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Estou de volta

Olá!

Estou de volta para contar mais novidades da minha “vida dupla” de tradutor e psicólogo. Duplicidade que está perto do fim, ou pelo menos de uma grande transformação – já, já vocês vão saber por quê.

No momento em que escrevo, faz alguns dias que entreguei mais um livro – já é o meu quarto! Após dois consecutivos para essa mesma editora, houve um hiato de quatro meses. Durante esse período, não deixaram de aparecer trabalhos para clientes menores, e também não deixei de recusar alguns que vi que não valeriam a pena – saber dizer não é uma virtude que todo tradutor deve ter, embora eu admita que ainda tenho minhas dificuldades com isso.

Nesse meio-tempo também foram publicados os meus dois primeiros livros: Noite Especial, de Anne McAllister, e Psicologia, de David Myers (traduzido em parceria com o Daniel Estill)!

Até que, no fim de maio, surgiu um novo pedido: mais um romance semelhante ao primeiro – inclusive no tamanho e no prazo dado pela editora. E novamente entrei no ciclo de dedicação quase exclusiva do tempo ao trabalho.

Dedicação que seria vã sem aquela alentadora sensação de reconhecimento. Um dia depois que entreguei o livro, a editora já tratou de me pedir outro. E foi graças a esse reconhecimento e à relação de confiança que já tenho com o cliente que tomei a liberdade de recusá-lo – não sem explicar que não teria como concluí-lo no tempo solicitado devido a outros compromissos e me pôr à disposição caso precisassem de mim nas próximas semanas.

No momento, estou de férias do trabalho “oficial” e fazendo o curso de legendagem com a Carolina Alfaro na PUC-Rio, buscando abrir mais uma porta para o mercado.

Quando voltar das férias, devo iniciar uma nova jornada que, se não me fizer tradutor em tempo integral, pelo menos vai me aproximar bastante disso e pode dar uma grande guinada nos meus planos (e quiçá até no rumo desta coluna). Após três anos no setor de RH, recebi uma proposta para trabalhar na biblioteca da empresa, mais precisamente no serviço de tradução! Meu próprio gerente, sabendo da necessidade de uma pessoa qualificada na biblioteca e da minha vocação para a área (até já fiz algumas traduções para ele e virei uma espécie de consultor de inglês e português para os colegas), foi quem me indicou. Não irei trabalhar traduzindo diretamente, já que isto é feito por uma empresa contratada, mas ao que tudo indica meu dia a dia será às voltas com essas traduções.

Mais detalhes, a conferir. Aguardem!

V Encontro Prática de Escrita

Oi pessoal,

No dia 3 de março próximo acontecerá o V Encontro Prática de Escrita, organizado pela Editora Terracota, em São Paulo. Na programação, haverá o bate-papo com o colega tradutor Petê Rissati, que vai falar sobre Tradução: mercado, processos e criação.

Que tal se inscrever e ter a oportunidade de conhecer mais sobre o tradutor no mercado editorial?

A entrada é franca, mas tem que correr que restam apenas algumas vagas.

Colhendo os frutos de 2011

Instant change is a myth and a dangerous one at that. We are brought up on a culture that demands immediate gratification and sudden wealth. The flip-side of this belief is often a deep-seated, nagging frustration that our effort does not yield immediate results.

The Myth of Instant Change

Quando a gente se propõe a dar novos rumos para a carreira, a palavra-chave é paciência. Mudanças podem ser feitas repentinamente, mas seus frutos se colhem apenas quando o ciclo do cultivo está completo. Não existe colheita antes do tempo certo.

Quem acompanha o Ao Principiante, talvez lembre desse meu artigo. Foi quando escrevi sobre as mudanças na minha vida profissional. Elas começaram a tomar forma não em fevereiro de 2011, quando o artigo foi publicado, mas sim em dezembro de 2010.

Ou seja, um ano se passou. Na época, eu mal conseguia imaginar onde estaria no dezembro seguinte. Mas ele chegou, e rápido. Em parte porque não esperei colher os frutos das minhas decisões no dia seguinte. Tivesse eu feito isso, talvez hoje achasse que o ano passou devagar.

É aqui que mora o segredo, e onde entra a frase que abre este artigo: resultados instantâneos raramente acontecem. Tudo que colhemos é fruto de esforço, suor, trabalho, decisões. E essas coisas levam tempo. Começam como sementes, que germinam e crescem para somente depois amadurecerem e caírem em nossas mãos. No meio tempo, exigem que reguemos as folhas, afofemos a terra, adubemos o solo.

