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O pessoal e o profissional nas redes sociais

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Já ouvi algumas pessoas dizendo que devemos criar perfis nas redes sociais diferentes: um para assuntos pessoais, outro para profissionais.

Primeiro, é preciso fazer uma distinção básica entre o que é pessoal e o que é intimidade. Imagine que você trabalha em um escritório. Você não sai contando para todo mundo sobre suas aventuras amorosas. Por outro lado, na hora do almoço, pode ser que o assunto desvie para política e você deixe claro alguns de seus pontos de vista.

O que quero dizer é que há assuntos que são muito pessoais e devem ser compartilhados apenas com pessoas próximas. Outros, ainda que fujam do âmbito profissional, podem ser discutidos com colegas de trabalho sem comprometer sua integridade, ainda que haja divergências de opinião.

Sendo assim, não creio ser preciso criar perfis separados nas redes sociais. A vida real não é assim. Num escritório, não se fala só de trabalho 100% do tempo. Em casa, não se exclui o tema trabalho porque o ambiente é pessoal. O que é preciso é ter bom senso e não exagerar. Além disso, somos pessoas indivisíveis, e é nosso conjunto que nos torna interessantes para os outros.

No meu perfil do Facebook, tenho adicionados muitos tradutores com quem já trabalhei ou ainda trabalho. Alguns deles têm opiniões completamente diferentes das minhas com relação a uma série de assuntos, como política e religião. Nem por isso nossas relações ficam estremecidas ou deixamos de cooperar profissionalmente.

Não é preciso separar o perfil pessoal e o de trabalho. É preciso, sim, separar a pessoa do profissional. Se você gosta de rock e eu de música clássica, quem traduz melhor? Exato, não há resposta, porque opiniões ou preferências não influenciam nem a minha nem a sua competência profissional.

O estresse de cumprir o prazo com qualidade

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Olá, pessoal!

Estou de volta com a dúvida de uma leitora que recebi por e-mail. Tenho certeza de que, senão todos, a maioria dos iniciantes passam pela mesma coisa, então resolvi responder por aqui.

Se vocês estão passando por dificuldades semelhantes, seria muito valioso se relatassem suas experiências lá nos comentários. Em fases complicadas, é muito bom saber que não estamos sozinhos, não é?

Fiz o curso de Letras/Tradução (Francês) e possuo o curso completo da Aliança Francesa, portanto posso dizer que tenho um bom conhecimento da língua estrangeira da qual traduzo (o francês) e um bom conhecimento também do português. Recentemente fiz também um curso de Especialização em Tradução. Posso dizer que conheço bastante a teoria da tradução. Entretanto quando se trata de pôr isso em prática no Mercado de Trabalho da Tradução, a coisa se torna muito complicada. Já tive uma curta experiência em agência de tradução e tive muita dificuldade de conciliar a qualidade do trabalho à quantidade de laudas que tinha que produzir por dia. Como cumprir o prazo de entrega é sempre muito importante, acabava pecando na qualidade do meu trabalho. Acabei não suportando a frustração de não estar realizando um bom trabalho (como se aprende na Universidade) e o trabalho sob pressão. Como posso resolver esta questão, já que não gostaria de abandonar anos de estudo e dedicação à Tradução e partir para outra área.

Essa, sem sombra de dúvidas, é uma das maiores frustrações dos tradutores. Acredito que todo tradutor já passou ou irá passar por isso um dia. Não há uma fórmula mágica para responder a essa pergunta, mas posso deixar aqui minha opinião com base em experiências passadas.

A qualidade do trabalho é sempre mais importante do que o prazo. É nisso que devemos acreditar, ainda que as agências ou outros clientes digam o contrário ou queiram nos forçar a acreditar que não é. A qualidade do trabalho é o nosso produto final e nosso cartão de visitas, é o que fica. Ninguém, depois que você entrega uma tradução, pensa no tempo que você teve para fazer, nem nas condições, nem no prazo. E, consequentemente, ninguém vai relevar erros e inconsistências que aparecerem como resultado disso.

Por outro lado, como devemos proceder quando tantas agências exigem de nós prazos irreais? Como lidar com condições nada razoáveis? Minha opinião é: negociar. Sempre.

Primeiro, tenha uma ideia de quanto você consegue produzir por hora, por exemplo. Quantas palavras você consegue traduzir por hora? Qual o seu rendimento para tradução, versão e revisão? Quantas horas você consegue ou tem disponível para trabalhar por dia? Sabendo como é sua produção e seu ritmo, fica mais fácil avaliar se o prazo que a agência está requisitando está dentro ou fora dos padrões (o seu e o do mercado – se uma agência pedir 30 mil palavras em um dia, não é só você que não conseguirá cumprir essa meta, mas provavelmente nenhum outro tradutor).

