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Tradutor, você já se reinventou hoje?

Outro dia estava lendo uma matéria da Revista Sorria que dizia que “uma carreira pode comportar várias profissões. E, um mesmo trabalho, distintas habilidades”. Achei isso a cara da da realidade dos tradutores, profissionais polivalentes e adaptáveis que somos. Dias depois, uma colega tradutora, bem mais experiente do que eu, chamou minha atenção para a necessidade de o tradutor sempre buscar novas áreas de conhecimento e atuação. Falamos bastante sobre a importância de investir em atualização ou novas especializações.

Lembrando da frase da revista e pensando nessa conversa, entendi que é essencial para um tradutor saber redirecionar a carreira. Estudando bem o mercado, podemos identificar nichos que nos trariam mais oportunidades do que o nosso atual, por exemplo. Somos, assim, capazes de determinar que novo rumo queremos seguir.

Mas essa guinada na carreira do tradutor não é aquela que acontece uma vez na vida, quando (ou se) entramos em crise de identidade profissional. Na nossa profissão, temos que nos reinventar a todo momento. Quando surgem novas tecnologias e ferramentas de trabalho, quando o mercado mostra sinais de mudança, quando clientes não nos passam mais serviço ou quando surgem novos clientes, e em tantas outras situações.

Considero que essa é uma das partes mais legais da vida como tradutor: ter a flexibilidade de respirar novos ares, adquirir novos conhecimentos, ganhar experiência em áreas diversas. Claro que, para isso, é preciso deixar o comodismo de lado, mergulhar nos estudos e nos dedicar ao máximo aos novos objetivos que queremos alcançar. Mas tudo isso vale a pena quando vemos novos caminhos se abrindo no nosso horizonte profissional.

Por que ninguém me diz quanto devo cobrar?

Uma reclamação geral entre os iniciantes (e, às vezes, os nem tão inciantes) é a de que os colegas de profissão não abrem o jogo sobre os valores que praticam. Bem, primeiro temos que admitir que isso mudou muito depois que se criaram comunidades online e nas redes sociais, onde os tradutores conversam bem mais abertamente sobre o assunto. Basta prestar atenção às discussões e ver que muito já foi falado sobre preços.

Porém, o mais importante para os iniciantes é entender que, na verdade, não é que os tradutores mais experientes queiram esconder suas tarifas. A questão é que os preços estão sujeitos a muitas variáveis. Por exemplo:

Tempo de experiência

Quanto mais tempo o tradutor tem de mercado, maior o seu know-how e melhor sua cartela de clientes. Seu valor praticado certamente é diferenciado. Ou seja, pode não ser parâmetro para alguém com pouca ou nenhuma experiência.

Nicho e especialização

Valores sempre variam dependendo da área em que o tradutor atua. Até dentro de uma mesma área, os preços podem variar de acordo com o conteúdo, o cliente ou o projeto mais especificamente. Além disso, se o nicho em que o tradutor atua for mais ou menos técnico, ou se ele é um dos poucos profissionais que entendem do assunto, já é motivo suficiente para os valores mudarem.

Clientes diretos x Agências x In-house

Quem trabalha diretamente com o cliente recebe um valor diferente do que quem trabalha para agências, que recebe um valor diferente do que quem é tradutor interno (geralmente, assalariado).

Tipo de texto e área de atuação

Legendagem paga um valor diferente do que localização, que paga um valor diferente do que editorial e por aí vai. Textos altamente técnicos pagam um valor diferente do que textos literários, que pagam um valor diferente do que trabalhos acadêmicos e por aí vai.

Tradução x Versão x Revisão

O tradutor não cobra o mesmo valor para tradução, versão ou revisão. Ele deve cobrar de acordo com cada tipo de tarefa que irá realizar.

Idioma

Muito provavelmente, tradutores de línguas mais raras têm menos concorrência e mais liberdade para praticar valores mais altos.

Tabela do Sintra

Eu vejo a tabela do Sintra como uma grande incógnita, porque enquanto muitos colegas dizem que é impossível praticar os valores sugeridos, outros dizem que é plenamente viável (e que até ultrapassam esses valores). Parece que depende muito mais da atuação individual do tradutor. Sendo assim, você pode usar a tabela como referência quando e como quiser, tendo em mente que no começo da carreira pode ser um pouco mais difícil aplicá-la.

