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Parada obrigatória

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Alguns de vocês acompanharam pelo Facebook o problema que tive com o domínio do blog. Bem, estou de volta com novo endereço e aproveito para retomar, de algum modo, as postagens. Ainda estou arrumando a casa e alguns links podem estar levando para o endereço antigo, problema que estou solucionando aos poucos. Me avisem se encontrarem alguma coisa estranha, ok? Aliás, quem quiser entrar em contato por e-mail, já pode escrever para: contato@lorenaleandro.trd.br ou aoprincipiante@gmail.com. E aproveito, também, para pedir desculpas a quem me escreveu anteriormente e não obteve resposta. Alguns e-mails não estavam chegando pelo reencaminhamento. Podem me enviar novamente, se ainda precisarem de mim.

Essa foi a primeira parada obrigatória (chata e inconveniente). Antes de falar da segunda (boa e necessária), gostaria de agradecer a todos que se mostraram tão prestativos em me ajudar a resolver o problema. E também a me lembrar que o blog, mesmo com uma frequência de posts muito aquém da que eu gostaria, ainda é bastante acessado.

Mas vamos falar, então, da segunda parada.

Para quem ainda não sabe, estou grávida do meu terceiro bebê, que deve nascer em abril do ano que vem. É um momento muito feliz ver a família crescendo de novo! Mas também é momento de reorganização de toda a estrutura familiar e profissional, porque ter três filhos seguidinhos não é moleza, não!

Para dar conta do recado e de tudo que a maternidade e a própria gestação exigem (e de tantas outras coisas que andam acontecendo ao mesmo tempo), resolvi fazer uma pausa no trabalho. Uma retirada estratégica, para que eu possa me cuidar e também me dedicar às crianças. Como boa monotarefa, não poderia ter tomado decisão diferente.

Isso não significa que a tradução não terá mais espaço durante esse período sem trabalhar. Afinal, como eu já disse por aqui, tradutor, quando não trabalha… trabalha! Acho que posso fazer algumas coisas simples para me manter atualizada e não ficar muito longe do mundo profissional até voltar à ativa. Pensei em coisas como: continuar acompanhando fóruns, grupos e listas de discussão; aproveitar para preparar mais posts para o blog; voltar a ler artigos, blogs e sites sobre tradução; participar de eventos pequenos e encontros com colegas; assistir a vídeos, aulas, palestras e, quem sabe, cursos online; rascunhar ideias para projetos futuros.

Claro que tudo isso será mais viável até o momento em que o bebê nascer. Depois do parto, sei que ficarei um bom tempo longe de tudo, porque toda a energia estará voltada para o novo membro da família. De qualquer modo, enquanto puder, certamente farei algumas dessas coisas, para não deixar a peteca cair e fazer uma transição mais tranquila quando retornar ao trabalho (o que ainda não sei quando vai, de fato, acontecer).

Por isso, pessoal, continuem sempre à vontade para entrar em contato e não percam as esperanças: eu ainda pretendo publicar no blog de vez em quando! 🙂

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Dois assets de primeira necessidade para um tradutor

Observação 1: se você for do tipo velho(a) rabugento(a), teimoso(a) e apegado(a) às suas verdades, não recomendo a leitura deste artigo, pois ele é direcionado apenas às pessoas à frente do seu tempo e dispostas a melhorar suas vidas através da mudança de alguns conceitos. 😀

Observação 2: toda vez que desistir de investir nos dois ou em um dos assets aqui sugeridos, recomendo que volte a ler o texto até decidir tomar a atitude certa e investir. 😛

Quando a gente tenta colocar ordem na vida, a primeira palavra que vem à nossa cabeça é a f@3$d@%&*p@ da “organização”. Acho que já disse que estou ficando traumatizada com essa palavra. Quantas vezes você olhou para a bagunça inevitável ao seu redor (tá, alguma bagunça dá pra evitar, mas a gente não tem tempo, a gente pensa demais pra ter que ficar pensando em arrumação) e pensou: “Meu Deus, preciso dar um jeito nisso, onde já se viu? Um profissional lindo, poderoso, eficiente como eu, com uma zona dessas à minha volta? Se o cliente visse isso aqui, jamais confiaria na minha capacidade de organização para um projeto grande!”. Quantas?