Se você está começando sua vida como tradutor, ou se está num momento da carreira que exige mudanças, não esqueça que o ciclo do seu cultivo tem hora certa para terminar. Colha seus frutos quando estiverem maduros, é muito mais saboroso.

E eis aqui um dos frutos que andei colhendo este ano e gostaria de compartilhar com vocês. É de uma importância ímpar para mim, por ser meu primeiro trabalho na área editorial e, acima de tudo, o primeiro como freelancer. É a revisão (em conjunto com Alessandra Barros) da tradução de Martha G. da Cruz e Isabel Vidigal  do livro Agulhas e Linhas, da Publifolha.

Admirável mundo novo

Desde o início da minha vida profissional como tradutora, o máximo de literatura que traduzi foram os e-mails do meu ex-chefe e uma brochura sobre as Baianas de Acarajé. De resto, os textos que paravam nas minhas mãos iam ficando cada vez mais técnicos.

Até que no início desse ano comecei um curso de formação de tradutores voltado à literatura e filosofia. Além das leituras e discussões interessantíssimas sobre a tradução e o papel do tradutor, passamos também a traduzir pequenos parágrafos como exercício.

A partir de então, descobri como a tradução pode ser ainda mais incrível e admirável! Nunca havia pensado muito sobre a importância da etimologia ao traduzir, sobre simbologia e uma série de outras coisas que geralmente não fazem parte do universo das traduções técnicas. Sim, eu descobri um mundo totalmente novo!

Aliado a isso, chegou meu primeiro trabalho da área editorial. Com afinco, tento aplicar o que vejo no curso à minha tradução. Este livro, em parceria com um colega tradutor, não é Shakespeare. Mas tem sido um belo desafio desbravar a linguagem coloquial, os inúmeros adjetivos e gírias, as diferenças culturais e as referências obscuras para mim. E também uma oportunidade maravilhosa de sair um pouco das amarras da tradução técnica e de seus glossários sisudos.

O incrível de ser tradutor é isso: a cada novo trabalho, nos deparamos com coisas sobre as quais nunca pensamos. Começamos a prestar atenção àquilo que, antes sem importância, agora é fundamental para a qualidade do trabalho. Descobrimos em nós a capacidade de aprender sempre mais e a facilidade com que nos adaptamos a novas situações. É, realmente, descobrir uma América a cada dia!

Por isso que hoje, e todo dia, é um feliz dia do tradutor!

Marcelo Brandão Cipolla responde aos leitores

Vocês enviaram as perguntas e o Marcelo respondeu!
Espero que possam aproveitar bem as novas dicas e conselhos que ele nos dá.

Marcelo: mais uma vez, obrigada por tudo 🙂


Tenho uma dúvida quanto ao ingresso de novos tradutores no mercado editorial. A partir do que já li sobre o assunto, um fator quase onipresente nos textos trata da credibilidade do tradutor, de sua reputação na área. Tendo isso em vista, não se torna um tanto difícil para novos profissionais adentrarem este ramo da tradução, já que muitos tradutores de reputação consolidada também o disputam?

Que é difícil, não há dúvida. Creio inclusive que a “concorrência” aumentou nos últimos tempos, pois um número maior de pessoas conhece a língua inglesa e aspira a ser tradutor. Mas tenha certeza de que sempre há lugar para quem está começando. Como eu disse, o número de bons tradutores não é grande. E quem está na área há tempo sabe que reputação nem sempre significa qualidade.

Na minha experiência como coordenador, já peguei livros traduzidos por gente muito reputada que tiveram de passar por revisão extensa e profunda para poderem ser publicados. E já aconteceu de eu ir deliberadamente atrás de gente nova para renovar o quadro de tradutores. Na realidade, alguns dos melhores tradutores com quem trabalho foram novatos cujos testes eu corrigi e aprovei.

Acho que o principal fator a afetar a disponibilidade de trabalho para os tradutores novos é o mercado editorial estar aquecido ou não. Numa fase de calmaria, de poucas traduções, é evidente que as editoras ficarão com aqueles tradutores que elas já conhecem bem – note que digo “que elas já conhecem bem”, não “que são famosos” ou “que têm excelente reputação”. Mas numa fase em que o mercado se aqueça, em que muitos livros estejam sendo traduzidos, elas tendem a se abrir para receber testes e aceitar novos tradutores de bom potencial.