Outro fator que devemos lembrar é que, numa boa parte dos casos, é o cliente que dá o valor e cabe a nós aceitar, negar ou partir para uma negociação (do próprio valor, do prazo etc.).

Além disso tudo, podemos pensar no seguinte: os trabalhadores assalariados não ficam divulgando seus salários aos quatro ventos. Será que com os tradutores, ainda que em sua maioria autônomos, deve ser diferente? Claro que uma discussão em torno dos preços é importante para o nosso mercado, até para não nivelarmos os valores por baixo. Mas há mesmo motivo para divulgarmos nossos preços detalhada e indiscriminadamente?

Estou de volta

Olá!

Estou de volta para contar mais novidades da minha “vida dupla” de tradutor e psicólogo. Duplicidade que está perto do fim, ou pelo menos de uma grande transformação – já, já vocês vão saber por quê.

No momento em que escrevo, faz alguns dias que entreguei mais um livro – já é o meu quarto! Após dois consecutivos para essa mesma editora, houve um hiato de quatro meses. Durante esse período, não deixaram de aparecer trabalhos para clientes menores, e também não deixei de recusar alguns que vi que não valeriam a pena – saber dizer não é uma virtude que todo tradutor deve ter, embora eu admita que ainda tenho minhas dificuldades com isso.

Nesse meio-tempo também foram publicados os meus dois primeiros livros: Noite Especial, de Anne McAllister, e Psicologia, de David Myers (traduzido em parceria com o Daniel Estill)!

Até que, no fim de maio, surgiu um novo pedido: mais um romance semelhante ao primeiro – inclusive no tamanho e no prazo dado pela editora. E novamente entrei no ciclo de dedicação quase exclusiva do tempo ao trabalho.

Dedicação que seria vã sem aquela alentadora sensação de reconhecimento. Um dia depois que entreguei o livro, a editora já tratou de me pedir outro. E foi graças a esse reconhecimento e à relação de confiança que já tenho com o cliente que tomei a liberdade de recusá-lo – não sem explicar que não teria como concluí-lo no tempo solicitado devido a outros compromissos e me pôr à disposição caso precisassem de mim nas próximas semanas.

No momento, estou de férias do trabalho “oficial” e fazendo o curso de legendagem com a Carolina Alfaro na PUC-Rio, buscando abrir mais uma porta para o mercado.

Quando voltar das férias, devo iniciar uma nova jornada que, se não me fizer tradutor em tempo integral, pelo menos vai me aproximar bastante disso e pode dar uma grande guinada nos meus planos (e quiçá até no rumo desta coluna). Após três anos no setor de RH, recebi uma proposta para trabalhar na biblioteca da empresa, mais precisamente no serviço de tradução! Meu próprio gerente, sabendo da necessidade de uma pessoa qualificada na biblioteca e da minha vocação para a área (até já fiz algumas traduções para ele e virei uma espécie de consultor de inglês e português para os colegas), foi quem me indicou. Não irei trabalhar traduzindo diretamente, já que isto é feito por uma empresa contratada, mas ao que tudo indica meu dia a dia será às voltas com essas traduções.

Mais detalhes, a conferir. Aguardem!

Tradutor: você ganha ou produz seu dinheiro?

Esses dias estive pensando sobre uma diferença essencial entre a cultura americana e a brasileira, evidenciada por duas expressões simples do inglês e do português:

make money X ganhar dinheiro

Há uma carga de autonomia completamente diferente nos verbos make e ganhar, e veremos como isso tem tudo a ver com o modo de encarar nossa profissão.

A primeira definição de make no Macmillan Dictionary é create, produce something, o que pressupõe que o sujeito é responsável pela ação. To make money significa gerar o próprio dinheiro por meio da minha oferta de serviço, do meu esforço. É o bom e velho “colocar a mão na massa”, “fazer acontecer”.

Então, qual a diferença entre “fazer dinheiro” e “ganhar dinheiro”? Ganhar significa “adquirir”, o que leva a entender que eu consigo ou conquisto algo que vem de fora, de uma outra fonte. Eu produzo esforço e trabalho, mas o dinheiro eu recebo (de outras mãos).