E a bagunça não é só na sua mesa de trabalho. A essa altura, você provavelmente já se esqueceu de pagar alguma conta, falta leite na sua geladeira, a ração do gato já está sendo fracionada há uma semana, você precisa usar a mesma camiseta que vem usando há três dias porque ainda não teve tempo de tirar a roupa da máquina pra pendurar no varal, sua mãe manda o FBI te procurar porque você não telefonou pra confirmar que estava vivo depois das últimas 897 ligações. Melhor parar por aqui porque se algum de vocês tem tendências a problemas de ansiedade, deve estar prestes a ter um surto.

Só que quando você tem tempo pra perceber a coisa toda, você está normalmente exausto depois que entregou um projeto que consumiu até a última gota de glicose do seu cérebro. Está naquele estágio que eu chamo de pré-lobotomia, em que a única coisa que conseguimos fazer é ver algo bem idiota na TV e não pensar, não se movimentar, no máximo, comer. Uma coisa bem calórica, de preferência, porque merecemos, porque estamos exaustos (na verdade é o cérebro querendo que você se ache merecedor porque ele precisa de glicose pra não pifar de vez). Nessa fase, nem dormir a gente consegue! Colega, a fase de surtar e sair passando roupa ou lavando banheiro já passou faz tempo, aquilo foi um ensaio de loucura quando você estava em pânico achando que não ia dar tempo de entregar o projeto. Agora, sai pra lá com essa ideia de fazer compra, deixa pra amanhã, quando meu cérebro voltar a emitir alguma onda.

Depois que você volta ao mundo dos vivos, já tem outro projeto pra entregar, tem até algum prazo, então decide, à la Roberto, que “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Acontece que entra outro projetinho (ah, moleza, entrego logo e me livro), mais um, outro, outro maior com prazo que dá pra encaixar com o outro. Quando você vê, está na mesma loucura que estava no projeto anterior para a próxima semana, ou mais. Aí começa tudo lindinho arrumando a mesa, limpando tudo bonitinho, afinal, novo round. Joga tudo dentro de uma caixa – que provavelmente nunca mais será aberta. Se algum dia, por acaso, tiver que abrir a tal caixa, normalmente porque perdeu algo importante, como o passaporte, vai encontrar dois cartuchos novinhos pra impressora e vai querer bater a cabeça na parede porque perdeu 3 horas pra ir até a Kalunga comprar os malditos cartuchos ou porque gastou o equivalente a uns quatro chopes só de frete pra comprar on-line. Em seguida, começa o festival de fast food. Imagina se no meio disso tudo vai sobrar tempo pra fazer comida. Vamos rezar pra mãe ter piedade e trazer umas comidas pra você congelar, né?

E isso vai se acumulando ao longo dos anos (devo ter umas 20 caixas aqui, tenho até medo do que pode haver lá dentro). Tenho uma amiga que tem uma tática incrível que passarei a adotar. Ela bota as coisas na caixa, se em três meses não abrir a caixa, joga fora sem olhar. Cara, isso é o que eu chamo de desprendimento! Preciso disso. Agora, somado a tudo isso que eu disse, imagina se você tem filho(s), bicho(s) de estimação, e uma casa duas vezes maior do que tem hoje. Multiplica o tanto de louça, o tanto de comida, o tanto de roupa que tem que lavar/passar, o tanto de bagunça. Multiplicou? Pois bem, senta, respira, tenta imaginar um campo florido, lindo, com pássaros cantando. Ou imagina uma praia bem gostosa, Trancoso… Passou? Então voltemos.

Então, principalmente para quem tem família, acho de fundamental importância considerar a contratação de uma empregada, secretária, faz-tudo do lar, não importa o nome que você dê à sua salvadora. Muitos vão dizer que não precisa, que vai se virando, que é uma despesa desnecessária. Bom, se na sua casa funciona sem, feliz de você. Aqui não funciona. Somos dois tradutores e duas adolescentes (santas, em vista de muitos que conheço) e o dinheiro que gastávamos com diaristas e pedindo comida era pelo menos o dobro do que gastamos hoje mantendo uma empregada registrada que faz tudo (inclusive as compras). O tempo que perdíamos nos dedicando às tarefas domésticas, por mais que intercalado com outras atividades e de forma compartilhada entre todos, acabava somando para a desvantagem financeira.

