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A tradução e os novos formatos de educação

Tenho pensado bastante sobre como muitos formatos da educação hoje não se aplicam a novas profissões, ou a profissões que se desenvolveram de tal maneira que os formatos mais rígidos não conseguiram acompanhar. Acho que podemos relacionar a tradução a este último caso.

Até um tempo atrás, fazer quatro anos de faculdade, pegar o diploma e ir trabalhar numa empresa era ponto pacífico em quase qualquer profissão. Até que nos vimos envoltos em tantas tecnologias novas e maneiras diferentes de nos comunicarmos e fazermos nossos trabalhos, que o tradicional escritório  foi sendo cada vez mais repensado.

Exemplo melhor que a tradução não há. Desde a formação propriamente dita, até o modus operandi da profissão. É preciso diploma para ser bom tradutor? Não. É preciso, sim, estudar, mas esse ramo de atuação nos permite tantas formas diferentes de fazê-lo que a formação universitária a que estamos acostumados nem sempre está em primeiro plano.

Isso me lembra um artigo que li há um tempo, chamado The End of College?, que, acredito, se aplica perfeitamente à situação do tradutor de várias formas. Gostei muito dessa observação final da autora do artigo, fazendo uma separação entre o estudar para adquirir conhecimento e o fazer treinamento para obter qualificação:

New organizations will be created that offer workplace credentials, and traditional colleges will be free to research and teach without worrying about job training. And this will be a great thing. Our grandkids will be able to save time and money by getting badges targeted to the specific areas in which they work. And if they do go to college, they will be able to enjoy a wonderful concept that has been almost entirely lost by our modern education system: To learn simply for the sake of learning.

No fundo, não é este um problema de muitas universidades que oferecem cursos superiores para tradutores? Essa mescla entre o conceitual e a prática, que nem sempre dá liga? O aluno sai do curso tendo tido pinceladas de teoria e prática insuficiente, não se aprofundando nem em uma coisa, nem em outra. Chega no mercado e sente que não está preparado para ele.

Felizmente, existem muitas maneiras de compensar essas lacunas. Os programas de mentoria, por exemplo, sempre me chamaram a atenção. Gostaria que no Brasil eles fossem mais difundidos, mas tendo a acreditar que a coisa está caminhando para isso. Aliás, você sabia que o ProZ já tem um programa desses?

Outra coisa é que, hoje, a internet é a grande (se não a principal) aliada na formação do tradutor. A quantidade de treinamentos, cursos, seminários, artigos, vídeos oferecidos na web é incrível (ótimos exemplos são os sites Khan Academy, Coursera e o próprio ProZ). O tradutor que usa recursos online já pode ser considerado um profissional arrojado, por cuidar de sua formação/atualização de maneira independente e, por vezes, inovadora. É como diz este artigo aqui sobre formação superior online:

(…) another area of concern was the ability of recent graduates to use online technologies (such as email, calendars, etc.) for professional purposes. Brick-and-mortar schools typically provide at least some exposure to these tools, but the training students receive is often sporadic and sometimes outdated. Online schools not only help students develop digital skills, but allow students to use a variety of cutting-edge utilities while gaining experience in turning their computer into a productivity tool. Further, simply choosing to attend college online demonstrates that you’re a computer-savvy individual who stays at the vanguard of technology.

Se pararmos para pensar, as possibilidades de aprendizado para um tradutor são praticamente infinitas! Quem está procurando se especializar, por exemplo, pode participar de eventos ou fazer cursos específicos das áreas pelas quais se interessa. Não é preciso ficar restrito ao estudo da tradução em si. Pelo contrário, quanto mais formos além na busca do conhecimento, mais capacitados seremos.

Por fim, creio que podemos tirar grandes vantagens do caráter versátil da nossa profissão. Não reclamemos sobre acompanhar as novas tendências. O tradutor de hoje, ele mesmo, já é uma nova tendência do mercado. Com tantos recursos e facilidades, não será difícil mantermos esse status.

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Os manuais, a leitura e a escrita na tradução

Depois de ter escrito o artigo  Crie seu próprio guia de estilo, ocorreu-me que seria interessante falar também sobre a escrita na tradução de modo mais geral.