Meu negócio é tradução, presto serviço para poucas editoras e não sou pessoa qualificada para dizer se o mercado está numa fase aquecida ou não. Com essa importante ressalva, arrisco o palpite de que atualmente as coisas andam meio lentas na área da tradução editorial no Brasil. Isso, a meu ver, se insere no panorama da crise econômica mundial.

Quais são as línguas que a Martins Fontes mais traduz? Ou é apenas o inglês?

Um esclarecimento: a Editora Martins Fontes não existe mais. Há dois anos ela dividiu-se em duas: a Martins Martins Fontes e a WMF Martins Fontes, para a qual presto serviços. A WMF Martins Fontes traduz principalmente do inglês e do francês, um pouco do espanhol e do italiano, um pouco menos do alemão e quase nunca do russo.

Quanto tempo em média se leva para traduzir um livro?

Isso depende do tamanho do livro. É mais fácil falarmos em quantas laudas podem ser traduzidas por dia. O tamanho da lauda varia, segundo a editora, entre 1800 e 2100 toques, com espaços, de texto já traduzido. O número de páginas do original a que essa lauda corresponde vai depender do tamanho da letra e do tamanho da mancha gráfica. Mas digamos que um tradutor experiente pode fazer, em média, umas 8 laudas por dia.

Na prática, constato que é muito difícil trabalhar mais que seis horas por dia numa mesma tradução. É claro que numa ocasião de urgência ou necessidade é possível trabalhar mais que isso. Mas não é um ritmo que se possa manter por muito tempo – não sem comprometer a qualidade da tradução e, às vezes, a saúde do tradutor.

O Sr. Marcelo comentou que “não cumprir prazo” é um erro muito grave que o tradutor pode cometer. Não existem casos em que, no avanço do trabalho, o tradutor percebe que o prazo combinado não é suficiente? Qual deve ser a atitude do tradutor se isso vir a acontecer? Isso pode queimar seu cartucho com a editora?

Esses casos existem, sim. Pode acontecer de um tradutor fazer uma avaliação errada de sua produtividade ou da dificuldade de um trabalho. Pode acontecer também de ele enfrentar algum imprevisto grave em sua vida pessoal. Nesses casos, a atitude deve ser sempre a de ter uma conversa franca com o editor ou coordenador. O pior que pode acontecer é ele começar a atrasar e não dar satisfação. Quanto a queimar o cartucho ou não, creio que isso depende da editora, do editor, de quem lida com o tradutor. Conheço várias pessoas que exercem essa função e estariam dispostas a relevar um atraso justificado.

Por enquanto a tradução editorial free-lancer ainda não é um trabalho onde as relações humanas são totalmente mecanizadas, apesar de existir uma tendência forte nesse sentido. Ainda há, sim, espaço para diálogo e transigência.

É claro também, por outro lado, que se o problema começa a se repetir aquele tradutor fica “marcado” como alguém que sempre atrasa, que enrola etc.

Tenho um amigo que traduz obras que gosta como hobby. Ele poderia oferecer uma tradução feita por ele para uma editora? Aliás, como as editoras escolhem as obras que vão ser traduzidas para o nosso mercado?

Por duas vezes fui a uma editora oferecer uma tradução minha. Em nenhuma das duas a tradução foi aceita, mas na primeira vez arranjei serviço. (Na Editora Pensamento, em 1990. Presto serviço para eles até hoje.)

Na WMF já aconteceu de pessoas proporem livros para publicação e os livros serem aceitos. Num dos casos que presenciei, a mesma pessoa que propôs o livro fez a tradução (dois livros seguidos, propostos em dois momentos diferentes!). Em outro, após avaliação, a tradução foi passada para outro tradutor e o proponente fez a revisão técnica. Resumindo, creio que não há perda em apresentar uma tradução pronta a uma editora ou sugerir a publicação de um livro. O máximo que pode acontecer é ouvir um “não”.

Sobre como as editoras escolhem as obras que vão ser traduzidas, não sou a pessoa indicada para responder, pois essa decisão cabe aos chefões. Fica aqui uma sugestão à Lorena: fazer uma entrevista com um editor-chefe ou um dono de editora, que esclareça esse mistério para nós!