Tá bom, se você mora sozinho ou se moram você e o cônjuge, talvez não precise de uma empregada diariamente. Eu, nesse caso, contrataria uma diarista umas duas vezes por semana. Ah, mas uma vez dá. Não, deixa de teimosia, não dá! Não se você pensar que ela vai limpar, lavar, passar, cozinhar e, eventualmente, fazer compras. Só pra dar jeito na roupa, por exemplo, precisa de dois dias, ou você acha que a mulher é mágica e lava/seca/passa tudo no mesmo dia? Bem, se ela estiver no verão em, vejamos… Brasília, pode até ser – se ficar o dia todo. Você pode combinar que um dia ela vem, lava, passa a da semana anterior e limpa, no outro só faz compras e cozinha para a semana.

A menos que a sua mãe ou a sua sogra (ou sei lá quem) faça tudo isso pra organizar sua vida de graça (em geral, isso nunca é de graça) ou que você more com seus pais/avós, vale a pena financeiramente. Você terá tudo em ordem (menos a sua mesa de trabalho), comida saudável, roupa limpa, armários organizados, gavetas arrumadas, cama cheirosa, banheiro limpinho, cozinha organizada. Isso não tem preço! E se você é do tipo que não sabe delegar, aprenda. Isso mesmo! Aprenda. Larga o osso e vai viver, criatura! Pare de querer controlar tudo porque você só vai ganhar cabelos brancos e rugas com isso. É lógico que alguns limites devem ser estabelecidos pra você também não perder o controle da sua vida, mas neurose, deixa pros malucos. Você é um tradutor, está no caminho certo para ter uma vida linda, cheia de conquistas e alegrias, precisa ter tempo pra curtir tudo isso (também pra se aperfeiçoar, aprender coisas novas, dormir, fazer sexo de qualidade, ir ao cinema, tomar vinho…).

Tenho certeza que os teimosos continuarão achando desnecessário. Eu levei quatro anos até ser convencida pelo meu persistente marido. Mas depois que decidi parar de lutar contra essa necessidade, minha vida mudou. Se hoje eu tenho tempo para dormir, em grande parte, devo isso à minha fiel escudeira. É claro que é difícil encontrar uma pessoa que faça as coisas do jeito que você quer. Acredite, nunca farão do jeito que você faria. Mas largue esse osso também, senão você nunca conseguirá arrumar alguém. Uma coisa que eu percebi é que eu não estava dando o devido valor às candidatas. Você tem que pagar o que vale. Faça uma conta de quantas horas você levaria nessas atividades (ou seja, quanto deixa de ganhar) e de quanto você gasta com pedindo comida ou comendo fora e veja quanto realmente vale esse asset. Pague o justo, registre para evitar problemas futuros e perda de tempo e dinheiro com advogados caso queiram “colocar você no pau” um dia, e não desista na primeira tentativa.

Se você realmente não quiser ou não conseguir encontrar alguém ideal, pelo menos considere comprar uma lava-louças – outro must have (eu tenho as duas, a lava-louças veio primeiro) para quem quer ter alguma qualidade de vida. Ah, não tenho espaço, meu apartamento é um ovo. Coloca na sala! Na cabeça! Mas não fique sem! Esse é outro asset em que eu jamais acreditei e que o santo persistente marido me convenceu que valia a pena. Se você é como qualquer humano, vai achar que é uma bobagem, porque você tem que passar na água a louça pra tirar o grosso. Vai achar que é frescura. Gente, não é! Sério!

Você passa a mesma água que passa em qualquer louça que vai deixar juntando na pia. Sim, aquela que não dá tempo de lavar sempre, que vai deixando a cozinha azeda. Bota lá e esquece, tira ela está seca! Ah, mas não lava panela! Lava sim! Mas mesmo que você não use pra isso (eu nunca usei), pensa comigo, o que dá mais trabalho ao arrumar a cozinha? São as coisas pequenas, aquele monte de talher dos infernos que você passa horas lavando, às vezes até mais de uma vez pra tirar toda a gordura. E depois enxugar tudo aquilo… Aí é que está a grande mágica da lava-louças, você coloca tudo lá e esquece. Sai tudo impecavelmente limpo e seco! As taças de vinho… Um espetáculo! Amo muito! Você deveria tentar. Té plus!