Todos sabemos que manter a padronização de termos numa tradução, principalmente na técnica, é essencial e confere qualidade superior ao texto. Mas a padronização em si é apenas uma pequena fatia do produto final, já que um texto não se limita apenas a convenções terminológicas ou ortográficas.

Para entender melhor, vou usar alguns textos do filósofo Olavo de Carvalho. Cito abaixo trecho de A arte de escrever, Lição 1: Esqueça o Manual de Redação. Lembrando, antes, que 1) o autor discorre sobre a produção de textos originais, e não de traduções; 2) o texto foi escrito tendo em mente o contexto jornalístico, portanto, guardemos as devidas proporções e ressalvas; e 3) ainda que não fale de tradução propriamente dita, o texto ajuda a entender a importância de saber escrever e de como escrever, e isso, claro, diz muitíssimo respeito à atividade tradutória.

Vamos ao trecho, então:

A padronização pode ser um mal inevitável. Mas para que exagerar, vendo nela um bem absoluto, o modelo mesmo de boa escrita? (…)
Normas de redação, se estatuídas, devem ser apresentadas, com toda a modéstia, como convenções práticas, neutras, nem melhores nem piores que quaisquer outras, e nunca como padrões de “bom gosto”, “elegância”, etc., que são valores de estética literária muito mais sutis do que aquilo que esse gênero de manuais está em condições de delimitar. Os manuais deveriam ater-se, o quanto possível, a aspectos exteriores e “materiais” da escrita, como ortografia, abreviaturas, padronização de nomes, evitando pontificar sobre estilo ou, pelo menos, opinando nisto com extremo cuidado e tão somente em nome da conveniência utilitária, não da estética.

A primeira questão é que, realmente, a forma (“ortografia, abreviaturas, padronização de nomes”) é diferente do estilo (“‘bom gosto’, ‘elegância’, etc., que são valores de estética literária”), então talvez seja um pouco equivocado se falar em “manual/guia de estilo”. Talvez o mais adequado fosse “manual/guia de padronização”, ou algo semelhante.

A segunda questão é muito importante para o tradutor. Quando o autor diz “Mas para que exagerar, vendo nela [na padronização] um bem absoluto, o modelo mesmo de boa escrita?”, resta claro que a padronização terminológica ou ortográfica de um texto não basta para que ele seja bom. Levando isso para a atividade tradutória: ainda que a terminologia e os aspectos formais da língua estejam uniformizados na tradução, há muito mais que devemos fazer para ser ela considerada uma tradução de qualidade. Trata-se da “estética literária”, das sutilezas da língua e do estilo.

É claro que a questão de estética terá níveis diferentes dependendo do que traduzimos. Traduções de textos técnicos exigem menos esforço literário, digamos assim, do que as de contos, crônicas ou poemas. Creio que vocês entendem a diferença.

Agora, para desenvolvermos um texto que não apenas gire em torno da uniformização terminológica, mas que tenha também riqueza de vocabulário, ausência de ambiguidades ou termos equivocados, ideias concatenadas (entre si, e entre a tradução e o original), adequação etc. é preciso saber escrever bem. E para escrever bem, voltemos à velha máxima: é preciso ler. O tradutor lê o tempo inteiro, mas é fato que, se ele ficar restrito às leituras de trabalho, será cada vez mais difícil enriquecer não só seu vocabulário, como também seu imaginário. Até porque, nem tudo que nos cai nas mãos para traduzir é bem escrito ou tem bom conteúdo.

Cito mais um trecho de A Arte de Escrever… (grifo meu):

A amoldagem da cabeça humana a um conjunto de normas práticas, não contrabalançada pela consciência do caráter meramente convencional dessas normas, pode produzir nela uma verdadeira mutilação intelectual, tornando-a, a longo prazo, incapaz de compreender e apreciar o que quer que esteja fora do padrão costumeiro. A quase absoluta incapacidade para a leitura de textos mais abstratos, de filosofia e ciência, por exemplo, que observo em tantos de meus colegas, não resulta de nenhuma deficiência congênita, mas do costume adquirido de lidar com uma só das dimensões da linguagem, deixando atrofiar a sensibilidade para todas as demais: o hábito da escrita plana e rasa produz a leitura plana e rasa.