Às vezes acho que essa visão internalizada do dinheiro como um “presente” que se ganha é o que leva muitas pessoas a não sobreviverem na nossa profissão. A tradução é um ofício de autonomia, especialmente hoje, em que cada vez mais dispensamos as empresas e trabalhamos por nossa conta e risco. Faz muito mais sentido “fazer” nosso dinheiro, mas para isso precisamos parar de estender as mãos e mudar nosso esquema mental.

Como se faz isso? Primeiro, entendendo que ser tradutor exige ser uma mistura de administrador, contador, secretário, gerente comercial, técnico de informática e tantas outras coisas. Ou seja, que traduzir é apenas uma das facetas do nosso trabalho. Segundo, cultivando essas habilidades e as encarando como parte de um todo, e não como um fardo. Isso significa se livrar das amarras da mentalidade “trabalhador assalariado”, aquele que não decide nem apita nada, que não sabe quem são os clientes ou quanto a empresa fatura.

Ou seja: não fazemos parte de uma engrenagem. Nós somos a engrenagem. Antes de traduzir, fazemos captação de clientes, cultivamos contatos profissionais, buscamos os recursos necessários. Depois de traduzir, contabilizamos os valores, administramos as contas do mês, organizamos o escritório. Dessa forma, prefiro pensar que meu dinheiro ninguém me dá de presente. Eu simplesmente o mereço.

11 dicas para quem nunca participou de um evento profissional

No próximo fim de semana teremos, no Rio de Janeiro, a III Conferência Brasileira de Tradutores do ProZ.

Essa é a semana do corre-corre, de adiantar o trabalho e fazer os últimos ajustes para ir até o Rio. Em meio a tudo isso, lembrei como um evento pode ser estressante para quem é iniciante. Não pelos preparativos em si, mas pela inexperiência mesmo.

Por isso, compilei algumas dicas de como ter uma participação tranquila no seu primeiro evento profissional. Se você ainda não se sentiu preparado para ir no ProZ deste ano, comece desde já a se preparar para o do ano que vem!

  1. Faça as coisas com calma e antecedência

    Se você ainda é estudante ou acabou de entrar no mercado, não precisa se afobar. Os eventos de tradução não vão deixar de existir. Não é preciso comparecer a um evento simplesmente porque todo mundo está comentando. Não pressione a si mesmo e só participe de um quando se sentir confiante e pronto para isso.

  2. Informe-se

    Para se sentir pronto, coletar informações sobre o evento é essencial. Antes disso, porém, é preciso se informar sobre a própria profissão. O que falam por aí sobre a tradução? Leia sites, blogs e notícias sobre a área. Será muito mais fácil começar uma conversa ou entender uma palestra estando por dentro do mercado.

  3. Faça planejamento financeiro

    Não esqueça de que os eventos acarretarão  gastos com inscrição, hospedagem, alimentação e passeios.

  4. Faça os primeiros contatos nas redes sociais

    Antes de pensar em ir a eventos, vá primeiro às redes sociais. Faça contatos, comece amizades, veja quem são as pessoas por trás da profissão. Quando você decidir participar de um congresso, vai ser muito mais fácil estar num lugar com rostos conhecidos.

  5. Participe primeiro de eventos informais

    Sabe os profissionais que você conheceu no Facebook ou no Orkut? Geralmente eles organizam almoços e encontros informais para se conhecerem melhor. Antes de ir a um congresso ou conferência, tente se unir a eles em uma dessas reuniões mais descompromissadas. Fica mais fácil criar vínculos e afinidades.

  6. Vá em boa companhia

    Às vezes, o maior problema mesmo é estar sozinho. Nem todo mundo tem jogo de cintura ou puxa conversa com facilidade. Para evitar esse tipo de ansiedade, combine com um colega que também vá ao evento de irem juntos. Você acabará fazendo amizade com os contatos dele e baixará a guarda, conseguindo fazer seus próprios contatos com mais tranquilidade.