A imunidade do tradutor

Volto, depois de muito tempo, a escrever algumas coisas para servirem de alerta para vocês, queridos colegas. Minha ausência, além, claro, de muito trabalho, deveu-se a problemas de saúde que viraram uma obsessão nos últimos meses. Às vezes a gente pensa tanto em resolver um problema que acaba dando a ele uma dimensão indevida e só piora as coisas. Depois de uma peregrinação a diferentes médicos, eu pergunto: como anda a sua imunidade?

A imunidade está diretamente relacionada à sua capacidade de produção. Se ela estiver baixa, você pode ter muitos problemas que vão minar sua disposição, afetar sua produtividade e te fazer perder tempo e dinheiro com médicos e remédios. Muitas vezes pensamos que a imunidade está garantida apenas tomando um copo de suco de laranja ou uma cápsula de vitamina C pela manhã. Mas ela requer muito mais do que isso. Requer organização! Ai, não, meu Deus, lá vem ela falar de organização, eu tenho meus prazos pra cumprir, minha mesa está uma zona, minha geladeira está um iceberg, ainda estou de pijama e minha cama continua desarrumada desde domingo e os meus óculos… onde foi que eu coloquei aquela p***?!!!

Calma, não é a esse tipo de organização que estou me referindo, mas da organização do seu horário de trabalho. Dá pra contar nos dedos aqui quem trabalha igual gente normal, das 8h às 17h, de segunda a sexta. Eu só conheço um tradutor que faz isso, um! E você? Qual é o seu horário de trabalho? Você sabe o que é isso? Eu não sei! Eu tenho trabalhado aproximadamente das 6h às 20h, de segunda a segunda, com uma escapada aqui e ali para um almoço ou resolver alguma coisa na rua. E olha que isso é um luxo, porque há algum tempo eu virava muita noite. Tem sido uma vitória inestimável não trabalhar até à meia-noite diariamente, por exemplo.

Juntos, a falta de sono, a alimentação desregrada e o estresse do nosso trabalho formam uma bomba capaz de minar a nossa imunidade e desencadear uma série de problemas de saúde silenciosos. Ok, ok, vou parar de tocar o terror. Falando assim, parece que a Bolha Assassina está prestes a se formar dentro de cada um se não forem para a cama com as galinhas, depois de um bom prato de arroz e feijão e um chazinho de cidreira, hehehe. Mas precisamos fazer algo, o quanto antes, para não acabarmos nos tornando vítimas de nós mesmos. E como fazer isso?

Em essência, trabalhando menos (para sobrar tempo de fazer as outras coisas necessárias). Mas como vou trabalhar menos? Tenho minhas contas para pagar, você não sabe da minha vida, how dare you? Eu sei, eu sei. Muito bem, aliás. Mas, vocês se lembram de quando eu disse que “Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro”? Então, o princípio é esse. Aí, para isso, temos que começar a fazer as análises que eu já andei falando por aqui: de quanto eu preciso para viver? Quantas palavras preciso traduzir por dia? Quantas palavras eu produzo por hora/dia?

Precisamos de planejamento. E esse planejamento inclui dinheiro, qualidade de vida, plano de aposentadoria, cuidados com a saúde, ergonomia, organização, investimento na carreira. Pelo menos pra mim, tudo funciona melhor com listas, então, uma coisa que você pode fazer é tentar colocar em itens o que precisa e o que quer fazer, para começar a dar forma aos seus planos. Vamos tentar algo rápido aqui, separando por categoria:

Planejamento financeiro

  • Despesas fixas/mês

  • Despesas variáveis (e indispensáveis)/mês – mercado, farmácia, material escolar extra, transporte, etc.

  • Investimento na carreira – cursos, congressos, ferramentas, hardware, ergonomia, material de escritório, impostos

  • Poupança/investimentos

  • Previdência – se não começou a pensar nisso ainda, já está perdendo tempo

  • Lazer

  • Mimos – é importante que tenhamos o hábito de nos presentearmos, mas isso precisa de planejamento para depois não precisar ficar sem dormir uma semana por causa do gadget bonitinho que derreteu seu coração

Planejamento da qualidade de vida

  • Definir um cardápio saudável – inclua nele alimentos para aumentar a sua imunidade. Aqui você tem uma boa referência.