Não há problemas em tentar negociar o prazo. Simplesmente explique que o prazo pedido não é possível de ser cumprido e diga em que data poderá entregar a tradução (faça isso sempre ANTES de confirmar o trabalho; renegociar prazos durante o trabalho, só em casos excepcionais). Muitas vezes, os iniciantes têm medo de contrariar a agência e de perder o trabalho. Tratando do assunto com cordialidade (pois negociar não significa xingar o cliente porque ele não tem noção do que está pedindo, embora às vezes dê vontade ;)) é possível ainda conseguir o trabalho. A agência pode querer passar a outra pessoa, e a gente precisa aceitar que isso também acontece. Mas também precisa entender que nem sempre essas negativas são ruins para nós. Pode ser que apareça uma outra oferta de trabalho com melhores condições (que você não poderia aceitar caso estivesse se descabelando para cumprir o prazo da outra). Ou que essa mesma agência volte para você futuramente com melhores prazos, pois percebeu que não adiantou passar para outro tradutor, que aceitou as condições mas fez um trabalho muito ruim.

Outro ponto: não somente as agências podem fazer exigências. O tradutor também pode. O prazo é apertado e o arquivo está em PDF difícil de converter? Peça que mandem o arquivo já convertido e formatado para poupar tempo da tradução (e que o prazo só comece a correr a partir do recebimento deste arquivo).  São pequenas (grandes) coisas como essa que mostram para os clientes que somos profissionais e que não podemos aceitar qualquer condição sem que respeitemos as nossas próprias.

Quando saímos do meio acadêmico, encontramos um mundo muito diferente lá fora. Eu também senti isso e, com medo, demorei para me arriscar no mercado. Acho que já contei aqui que depois de ter me formado em tradução fui fazer jornalismo, e hoje vejo que foi por fuga, por insegurança. Justamente pelo fato de não saber encaixar as teorias na prática. Então, por experiência própria, eu digo: não é preciso desistir da tradução. O medo é normal no começo e, com o tempo, a gente vai se acostumando com o mercado, com o que ele exige de nós e com o que podemos exigir dele também. E isso em qualquer profissão.

As teorias que aprendemos na faculdade são ótimas porque ficam internalizadas em nós. São elas que nos dão noção do que podemos e devemos fazer na hora de traduzir, que aperfeiçoam nossa tradução. Porém, as teorias estão na base do que somos como tradutores, mas constituem uma parte pequena da nossa totalidade. Ou seja, um tradutor é a soma do que ele aprendeu e do que ele pratica como profissional perante o mercado, os colegas de trabalho, os clientes, as agências.

Todos nós, experientes ou não, temos que conciliar tudo isso no cotidiano da profissão. Muitas vezes é frustrante, a gente se decepciona, se desanima. Mas, com o tempo, conseguimos encontrar o equilíbrio entre todas essas coisas. É difícil de acreditar nisso quando estamos no meio do turbilhão. Mas persevere e você verá que, assim como muitos, você também vai conseguir.

Consegui! E agora?

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Você estudou, se informou, participou de eventos, conversou com colegas da profissão, enviou currículos, fez testes e, finalmente, conseguiu a primeira oportunidade de traduzir profissionalmente. E agora?

Preparar. Apontar. Valendo!

Se você achou que conseguir a primeira oportunidade era o objetivo final, enganou-se. Esse, sim, é o verdadeiro começo. É agora que você vai começar, de fato, a se profissionalizar. Afinal, é a prática que aprimora os estudos, e é com ela que realmente aprendemos.

Não basta traduzir…

…tem que entregar um serviço completo. Desde o bom atendimento ao cliente até um produto final de boa qualidade. O tradutor profissional não se limita a apenas traduzir. Ele precisa ser um profissional completo, e isso significa saber relacionar-se com o cliente, revisar a tradução para deixá-la coesa e sem erros, manter a formatação do texto original, cumprir os prazos, e tudo o mais que o serviço exigir.

Coração de estudante

O tradutor não pode parar de estudar. Não importa: cursos de especialização, leituras, estudos autodidatas, participação em seminários, troca de ideias com outros profissionais, reciclagem. Nunca deixe de pesquisar, estudar e se envolver com os assuntos que mais lhe interessam profissionalmente. Quanto mais, melhor!

Xô, tentação

Ainda que seu primeiro cliente tenha prometido um bom volume de serviços, você nunca sabe o dia de amanhã. Resista bravamente à tentação de sentar no sofá e parar de procurar outros clientes. Sua ascensão profissional não pode depender de um cliente só, e você não vai ficar conhecido no mercado se não diversificar seus serviços.

Felizes para sempre?