Quando falamos de traduzir, não falamos somente da transposição de ideias de uma língua a outra, mas também de como essa transposição é feita, e seu meio é a escrita. Isso quer dizer que escrever não pode ser considerado um ofício menor do que o ato de traduzir em si. Ao contrário: escrever é o meio de que se vale para fazer tal transposição sendo, portanto, parte essencial e mais visível do trabalho do tradutor. Afinal, o leitor não terá acesso ao original e não fará uma análise de nossa transposição de ideias. O que ele tem em mãos é o produto final, um texto pronto, escrito em seu idioma materno.

Mas para que a escrita, de modo geral e na tradução, seja bem desenvolvida, não basta ler. É preciso saber ler. Em Aprendendo a escrever, Olavo de Carvalho adverte:

A seleção das leituras supõe muitas leituras, e não haveria saída deste círculo vicioso sem a distinção de dois tipos: as leituras de mera inspeção conduzem à escolha de um certo número de títulos para leitura atenta e aprofundada. É esta que ensina a escrever, mas não se chega a esta sem aquela. Aquela, por sua vez, supõe a busca e a consulta. Não há, pois, leitura séria sem o domínio das cronologias, bibliografias, enciclopédias, resenhas históricas gerais. O sujeito que nunca tenha lido um livro até o fim, mas que de tanto vasculhar índices e arquivos tenha adquirido uma visão sistêmica do que deve ler nos anos seguintes, já é um homem mais culto do que aquele que, de cara, tenha mergulhado na “Divina comédia” ou na “Crítica da razão pura” sem saber de onde saíram nem por que as está lendo.

Portanto, não é “ler de tudo” o que realmente nos faz aprender a escrever bem, mas sim a seleção que fazemos dentro desse “tudo”. É tarefa difícil, mas tendo consciência de que existem esses dois tipos de leitura, fica mais fácil nos atermos àquelas que nos serão mais úteis.

Para quem quer ser escritor, no mesmo texto o filósofo dá um conselho que nós, tradutores, podemos aproveitar, já que, em certa medida, somos também escritores:

Mas a aquisição do código supõe, além da leitura, a absorção ativa. É preciso que você, além de ouvir, pratique a língua do escritor que está lendo. Praticar, em português antigo, significa também conversar. (…)

Ou seja, para escrever bem, além de ler bem, é preciso praticar. Isso envolve, também, a tradução. Para se traduzir bem, só com a prática. E essa prática é algo contínuo, que não termina nunca. A vatangem da nossa profissão é que, quanto mais velhos e experientes ficamos, mais valor temos. Enquanto um atleta vê seu corpo e seu desempenho declinarem com o tempo, um tradutor vê sua mente cada vez mais em expansão. E, com as constantes leituras e exercícios de escrita e tradução, maior é sua capacidade de construir um texto rico, coeso e coerente, porque maiores são suas referências e experiência de mundo.

Isso pode se dar de muitas formas, desde traduzir textos de assuntos ou autores que nos interessam nas horas vagas, até arriscar a escrever textos literários em um blog. Há também um tipo de exercício que Olavo de Carvalho indica como método para aprimorar a escrita, que é o da imitação. Pegar um autor que gostemos (por exemplo Eça de Queiroz, Manuel Bandeira, Clarice Lispector etc.) e escrever imitando seu estilo. Segundo ele,

A imitação é a única maneira de assimilar profundamente. Se é impossível você aprender inglês ou espanhol só de ouvir, sem nunca tentar falar, por que seria diferente com o estilo dos escritores? (…) imitando um, depois outro e outro e outro mais, você não ficará parecido com nenhum deles, mas, compondo com o que aprendeu deles o seu arsenal pessoal de modos de dizer, acabará no fim das contas sendo você mesmo, apenas potencializado e enobrecido pelas armas que adquiriu.

Assim, não é difícil notar que fazer boas traduções pressupõe esforço contínuo: seja seguindo com cuidado as regras de padronização, seja desenvolvendo nossa capacidade cognitiva por meio de boas leituras ou aprimorando nossa escrita com exercícios práticos. O conjunto de todas essas coisas, aliado ao cuidado com o texto original e com a profissão em si, é o que faz um tradutor caminhar cada vez mais para a completude.