  • Estabelecer horários de trabalho e de descanso

  • Render-se à necessidade da atividade física – diariamente

  • Fazer o que gosta – normalmente achamos que não temos o direito de “perder tempo” costurando, por exemplo. Temos sim! Eleja algo que você adora fazer, por mais idiota que possa parecer e seja feliz. Higiene mental faz parte do combate aos problemas de imunidade

Se você conseguir botar em prática uma única ação relacionada a cada um desses tópicos, certamente estará começando uma mudança muito positiva para a sua vida e da sua família. Temos tendência de achar que não podemos descansar. Até hoje, quando me pego dormindo em um domingo à tarde, sinto-me uma relapsa, vagabunda mesmo, por estar ali perdendo tempo com tanta tradução me esperando. Gente, isso é doença! Como comentei em outro artigo, estou falando de coisas que vivencio na pele, tentando alertar aos mais novos (nossa, sinto-me uma múmia falando isso) para não trilharem esse caminho porque não vale a pena. Você pode ser um excelente tradutor e ter uma vida ao mesmo tempo. Só percebi isso depois de muitos problemas, não deixe isso acontecer com você.

E não se esqueça: há um remedinho mágico capaz de resolver todos os problemas de falta de tempo: a palavra NÃO! Aprenda a usá-la com mais frequência e você verá como muita coisa ficará melhor na sua vida. Eu recomendo. No próximo texto pretendo falar de dois assets importantíssimos para tradutores, muitos vão discordar da sua importância, mas garanto que tenho bons argumentos. Té plus!

Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro II

Parte II – a revolução

É importante que fique claro que tudo que eu digo aqui é testado. Não estou lendo nenhum blog em aramaico e trazendo novidades de outrem pra cá. Estou contando a minha odisseia rumo à tão sonhada qualidade de vida.  Meus erros e acertos terão de servir para alguma coisa e, como tenho a certeza de que o problema foi ter começado errado, não há lugar melhor para tentar incutir isso na cabeça dos meus companheiros de profissão do que o AP.

Agora que você já conhece a maioria dos pontos negativos da sua rotina de trabalho, é hora de tomar as rédeas da situação e mostrar que “you’re the boss”. Para isso, aqui estão algumas dicas:

1 – Estabeleça sua produção por hora. Descubra quanto você realmente produz em condições normais. Claro que haverá diferenças para mais e para menos, dependendo do tipo de arquivo, de ferramenta, de conteúdo e de quem escreveu. Depois de mais de uma década na profissão ainda encontro alguns textos indecifráveis em chininglish que fazem minha produtividade em condições normais de 1.3k/hora despencar para menos de 500 palavras. Para isso, é muito importante que você seja metódico. Se você não consegue trabalhar 60 minutos diretos sem se dispersar, use um cronômetro e pare toda vez que você acessar o AP para se deleitar com nossos conteúdos (hehehe) ou para acessar o FB, etc.

2 – Calcule quanto vale sua hora. Com uma noção bem próxima da sua produção por hora, calcule o valor em dinheiro da sua hora. Esta é a informação mais importante para estabelecer suas necessidades reais e, consequentemente, seus limites.

3 – Calcule, com o máximo de exatidão possível, o valor de suas despesas fixas mensais. Some a elas despesas variáveis, mas recorrentes. O que você precisa aqui é ter uma noção bem próxima de quanto dinheiro precisa para viver por mês. Não pense no carro que ainda não comprou, não pense na mobília que ainda não trocou, calcule o real.

4 – Considere uma verba fixa mensal para investir no seu negócio. Só porque trabalha em casa, você acha que pode se amontoar em qualquer cantinho, né? NÃO! Você vai precisar de dicionários, ferramentas, software, hardware, ergonomia. Conheci um tradutor que trabalhava sentando em um banquinho no netbook porque não sentia segurança para investir em cadeira e uma tela maior. Acabei convencendo-o que a primeira coisa que precisava era uma cadeira decente. Hoje ele tem um Mac, uma cadeira chiquérrima, e passou uma temporada no Canadá fazendo cursos e curtindo a vida. Eu costumo fazer a seguinte comparação: se você trabalhasse com seu carro como vendedor ou qualquer outra coisa, teria de separar uma verba para trocar os pneus uma vez por mês (fora o resto), então, só porque não gasta pneu vai ficar sentado em um toco?