O Marcelo também respondeu a um comentário feito aqui no blog:

Vi um comentário um pouco amargo no blog acerca da importância das indicações para conseguir trabalho. Esse fator é, com efeito, muito importante, e deixei isso bem claro quando disse – e repito – que a maioria dos fatores que podem facilitar a carreira profissional do tradutor dependem muito da sorte. Mas isso não ocorre só na vida do tradutor, nem somente na vida profissional. Isso é assim em todos os aspectos da vida de todas as pessoas. E a sorte num campo da vida muitas vezes vem acompanhada do azar em outro… Mas enfim: o importante a lembrar aqui é que (correndo o risco de cair no banal) a sorte favorece a mente preparada. Independentemente de sorte ou azar, todo aquele que pretenda ser tradutor profissional deve se esforçar para aperfeiçoar suas capacidades e tentar encontrar alguém – um professor, um amigo – que o oriente nesse sentido. O esforço pela aquisição de conhecimento e pelo desenvolvimento da habilidade tem um valor intrínseco que não deve ser subestimado.

E uma historinha tirada da minha experiência pessoal: nesses sete anos em que venho coordenando as traduções do inglês da Martins Fontes/WMF, em várias ocasiões chamei amigos meus que eu considerava capacitados (e que, portanto, “tiveram sorte”) para fazer traduções. Saibam que em todos os casos – 100% – houve problemas na tradução, a tal ponto que hoje, em princípio, não chamo mais nenhum amigo nem aceito indicação de amigo sem antes fazer um teste.

Entrevista: Marcelo Brandão Cipolla (III)

Oi, pessoal!

Hoje vocês leem a última parte da entrevista com Marcelo Brandão Cipolla, coordenador das traduções de inglês da Martins Fontes. Confiram abaixo as dicas preciosas para quem está iniciando na profissão, está imperdível!

E MAIS! caso vocês tenham outras dúvidas, o Marcelo gentilmente se disponibilizou a respondê-las aqui no blog. Então, não sejam tímidos e mandem suas perguntas pelos comentários, pelo formulário de contato ou então para: aoprincipiante@gmail.com. Não percam essa chance, não é todo dia que podemos trocar ideias com um profissional como o Marcelo 🙂

 

 

Você é revisor também, certo? Que habilidades um tradutor precisa ter para se tornar um bom revisor?

Desnecessário dizer que o revisor deve ter excelente domínio da língua de partida e da língua de chegada, como o tradutor. Com isso, ele pega os erros mais grosseiros, de entendimento do original. Ao mesmo tempo, o revisor deve abstrair completamente o original em outra língua e pensar no texto como um texto em português; deve avaliá-lo quanto à fluência, à sonoridade, ao ritmo. Por fim, deve ser detalhista para pegar os erros de ortografia, pontuação etc. E tem de fazer tudo isso ao mesmo tempo… Uma coisa muito importante é que ele não pode se deixar influenciar pelo texto do tradutor. Não pode se “acostumar” com o estilo dele; deve manter sempre o olhar crítico para poder pegar os erros e impropriedades.

Como funciona a revisão de um livro? Pelo que entendi, nem sempre a revisão da tradução é feita, somente a revisão do texto final em português. Quando a revisão da tradução é necessária?

Quando assumi a coordenação das traduções do inglês na Editora Martins Fontes, a regra era que o livro tivesse sempre uma revisão de tradução. As pressões do mercado mudaram isso, não só na atual WMF como também em outras editoras. A meu ver, se não fosse pela pressão econômica, o ideal era que toda tradução tivesse uma revisão. O tradutor, por melhor que seja, não é um super-homem. Às vezes ele se deixa levar pelo literalismo; às vezes está pouco inspirado, escreve pior. Às vezes padece de simples desatenção. A revisão, no mínimo, conserta essas coisas. Na prática, hoje em dia reservamos a revisão ou para os textos muito difíceis, ou para aqueles trabalhos feitos por tradutores sub-ideais ou que não estavam num bom momento. Saiba que também é difícil encontrar bons revisores. Algo que temos feito bastante é o que se chama preparação: a tradução é lida sem cotejo com o original; o preparador tem de ser um cara esperto para, além de arredondar o português, “pegar” trechos estranhos ou que fazem pouco sentido. Então essas frases, ou expressões, ou palavras, são examinadas em detalhe, desta vez com cotejo, para se determinar a solução.