11 dicas para quem nunca participou de um evento profissional

No próximo fim de semana teremos, no Rio de Janeiro, a III Conferência Brasileira de Tradutores do ProZ.

Essa é a semana do corre-corre, de adiantar o trabalho e fazer os últimos ajustes para ir até o Rio. Em meio a tudo isso, lembrei como um evento pode ser estressante para quem é iniciante. Não pelos preparativos em si, mas pela inexperiência mesmo.

Por isso, compilei algumas dicas de como ter uma participação tranquila no seu primeiro evento profissional. Se você ainda não se sentiu preparado para ir no ProZ deste ano, comece desde já a se preparar para o do ano que vem!

  1. Faça as coisas com calma e antecedência

    Se você ainda é estudante ou acabou de entrar no mercado, não precisa se afobar. Os eventos de tradução não vão deixar de existir. Não é preciso comparecer a um evento simplesmente porque todo mundo está comentando. Não pressione a si mesmo e só participe de um quando se sentir confiante e pronto para isso.

  2. Informe-se

    Para se sentir pronto, coletar informações sobre o evento é essencial. Antes disso, porém, é preciso se informar sobre a própria profissão. O que falam por aí sobre a tradução? Leia sites, blogs e notícias sobre a área. Será muito mais fácil começar uma conversa ou entender uma palestra estando por dentro do mercado.

  3. Faça planejamento financeiro

    Não esqueça de que os eventos acarretarão  gastos com inscrição, hospedagem, alimentação e passeios.

  4. Faça os primeiros contatos nas redes sociais

    Antes de pensar em ir a eventos, vá primeiro às redes sociais. Faça contatos, comece amizades, veja quem são as pessoas por trás da profissão. Quando você decidir participar de um congresso, vai ser muito mais fácil estar num lugar com rostos conhecidos.

  5. Participe primeiro de eventos informais

    Sabe os profissionais que você conheceu no Facebook ou no Orkut? Geralmente eles organizam almoços e encontros informais para se conhecerem melhor. Antes de ir a um congresso ou conferência, tente se unir a eles em uma dessas reuniões mais descompromissadas. Fica mais fácil criar vínculos e afinidades.

  6. Vá em boa companhia

    Às vezes, o maior problema mesmo é estar sozinho. Nem todo mundo tem jogo de cintura ou puxa conversa com facilidade. Para evitar esse tipo de ansiedade, combine com um colega que também vá ao evento de irem juntos. Você acabará fazendo amizade com os contatos dele e baixará a guarda, conseguindo fazer seus próprios contatos com mais tranquilidade.

  7. Seja você mesmo

    É um velho clichê, mas funciona. Não tente impressionar ninguém querendo parecer o que não é. Cada um tem seu jeito, cada tipo de profissional tem um perfil. Siga as boas normas e confie no seu taco!

  8. Não peça emprego

    Networking não serve para pedir emprego, serviço, estágio ou nada nessa linha. Significa estar no meio de profissionais que um dia podem se interessar pelo seu trabalho. Ou seja, num evento, o importante é que as pessoas vão saber que você existe, poderão ter mais informações sobre o seu trabalho e saber que tipo de profissional você é. O resto é consequência.

  9. Leve cartões profissionais

    No congresso, as pessoas ficam sabendo de sua existência. Depois dele, elas precisam lembrar que você existe. Ter um cartão com seus dados e contatos é essencial. Não esqueça de pegar cartões também, claro!

  10. Saiba lidar com as frustrações

    Infelizmente, coisas chatas também acontecem. Há pessoas antipáticas, há quem não se interesse em responder perguntas de iniciantes, há quem esteja ocupado demais com pessoas conhecidas para conversar com gente desconhecida. Mas você não está lá para perder tempo com quem não tem tempo para perder com você. Junte-se às pessoas com quem tem mais afinidade e veja o lado bom da coisa. Afinal, a gente também pode aprender sobre o que NÃO fazer ou como NÃO ser.