5 – Calcule quanto precisa ganhar por dia para viver. Depois de todas as despesas – e a verba do seu negócio – contabilizadas, é hora de saber quanto você precisa ganhar. Mas para a coisa ter mais impacto no seu planejamento e mostrar seus limites, calcule por dia. Com isso em mãos, veja quantas horas você precisa trabalhar para chegar a esse valor. Essa conta costuma dar um resultado muito surpreendente.

6 – Obedeça seu organismo. Em quais horários você produz melhor? Esse é um momento para ser muito sincero. Essa coisa de dizer que prefere dormir até tarde e trabalhar na madrugada é muito mainstream! Sem contar que acaba bagunçando totalmente seu organismo. Eu amo dormir até mais tarde, mas (infelizmente, confesso) percebi que quando acordo bem cedo, consigo níveis de produtividade muito maiores do que se acordar depois das 10h e sei que isso é muito mais saudável (mas é um saco). O lance é estabelecer uma rotina. Acredite, o nosso corpo se acostuma a tudo. Então, dê a ele bons costumes.

7 – Planeje sua rotina. Não há nada pior do que ter tempo sobrando e nenhum plano para aproveitá-lo. Durante a minha desintoxicação trabalhista, fiquei alguns finais de semana totalmente perdida, sem saber o que fazer. A única coisa que vinha à minha mente era a música do Alexandre Pires “O quê que eu vou fazer com essa tal liberdade…?”! Elabore uma lista de coisas que precisa e que QUER fazer durante a semana, distribua essas coisas durante os dias, observando seus horários de maior produtividade, fazendo ajustes. Você pode precisar de meses para conseguir um planejamento legal. Segui-lo será uma luta diária e eterna.

Aquele ciclo doentio que falei lá na primeira parte deste artigo, no qual fiquei por anos, só acontece porque normalmente começamos a trabalhar sem planejamento algum. Trabalhamos cada vez mais, e temos cada vez menos tempo de planejar, aperfeiçoar e, consequentemente, de ganhar dinheiro. O que estou fazendo é contar como é esse caminho do fim para o começo, porque é exatamente o que estou fazendo. Fui até o limbo e estou fazendo o caminho de volta. Felizmente não perdi o fio de Ariadne e estou aqui para contar tudinho!

No próximo artigo apresentarei dicas para o planejamento dessa rotina, falarei sobre a prática de atividades físicas e sobre ergonomia. Té plus!

Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro I

Parte I – como nasce um “workaholic”

Eu devia ter uns 13 anos quando ouvi essa frase. Um vizinho que eu jamais tinha visto sair para trabalhar manda essa direta para o meu pai em um bate-papo informal, “Ah Chico, você é muito besta, quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro”. Fiquei revoltada na hora, afinal, o Chico parecia um burro de carga, a vida toda ralando desesperadamente e ainda morava de aluguel e andava a pé, enquanto que o “conselheiro” tinha sua casa própria de esquina e tinha seu carro (não era novo, mas andava). Aquilo ecoou na minha cabeça por anos. Bem, algum tempo depois descobri que o vizinho até trabalhava, mas só durante algumas horas, algumas noites por semana, dirigindo um centro de Umbanda. Embora aquela frase tenha me revoltado muito na época, hoje consigo ver alguma verdade nela.

Outro dia estava cansada de olhar para a tela, fui fazer o exercício de descanso ocular de colocar as mãos sobre os olhos em concha, contar até 10, e olhar para o horizonte, quanto mais longe melhor (repetir pelo menos três vezes). Comecei a observar a vizinhança. Tinha um rapaz lavando um corredor de uma casa que faz fundo com meu prédio, ele estava com aquelas máquinas de pressão. O corredor estava coberto de lodo e o jato passava e deixava tudo branquinho. Que coisa gostosa de ver, a solução imediata e estética de um problema. Fiquei ali olhando por alguns minutos e imaginando se minha profissão fosse aquela, como seria. Eu devo ter ficado ali olhando para o rapaz durante uns 10 minutos, imaginando que se eu trabalhasse naquilo, teria muito tempo pra pensar, afinal, só precisava de raciocínio mecânico e esforço físico mínimos para realizar a tarefa. Aquilo me fez lembrar da frase título deste artigo. E com aquilo, percebi que tradutor trabalha tanto que não tem tempo para pensar, e muitas vezes, não tem tempo de ganhar dinheiro!