  7. Seja você mesmo

    É um velho clichê, mas funciona. Não tente impressionar ninguém querendo parecer o que não é. Cada um tem seu jeito, cada tipo de profissional tem um perfil. Siga as boas normas e confie no seu taco!

  8. Não peça emprego

    Networking não serve para pedir emprego, serviço, estágio ou nada nessa linha. Significa estar no meio de profissionais que um dia podem se interessar pelo seu trabalho. Ou seja, num evento, o importante é que as pessoas vão saber que você existe, poderão ter mais informações sobre o seu trabalho e saber que tipo de profissional você é. O resto é consequência.

  9. Leve cartões profissionais

    No congresso, as pessoas ficam sabendo de sua existência. Depois dele, elas precisam lembrar que você existe. Ter um cartão com seus dados e contatos é essencial. Não esqueça de pegar cartões também, claro!

  10. Saiba lidar com as frustrações

    Infelizmente, coisas chatas também acontecem. Há pessoas antipáticas, há quem não se interesse em responder perguntas de iniciantes, há quem esteja ocupado demais com pessoas conhecidas para conversar com gente desconhecida. Mas você não está lá para perder tempo com quem não tem tempo para perder com você. Junte-se às pessoas com quem tem mais afinidade e veja o lado bom da coisa. Afinal, a gente também pode aprender sobre o que NÃO fazer ou como NÃO ser.

  11. Aproveite o evento

    Não fique preocupado apenas em fazer contatos. Não esqueça que um congresso tem palestras, mesas redondas e muitas outras coisas. Participe ativamente, faça perguntas, anote as informações mais importantes. Os palestrantes são profissionais experientes que têm muito a ensinar. Não desperdice essa oportunidade de aprender com eles!

Mais sobre especialização

Vocês devem ter lido o artigo que escrevi sobre como o iniciante pode buscar uma área de especialização.

Como um excelente complemento, li o artigo 6 steps to develop a translation specialization and make it work, do site Intercultural Zone.

Abaixo, destaco e comento algumas das partes que considerei mais interessantes:

Developing a new area of specialization is a serious commitment.

Sim, especialização é coisa séria. Uma vez que você escolheu uma área e se esforçou para conseguir trabalhar nela, por que você mudaria de ideia e começaria tudo de novo em uma outra área? Valorize seu tempo e seus esforços analisando os prós e contras seriamente antes de começar a jornada.

Is the demand for this area of specialization durable, or is it some fly-by-night trendy craze businesses will ignore in a year or two?

Cuidado com os modismos! Nunca escolha uma área de especialização somente porque ela é a bola da vez, ou porque todos falam que dá muito dinheiro. O calor do momento pode não ser duradouro.

Figure out what you need to invest in, what that is going to cost, how you are going to fund these investments, over what period of time.

Lembram-se de que falei sobre ir a eventos e fazer cursos da área de interesse? Tudo isso terá um custo. Então, encare esse custo como investimento. Investir pressupõe que teremos um retorno, certo? Não gaste seus recursos se não for para colher os frutos mais tarde.

Sniffing around is fun and important. Attending trade shows, demos, playing mystery customer and so on are great ways to discover the culture and the environment of the field you seek to become involved with. Who are the players? What are they like?

Uma área de especialização é formada, primeiramente, por pessoas. Ou seja, além do conhecimento técnico sobre o assunto, precisamos nos conectar com as pessoas envolvidas com ele. Quem são? Qual o perfil delas? Identifico-me com elas? Sinto-me bem entre elas? Lidamos com pessoas o tempo todo, então não subestime todas essas questões antes de se atirar de cabeça na especialização.

Find specialized colleagues for insider advice, mentoring, resources that didn’t hit your radar yet.

Se pararmos para pensar, temos modelos para tudo na vida. Sempre nos espelhamos em quem mais admiramos e isso é ótimo, pois aproveitamos as coisas boas que as pessoas têm nelas em nós mesmos. Podemos agir de forma semelhante na vida profissional, escolhendo bem nossos modelos e aprendendo com a experiência deles. E não somente com relação à àrea de especialização em si, mas também à ética e postura profissional.

Leiam o texto completo do Intercultural Zone, vale a pena!
6 steps to develop a translation specialization and make it work

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