  11. Aproveite o evento

    Não fique preocupado apenas em fazer contatos. Não esqueça que um congresso tem palestras, mesas redondas e muitas outras coisas. Participe ativamente, faça perguntas, anote as informações mais importantes. Os palestrantes são profissionais experientes que têm muito a ensinar. Não desperdice essa oportunidade de aprender com eles!

Admirável mundo novo

Desde o início da minha vida profissional como tradutora, o máximo de literatura que traduzi foram os e-mails do meu ex-chefe e uma brochura sobre as Baianas de Acarajé. De resto, os textos que paravam nas minhas mãos iam ficando cada vez mais técnicos.

Até que no início desse ano comecei um curso de formação de tradutores voltado à literatura e filosofia. Além das leituras e discussões interessantíssimas sobre a tradução e o papel do tradutor, passamos também a traduzir pequenos parágrafos como exercício.

A partir de então, descobri como a tradução pode ser ainda mais incrível e admirável! Nunca havia pensado muito sobre a importância da etimologia ao traduzir, sobre simbologia e uma série de outras coisas que geralmente não fazem parte do universo das traduções técnicas. Sim, eu descobri um mundo totalmente novo!

Aliado a isso, chegou meu primeiro trabalho da área editorial. Com afinco, tento aplicar o que vejo no curso à minha tradução. Este livro, em parceria com um colega tradutor, não é Shakespeare. Mas tem sido um belo desafio desbravar a linguagem coloquial, os inúmeros adjetivos e gírias, as diferenças culturais e as referências obscuras para mim. E também uma oportunidade maravilhosa de sair um pouco das amarras da tradução técnica e de seus glossários sisudos.

O incrível de ser tradutor é isso: a cada novo trabalho, nos deparamos com coisas sobre as quais nunca pensamos. Começamos a prestar atenção àquilo que, antes sem importância, agora é fundamental para a qualidade do trabalho. Descobrimos em nós a capacidade de aprender sempre mais e a facilidade com que nos adaptamos a novas situações. É, realmente, descobrir uma América a cada dia!

Por isso que hoje, e todo dia, é um feliz dia do tradutor!

Consegui! E agora?

Você estudou, se informou, participou de eventos, conversou com colegas da profissão, enviou currículos, fez testes e, finalmente, conseguiu a primeira oportunidade de traduzir profissionalmente. E agora?

Preparar. Apontar. Valendo!

Se você achou que conseguir a primeira oportunidade era o objetivo final, enganou-se. Esse, sim, é o verdadeiro começo. É agora que você vai começar, de fato, a se profissionalizar. Afinal, é a prática que aprimora os estudos, e é com ela que realmente aprendemos.

Não basta traduzir…

…tem que entregar um serviço completo. Desde o bom atendimento ao cliente até um produto final de boa qualidade. O tradutor profissional não se limita a apenas traduzir. Ele precisa ser um profissional completo, e isso significa saber relacionar-se com o cliente, revisar a tradução para deixá-la coesa e sem erros, manter a formatação do texto original, cumprir os prazos, e tudo o mais que o serviço exigir.

Coração de estudante

O tradutor não pode parar de estudar. Não importa: cursos de especialização, leituras, estudos autodidatas, participação em seminários, troca de ideias com outros profissionais, reciclagem. Nunca deixe de pesquisar, estudar e se envolver com os assuntos que mais lhe interessam profissionalmente. Quanto mais, melhor!

Xô, tentação

Ainda que seu primeiro cliente tenha prometido um bom volume de serviços, você nunca sabe o dia de amanhã. Resista bravamente à tentação de sentar no sofá e parar de procurar outros clientes. Sua ascensão profissional não pode depender de um cliente só, e você não vai ficar conhecido no mercado se não diversificar seus serviços.

Felizes para sempre?

Avalie TODAS as opções, SEMPRE. Ainda que você tenha conseguido um emprego de tradutor com carteira assinada, não caia no erro de achar que um salário no final do mês é garantia de sucesso profissional. Nunca deixe de se informar sobre o que acontece no mundo dos tradutores autônomos, pode ser que depois de ganhar experiência na empresa, sua chance de consolidação profissional esteja fora dela. Ou, se você começou como freelancer, não descarte a possibilidade de trabalhar com contratos temporários ou meio período em uma empresa/agência.