Aí você vai dizer, só se você não pensa, eu penso e muito, o dia todo! Eu sei! A gente pensa dia e noite, o tempo todo. Mas 90% do tempo pensamos (pelo menos eu) no texto, no cliente, na atualização profissional, em mandar currículo, na internet, no glossário, na ferramenta, nas contas, no futuro (sob a ótica financeira, na maioria das vezes). Já pensou quanto do seu dia você dedica a você? A pensar em coisas agradáveis, que você gosta, coisas que gostaria de fazer, planos pessoais, massagem, fotografia? Quase nada! E quando pensamos nessas coisas, nos policiamos para voltar correndo pro tronco porque a “tia dédi” (dealine) está fungando no nosso cangote, doida pra acabar com essa orgia mental. Aí começa um círculo vicioso do qual, se não tivermos muita, mas muita força de vontade e muito planejamento, nunca sairemos. E acabaremos trabalhando muito, sem ter tempo de ganhar dinheiro!

Precisamos de dinheiro, então começamos a trabalhar. Somos autônomos, surge a insegurança quanto ao amanhã (como se empregado tivesse tanta segurança assim), então começamos a trabalhar mais ainda. Trabalhamos em casa, não precisamos pegar trânsito, não perdemos tempo nos arrumando para o trabalho, então começamos a trabalhar um pouco mais. Temos retorno financeiro, então ficamos empolgados e começamos a trabalhar um pouco mais para aumentar esse retorno. Fazemos um trabalho legal, a empresa paga direitinho, começam a mandar mais trabalho e nós, gratos pela sensação de estabilidade, começamos a trabalhar um pouco mais para dar conta da demanda extra. A empresa acha que somos ninjas, gosta do nosso trabalho, cumprimos os prazos, temos qualidade, não quer nos perder, então manda ainda mais trabalho, pra nos manter ocupados, motivados e nós começamos a trabalhar ainda mais porque não podemos perder esse cliente, afinal, ele já significa 80% da nossa renda mensal, além disso, não trabalhar aos finais de semana é muita frescura, dormir, é para os fracos.

Tem noção de onde isso vai parar? Aí, um belo dia, outro cliente liga para você. Ele te oferece x palavras por $y. Você pensa: “Putz! Tenho que aceitar, afinal, é mais do que ganho com a empresa A.”, aceita, pois lembra que domingo, depois do Fantástico, ainda não tem nada pra fazer. Aí você capricha, afinal, tem tudo pra ser um bom cliente. No outro dia ele te liga querendo que você faça um trabalho maior, mas você já tem 50k do cliente A. Bem, o jeito vai ser virar duas noites. Acontece que duas horas depois, o telefone toca e é o cliente C, que se apresenta dizendo que tem uma parada urgente para você. Ele paga o que A+B pagam, e você pira, quer cortar os pulsos, responde quase chorando que não pode, porque nem se o dia tivesse 30 horas, você conseguiria fazer. Se fizesse, seria mal feito e perderia o cliente. Conclusão: se você não trabalhasse tanto, teria tempo de ganhar mais dinheiro!

Para quem ainda não chegou nesse ponto, reze, e se organize para não chegar nunca. Posso assegurar que é uma viagem louca, que pode terminar com consequências gravíssimas, principalmente para sua saúde (física e mental). E não duvide, é assim mesmo que funciona. Enquanto você não aprender a falar não, vão “tuchar” coisa em você, e você vai ficar cada vez mais sobrecarregado e cada vez mais culpado quando perder uma “nova oportunidade”. Você vai se submeter a uma pressão e a um estresse, que seus órgãos vão “pedir pra sair” do corpo, de tanta sobrecarga. Quando eu entrei nessa noia, era professora durante o dia e tradutora à noite. Vida pessoal(?) à parte, pra dar conta dessa jornada tripla (sim, eu rodava 24/dia, certo?), só na base da anfetamina. Aí começou um problema, que acabou comigo no hospital, quase cantando pra subir.