Você lembra quais desafios enfrentou no início da carreira? Quais eram as maiores dificuldades?

Acho que não tive muitas dificuldades. De certo modo, para mim foi natural pegar um livro em inglês e passá-lo para o português. Mais para a frente, quando peguei trabalhos mais técnicos, tive dificuldades terminológicas, que na época eu resolvia nas bibliotecas da USP. Mas, em vez de falar das dificuldades, eu gostaria de falar sobre aqueles fatores importantíssimos que me permitiram ter poucas dificuldades iniciais no trabalho. Vou tratá-los em forma de lista:

1) Primeiríssimo de tudo, um domínio absoluto da língua inglesa. Eu tinha morado por dois anos na Inglaterra completamente inserido na vida de lá; falava sem sotaque e pensava tão naturalmente em inglês quanto em português.

2) Depois, um bom domínio da língua portuguesa. Era bom aluno e adorava fazer dissertações na escola (já ficção nunca foi o meu forte). Não me lembrava distintamente da terminologia da gramática, mas sabia escrever bem.

3) Depois, muita, muita leitura em português. Sempre fui amigo dos livros. Isso desenvolve em nós o repertório do vernáculo.

4) Depois, bons conhecimentos gerais. Trata-se de um fator essencial para a gente entender do que o autor está falando.

5) Por último, mas não menos importante, contei com o apoio de pessoas que me protegeram e me levaram pela mão, relevando e corrigindo meus erros de tradução, sempre dispostas a me dar mais uma chance, orientando-me mesmo sem eu pedir. Sinceramente, não sei como uma pessoa pode começar como tradutor, ou em qualquer profissão, sem uma orientação desse tipo. Refiro-me aqui à Mônica Stahel, da Martins Fontes, e ao Frederico Ozanam Pessoa de Barros, da Editora Pensamento, para a qual passei a prestar serviços pouco depois. O Luiz Carlos Borges, que daí a um tempo assumiu a coordenação de traduções da Martins Fontes, também me ajudou bastante.

A maioria desses fatores dependem de sorte, mas alguns deles podem ser supridos, ao menos em parte, pelo esforço. Isto é muito importante.

Como você acha que alguém que não teve experiência no exterior pode suprir essa lacuna? Você acha que essa é uma experiência essencial?

Não é essencial. O que é essencial é uma compreensão profunda, intuitiva, do uso daquela língua. A experiência me diz que existem pessoas capazes de adquirir esse tipo de compreensão pelo estudo, sem viajar ao exterior. Então, não é necessário viajar ao exterior; mas é absolutamente necessário estudar bastante o idioma estrangeiro, ler muitos livros dos autores consagrados daquela literatura, assistir a filmes antigos e modernos, conversar, se possível, com quem fala bem aquele idioma. Uma coisa preciosa, meio esquecida nesta época de predomínio da imagem e dos olhos, é fazer uso somente do sentido da audição: ouvir rádio naquele idioma, ouvir uma palestra, ouvir música, ouvir declamação de poesia. Isso ajuda muito.

Um assunto já discutido no blog foi a necessidade de os iniciantes aceitarem trabalhos de versão, pois no Brasil há bastante demanda por eles. O que você acha de um tradutor passar textos para uma língua que não é sua língua materna?

Acho que, como eu disse, ele terá mais dificuldade. Sobre esse assunto, concordo, no geral, com o que você disse nos seus posts sobre Tradução x Versão. Mas acredito também que é possível ao falante nativo de português exercitar-se a tal ponto no inglês que seja capaz de fazer versões praticamente sem erros. É algo que leva tempo, mas é possível. Nisso, conta muitíssimo o treino e a experiência de escrever em inglês, embora escrever e traduzir não sejam a mesma coisa.

Você comentou sobre o Tesouro do Tradutor, um glossário próprio. Como surgiu a ideia de compilar as soluções que encontrava?  Não seria um guia bacana para ser publicado algum dia?