Avalie TODAS as opções, SEMPRE. Ainda que você tenha conseguido um emprego de tradutor com carteira assinada, não caia no erro de achar que um salário no final do mês é garantia de sucesso profissional. Nunca deixe de se informar sobre o que acontece no mundo dos tradutores autônomos, pode ser que depois de ganhar experiência na empresa, sua chance de consolidação profissional esteja fora dela. Ou, se você começou como freelancer, não descarte a possibilidade de trabalhar com contratos temporários ou meio período em uma empresa/agência.

Mim, bom.

Quando começamos a procurar um emprego ou uma colocação na nossa área, precisamos destacar nossos pontos fortes e qualidades acadêmicas e profissionais. Especialmente no começo, algumas pessoas tendem a exagerar para conseguir vender o próprio peixe, muitas vezes sem perceber que o efeito alcançado é o oposto do desejado.

No fundo, há duas coisas que acontecem: 1) a pessoa floreia sua experiência acadêmica ou profissional propositalmente ou 2)  a pessoa sofre de excesso de confiança, um mal que atinge muitos principiantes.

No primeiro caso, digo que, além de não adiantar nada florear o currículo, essa é uma prática desonesta. E quem cai do cavalo é o próprio tradutor. Imagine dizer que tem experiência com tradução médica e receber um texto enorme recheado de termos técnicos e siglas. Certamente a qualidade do trabalho vai ser péssima, o prazo para entrega vai estourar e o cliente nunca mais vai procurar esse tradutor. O segundo caso pode ser resolvido com constante autocrítica. Às vezes realmente achamos que, por sermos bons no que fazemos, podemos aceitar qualquer tipo de trabalho. Ou que não precisamos continuar estudando nem aperfeiçoando o que já sabemos. Se isso já é ruim no profissional com tempo de estrada, imagine em um principiante que falha em analisar suas capacidades profissionais.

Ninguém está livre de pensar, ingenuamente, que pode aceitar esse ou aquele trabalho. Mas basta acontecer uma ou outra vez para saber que dizer ‘não’ é necessário com muito mais frequência do que imaginamos. Além disso, dificilmente a arrogância tira alguém do patamar em que está. Só a humildade e a verdade consigo mesmo fará com que alguém busque estar sempre em um nível melhor.

Autoconfiança é ótimo. Mas tudo o que é demais faz mal.

Nova fase e o que aprendi sobre networking

Queria contar um pouco para vocês sobre os novos rumos que estou tomando na vida profissional e aproveitar para falar sobre como o networking está sendo importante para essa nova fase.

Depois de um ano e meio trabalhando como tradutora em uma empresa de commodities e de mais outro ano e meio sendo tradutora in-house em uma empresa de traduções, resolvi dar o meu pulo e mergulhar na vida de freelancer. Na primeira empresa, aprendi muita coisa com a prática e com a ajuda dos britânicos e americanos com quem eu mantinha contato constante. Sempre foi muito satisfatório ver que as traduções de e-mails, documentos, reuniões e conversas que eu fazia sempre foram muito bem entendidas, especialmente pelo fato de não haver uma supervisão. Já na empresa de tradução, eu tinha uma coordenadora que revisava meus textos e o feedback era constante. Tínhamos reuniões para revisar aspectos importantes da gramática inglesa e portuguesa e conversar sobre soluções tradutórias e sobre os detalhes mais relevantes de cada job. Dessa forma, muito do meu aprendizado como tradutora adquiri na raça e depois sendo in-house. Foi uma etapa vital para minha vida profissional.

Mas, foi chegada a hora de cortar os laços e ficar mais independente. Saí do ninho e agora estou aprendendo o outro lado, o lado que não existia na vida de “tradutora de empresa”. Nesse lado, uma das coisas mais essenciais que deve ser aprendida e que eu, parte intuitivamente, parte por ter realmente prestado atenção, assimilei antes mesmo de dar essa guinada, foi a importância do networking.

O networking é algo como o “pretinho básico”. Ou seja, não dá para viver sem. Antes do boom da internet, no entanto, creio que o networking era menos discutido e mais posto em ação. Era uma época em que ele era simplesmente o bom e velho “fazer contatos”. Todo mundo sempre fez contatos profissionais. Sempre ouvi meu pai dizer: “conheci fulano na época em que trabalhava na empresa X” ou “cicrano, aquele que trabalhou naquele projeto comigo, me ligou para discutir tal e tal”. Ou seja, as pessoas iam conhecendo as outras nos seus locais de trabalho e sempre davam um jeito de se achar caso precisassem de algo ou de alguém. Para você ser procurado, bastava ter sido um bom profissional, porque o que ficava guardado de você era a postura que tinha nessas passagens por diferentes empresas.