Entenda, o processo tem que girar ao seu redor e não você ao redor do processo. Você é o dono dessa birosca!  Você está no comando da sua vida, dos seus horários. Você depende dos outros? Sim! Mas se você não se cuidar, se não usar o tempo ao seu favor, vai ter um treco e, se sobreviver, vai começar a acumular problemas de saúde e gordura. A primeira coisa pra evitar todas essas “autobarbaridades” é organizar seu tempo.

Amanhã, a parte II deste artigo traz dicas para virar esse jogo, descobertas a duras penas com a faina.

Apresentação

Olá, sou a Adriana de Araújo Sobota, tradutora freelance há 12 anos e meu espaço aqui será para falar de organização, saúde e qualidade de vida. Afinal de contas, nem só de tradução pode viver um tradutor, né?

Não quero falar de mercado de trabalho, ferramentas, preços por duas razões: a primeira, é que a maioria dos blogs de tradutores já fala disso (e a Lorena o faz brilhantemente aqui) e a segunda é que eu venho sofrendo na pele os resultados de uma vida desorganizada e imprudente desde que comecei a traduzir. Minha missão, logo, é tentar abrir a cabeça dos teimosos e mostrar que não é conversa de gente que não tem o que fazer esse papo de organização e qualidade de vida =)

Embora eu ame o que faço e dificilmente conseguisse ser feliz fazendo outra coisa – a não ser gastando em shoppings e viagens se ganhasse uma fortuna considerável na megasena –, essa nossa profissão, não exatamente pela profissão em si, mas pelo seu modus operandi, pode trazer consequências pesadas para nossa saúde e vida pessoal. Não, a tradução não é a vilã. Os vilões somos nós mesmos. E qualquer profissional cujo trabalho tenha uma carga de esforço intelectual superior à do esforço físico, estará sujeito a todos esses riscos que pretendo abordar nesta coluna.

Já virou piada até entre nós mesmos a história de como as pessoas veem a nossa forma de trabalho: acham que é bico, que não é sério, que não dá futuro! Ok, isso não é incômodo nenhum, por mim, quanto mais pessoas pensarem que a tradução “não dá futuro”, melhor! Sobram mais palavras no mundo a serem traduzidas por profissionais de verdade. Agora, meu amigo e minha amiga (nossa, parece programa de rádio, né?), o que não pode acontecer, jamais, é NÓS mesmos encararmos como bico. Esse sim é o primeiro dos nossos maiores pecados.

Como neste blog a intenção é falar a você que está começando na profissão, eu sugiro (adoro a lindíssima “I strongly recommend…”) que pense no seu trabalho como UMA das suas rotinas diárias e não a única (obviamente, isso serve para os veteranos também). Sim, porque por muitos anos sentei nesta cadeira por horas a fio sem me importar com nada mais além de entregas pontuais e de qualidade… continuo me esforçando para manter a qualidade e a pontualidade, mas hoje tenho muito mais coisa com que me preocupar, algumas felizmente, algumas infelizmente.

A sua organização (eta palavrinha mais utópica essa) depende única e exclusivamente de você. Não adianta culpar o cliente, não adianta culpar os filhos, os pais, o vizinho barulhento, o cachorro. Tarefas, deveres, direitos, horários, alimentação, saúde, ergonomia, sono, previdência social, amor, prazer, vinho, cinema, música, filhos, pais, família, amigos, leituras voluntárias, leituras necessárias, cursos, aperfeiçoamento, salão de beleza, férias, contas, plano de saúde são assuntos cujos erros e acertos dependem principalmente de você. Uma coisa é certa: organização está para saúde, que está para qualidade de vida. Tente não pensar nisso, tente agir. Não deixe pra planejar sua qualidade de vida quando as contas ficarem mais leves, quando a crise na Europa acabar, quando o filho se formar. A hora de viver – e bem – é agora.

Meu planejamento para participar do blog é falar progressivamente sobre os temas que mencionei, mas se você tiver algum assunto que queira discutir, fique à vontade para sugerir que eu terei o maior prazer de tentar falar algo que preste a respeito. O assunto do próximo post será a criação de hábitos e horários.

Té plus!

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