O começo do começo

O que fazer com o conhecimento de um idioma estrangeiro mas nenhum conhecimento sobre ou experiência em tradução?

A partir de um e-mail que recebi, hoje gostaria de falar sobre o começo do começo, aquele período entre a nossa decisão de nos tornarmos tradutores e o colocar a mão na massa efetivamente. É o espaço de tempo para reunirmos os requisitos mínimos que a profissão nos exige para que a pratiquemos com técnica, qualidade, confiança e conhecimento de causa.

Como já disse em outras ocasiões, há muitas maneiras de começar. Porém, conhecer bem uma língua estrangeira, ao contrário do que se pode pensar, não é a condição principal para ser tradutor, mas sim o quesito mais básico. O mesmo pode ser dito da língua materna: uma vez que, normalmente, traduzimos do idioma estrangeiro para o nosso próprio idioma, nada mais importante do que ter um excelente domínio dele.

Ou seja, ainda que uma pessoa tenha conhecimentos profundos de seu próprio idioma e de um idioma estrangeiro, eles não são suficientes para que ela seja (boa) tradutora. A prática da tradução exige umas tantas outras habilidades com as quais uma pessoa precisa se identificar para poder se intitular, realmente, tradutora. Vejamos algumas delas:

Ter curiosidade e saber pesquisar: encare essas habilidades como o instinto básico de sobrevivência do profissional de tradução. Combinadas, elas são a bússola do tradutor que,  lidando com os mais variados tipos de assunto e não conhecendo a fundo todos eles, precisa fazer o seu próprio mapa e achar as melhores saídas.

Ser amigo das novas tecnologias: hoje o tradutor é um dos profissionais que mais precisam acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas, principalmente as que ocorrem no mundo da computação. O computador não serve apenas para ler o original e digitar a tradução. É nele que vamos inserir todas as ferramentas para deixar nosso trabalho mais ágil e com mais qualidade. E é na internet, principalmente, que vamos interagir com outros profissionais da área, enviar e receber arquivos e prospectar novos clientes.

Ser bom administrador: ser freelancer exige que o tradutor não apenas se preocupe com a tradução em si, mas que ele gerencie bem seus projetos profissionais e sua vida financeira. Saber administrar prazos, prospectar clientes com frequência e entender sobre impostos e afins são coisas das quais não se pode fugir, por mais chatas que sejam para alguns de nós.

Se você acha que tem essas qualidades, ou que pode adquiri-las, o próximo passo é saber como se preparar antes de começar, de fato, a prospectar clientes e traduzir.


ESTUDOS

Fazer um curso universitário ou um curso de formação para tradutores: como sabemos, ainda que haja cursos universitários de tradução, o diploma de nível superior (ou qualquer outro) não é exigência para que pratiquemos a profissão. Há cursos de especialização mais direcionados para a prática da tradução em si, como o da Alumni e o do Daniel Brilhante Brito. Inclusive, se você já tem uma outra formação, como engenharia, química, história, etc., fazer um curso mais curto é o ideal. Com os conhecimentos técnicos da sua área de formação e da área da tradução,  você já pode partir para um nicho mais fechado do mercado.

Cursos específicos e de enriquecimento curricular: a tradução engloba muitas áreas de atuação, como legendagem, interpretação, tradução literária, tradução técnica, etc. Por isso, se você se interessa mais por umas do que por outras, fazer cursos de aperfeiçoamento é a saída para procurar oportunidades e atuar nessas áreas com o conhecimento necessário. Há excelentes cursos e professores em todas elas e, com as facilidades da internet, não é preciso nem sair de casa. Eu, por exemplo, fiz o curso de legendagem da Carolina Alfaro online e gostei muito.

