, e o único que posso dedicar toda minha atenção ao trabalho. De manhã eu durmo junto com o Alê, ele acorda às 8h para mamar, e depois às 11h, mas depois de mamar ele sempre dorme de novo, e eu vou junto. Acordamos de verdade lá pela 13h. De tarde, eu fico com ele e também cuido da casa graça a Galinha Pintadinha, haha. De noite, fico com ele e com o namorido, É puxadinho também, mas é o melhor jeito por enquanto. Minha sorte é que meu filho dorme bastanteee.

    Enfim, muito legal conhecer a rotina de uma mamãe que trabalha com o mesmo que eu. Deu uma sensação de “vc não é a única, Natália.” haha.

    Um beijão,

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