A ideia de compilar as soluções surgiu naturalmente no começo da minha vida profissional. De início, eu anotava os conselhos que recebia do Fred, da Mônica ou do Luiz Carlos. Como desde muito cedo comecei a fazer revisão de tradução, anotava também as soluções interessantes, inteligentes ou elegantes que encontrava no trabalho de outros tradutores. E logo passei a anotar as que eu mesmo criava ou descobria. Trabalhando como coordenador, anoto ainda as boas soluções que meus “coordenados” propõem. Creio que esse tipo de registro, seja qual for a forma que assuma, é essencial para todo tradutor da área editorial. É algo que desde já recomendo a todos os principiantes. Eu tenho dois documentos: um Tesouro, com a tradução de palavras e expressões, e um Repertório de Soluções com a tradução de frases inteiras. A publicação desses registros seria interessante. Talvez um dia eu publique esses documentos, já mais elaborados e incrementados, num blog ou num site, por exemplo. Um exemplo de uso comercial de um bom “tesouro” desses é o livro Vocabulando, da Isamara Lando, que ajuda muitos tradutores.

Muitos tradutores iniciantes são questionados sobre qual sua especialidade. Mas tradutores iniciantes ainda não tiveram tempo de se especializar em uma área. Você acha que há um caminho para a especialização? Por exemplo, escolher uma área de interesse e tentar trabalhar nela sempre que possível? Ou esse é mais um processo natural? É problemático um tradutor não se especializar?

Na minha área é raro encontrar tradutores especializados. Para quem quer se dedicar à tradução editorial, o ideal é ter um grande cabedal de conhecimentos gerais das mais diversas espécies. Já aconteceu de eu procurar tradutores especializados em direito para traduzir certos livros. E tem sempre um ou dois para quem prefiro passar os livros de arte e arquitetura. Então, a “especialização” existe sim, numa medida módica, em ambiente editorial. Certos livros de humanas são extremamente técnicos e a tradução é facilitada quando o tradutor domina aquele vocabulário. Mas quero ressaltar que o profissional deve ser primeiro tradutor e depois “especialista” em x ou y. Um dos erros que já cometi como coordenador, e que já vi ser cometido por outros na mesma posição, foi entregar a tradução de um livro de direito, por exemplo, a uma pessoa que entende horrores de direito e conhece a língua inglesa, mas tem pouca ou nenhuma experiência como tradutor. O resultado, em 100% dos casos, foi decepcionante: uma tradução literal em que mesmo os termos técnicos, muitas vezes, não estavam resolvidos. Hoje em dia só trabalho com gente que é primeiro tradutora e depois especialista. Quando o texto é tecnicamente complicado e não há uma única pessoa que reúna os dois conhecimentos (de tradução e da área do livro), o esquema com que mais gosto de trabalhar é dar a tradução a um tradutor bom, inteligente e com muitos conhecimentos gerais e contratar um revisor técnico que se prontifique a tirar dúvidas por e-mail durante a tradução e depois faça a revisão técnica do texto em português. O investimento é grande, mas compensa quando o livro é importante. A lição que fica é: o mais importante na área editorial é ter muita cultura literária e geral. Se o tradutor além disso conhece bem a terminologia de uma ou mais áreas, ótimo. (É o meu caso, que já fiz – embora não tenha terminado – a maior parte das faculdades de arquitetura, letras e direito). Quanto à exigência de especialização feita aos iniciantes, ela só se justifica, a meu ver, no caso de certos livros que de fato são muito técnicos. Para a maioria dos livros, ela não se justifica em absoluto. O que vale é a competência do iniciante como tradutor e, não menos, sua inteligência.

Quais os principais erros que um novato comete, em termos de tradução mesmo e também de postura profissional?

Primeiro os erros de postura profissional, assunto mais simples. Não cumprir prazo é um erro grave. Não cumprir e não dar satisfação é pior ainda (por incrível que pareça, esses casos existem). Desatender a uma sugestão, pedido ou ordem do coordenador é lamentável. Não aceitar uma correção de tradução é, além de lamentável, perda de tempo. Já os erros de tradução são muitos. Terei de falar deles de forma resumida, identificando somente certas categorias gerais, sem entrar em exemplos e detalhes. O pior e o menos remediável é simplesmente não entender o inglês. O segundo pior é o literalismo na tradução. O terceiro pior, e um erro que acomete principalmente os mais novos, é usar a linguagem dos jornais e especialmente da internet, uma linguagem empobrecida e repleta de anglicismos sintáticos e semânticos em razão da má qualidade das traduções que se difundem hoje em dia. Há também um quarto erro: é o do tradutor que entende o original e escreve bem em português, mas toma certas liberdades com o texto, “interpreta-o” demais. Este erro é, a meu ver, o menos ruim, pois é o mais fácil de corrigir.

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