Cursos “técnicos”: são muitas as ferramentas que auxiliam o trabalho do tradutor no dia-a-dia. Muitas delas podem ser aprendidas com a utilização na prática, mas outras requerem mais conhecimentos técnicos ou específicos. É o caso das CAT tools (computer-assisted translation tools), para as quais fazer um curso poupa tempo e dá mais suporte do que o autodidatismo. As CAT tools são várias e tem muita gente boa dando cursos sobre elas. Eu fiz o de Wordfast com o Roger Chadel, o que foi meu ponto de partida para, hoje, traduzir quase exclusivamente com as CAT. Aliás, elas serão o assunto do próximo post, não percam.

Também é bom manter sempre em dia os estudos da língua estrangeira e do português.

LEITURAS E NETWORKING

Mais uma vez, a internet mostra todo o seu potencial para a carreira do tradutor. Hoje, é muito mais fácil estar em contato com colegas de profissão, ler o que profissionais mais experientes têm a dizer e ficar sabendo de eventos presenciais que ocorrerão ao longo do ano. Parece que sempre bato na mesma tecla, mas é a mais pura verdade: ler blogs e participar de listas e comunidades sobre tradução é importantíssimo para entendermos como se comporta o nosso mercado e quais são as práticas mais comuns entre os tradutores. Ainda que seja preciso separar o joio do trigo, todas essas leituras nos enriquecem muito como profissionais. Vale muito separar um tempo do dia ou da noite para se manter atualizado. Além de ler, comentar nos blogs e listas é uma ótima oportunidade de fazer contatos na área e, assim, futuras parcerias poderão surgir. Mas, além da internet, os livros também são boas pedidas. Os do Paulo Rónai são verdadeiras obras-primas que tratam da tradução sob diversos prismas. O Fidus Interpres – a prática da tradução profissional, bem mais recente, é um excelente manual prático sobre a profissão.

INVESTIMENTOS

Investir em ferramentas essenciais à prática da profissão é um modo inteligente de começar. No início, o mínimo é ter um computador com bons requisitos e conexão à internet, dicionários monolíngues e bilíngues, gramáticas e pelo menos uma CAT tool (acho o Wordfast ideal para quem está começando. Tem versão gratuita, versão online e a versão paga é a mais barata do mercado). Se você passa muito tempo fora de casa, ter internet no celular ajuda a não perder oportunidades por não ter respondido prontamente a e-mails de clientes.

***
Para facilitar, eu resumiria tudo isso na seguinte autoavaliação:

 Tenho as qualidades mínimas para ser um bom tradutor?

  • sou curioso?
  • gosto de ler e pesquisar?
  • me dou bem com as tecnologias atuais?
  • tenho perfil para ser um profissional liberal?

Tenho os conhecimentos necessários para traduzir?

  • tenho excelente domínio da minha língua materna?
  • tenho conhecimentos profundos de uma língua estrangeira?
  • tenho curso universitário ou fiz algum curso específico de tradução?
  • tenho outra formação ou experiência profissional que pode ser meu nicho de tradução?
  • fiz algum curso para o nicho do mercado em que desejo trabalhar – legendagem, literatura, etc.?
  • sei usar as ferramentas de tradução que o mercado exige?
Conheço o mercado da tradução?
  • leio a respeito de como os profissionais de tradução atuam?
  • tenho contato com profissionais mais experientes?
  • conheço as práticas mais comuns dos profissionais de tradução?
  • uso a internet para me comunicar com outros tradutores?
  • quero/gosto de participar de congressos, eventos, seminários sobre o assunto?
Fiz os investimentos mínimos para começar a traduzir?
  • tenho computador com conexão à internet?
  • tenho pelo menos uma CAT tool?
  • tenho dicionários, gramáticas e livros para fazer minhas pesquisas?

Apesar desse post ter sido longo, há muitas outras coisas que ainda podem ser discutidas e avaliadas antes de se começar a traduzir realmente. A ATA – American Translators Association fez um questionário exaustivo sobre o que é preciso para ser um tradutor bem-sucedido. Certamente que, para quem mal começou, muito do que está contido no questionário são passos para se dar mais adiante. Mas creio ser uma boa maneira de ter uma visão global do que se espera de um profissional de tradução. E talvez até usar o questionário como um guia para se estabelecer com mais credibilidade como tradutor.

Por fim, para complementar esse post, vocês também podem ler o
Como? Quando? Onde? – Maneiras de começar.

Boa sorte!


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