Eu ainda vejo o networking um pouco assim. A base para se fazer bons contatos profissionais é se mostrar um profissional de valor. Valor profissional e valor ético. Eu sigo à risca certas regras: o networking não é amizade forçada; não é fofoca nos bastidores; não é bajulação. É, sim, a postura que você assume diante de outros profissionais da sua área e a sua disposição em fazer um bom trabalho e ajudar colegas quando necessário.

Hoje, a internet potencializou o networking: você não precisa necessariamente ter conhecido  fulano ou cicrano  na empresa X ou no projeto Y. Eles podem ser simplesmente colegas que fazem parte da mesma lista de discussão ou da mesma comunidade do Orkut que reúne os profissionais do seu ramo e da qual você participa. Hoje você não precisa mais torcer para que as pessoas se lembrem de você e do bom profissional que era. Você pode ser lembrado constantemente. Ter um blog sobre sua área de atuação, ter um perfil profissional no Twitter, ter um currículo no LinkedIn, participar ativamente de listas e fóruns. Isso sem falar, é claro, dos encontros presenciais em seminários, congressos, palestras e eventos, que sempre existiram.

Ou seja, hoje temos muito mais controle sobre nosso networking. Sobre as pessoas que queremos conhecer e com quem será interessante interagir. No entanto, o essencial mesmo é entender que o networking não é um grande jogo de interesses. “Vou começar a conversar com fulano porque acho que ele pode me passar trabalho”, “não gosto de cicrano, mas vou dar uma bajulada para ver se consigo uma indicação”. O networking é, antes de tudo, uma troca constante de informações e de auxílio. A amizade e as possíveis indicações e ofertas de trabalho podem ser uma agradável consequência, mas lembre-se de que ocorrem naturalmente.

E por que aprendi muito sobre networking “parte intuitivamente, parte por ter prestado realmente atenção”? Intuitivamente porque a gente começa a fazer networking logo no começo da vida profissional. Lá atrás, antes mesmo de estar trabalhando na área, senti necessidade de conhecer outros colegas do ramo e fui fuçar todos os grupos que pude encontrar na internet. Fiquei na moita em comunidades e fóruns durante ANOS. Essa foi a época em que prestei muita atenção. Como eu não estava efetivamente na área, li muito o que os colegas falavam, as discussões sobre diversos assuntos do ramo e, principalmente, avaliei como as pessoas se comportavam e interagiam (e exemplos de como eu gostaria ou não de ser). Não que eu tenha feito uma análise fria e calculista disso tudo. Como eu disse, apenas prestei atenção. Quando chegou a hora em que achei ter algo de útil a dizer, comecei a participar. Não cheguei de supetão. Cheguei entendendo como tudo aquilo funcionava. E foi aí que tudo aquilo funcionou para mim também.  O networking que comecei fazendo por intuição, mas que me fez prestar atenção, foi em grande parte o que me encorajou a mudar o rumo. E, por causa dele, sem dúvida, o rumo mudou para melhor.

Tradução x Versão II: esclarecendo pontos importantes

Tradução x Versão II

Olá pessoal,

Achei por bem deixar a série de posts para quinta-feira (amanhã não conseguirei postar) e continuar nossa conversa sobre Tradução x Versão. Prometi à Isabel que responderia ao comentário dela de ontem por aqui . Ela diz:

“não entendi por que não fazer versoes. e se a pessoa gostar de escrever em inglês, qual o problema? nao entendi por que nao fazer versoes, por favor me explique melhor. algumas vezes quando trabalho nao fica legal eu devolvo o dinheiro mas adoraria estudar mais e fazer versoes por que é o que eu gosto, adoro escrever em ingles”.

Vamos aos esclarecimentos, então (hora de pegar um cafezinho 😉 ):

1- Gostar de escrever em inglês praticamente nada tem a ver com traduzir um texto para o inglês. Ambos usam o registro escrito em uma língua comum – o inglês – e só. O “escrever em inglês” é seu. Você se compromete apenas com você mesmo. Seu texto é o original, ou seja, não se baseia em nenhum outro e comunica um pensamento ou uma opinião pessoal, seja para você mesmo (em um diário, por exemplo), seja para outra pessoa (em uma carta ou um e-mail comercial, por exemplo).

2- Já traduzir, como atividade profissional, implica dever com o autor do texto original. O texto não é seu, a mensagem não é sua. Você não está realmente escrevendo, no sentido de produzir conteúdo. Está apenas transmitindo a mensagem de uma outra pessoa – seu cliente, em outra língua. Ou seja, escrever um texto é criar uma mensagem. Traduzir um texto é veicular a mensagem de um terceiro em outro idioma.

3- Certamente o tradutor precisa gostar de escrever, o que não significa, necessariamente, gostar de criar um texto. O “gostar de escrever do tradutor” é gostar de lidar com textos e palavras, ter habilidade para interpretá-los nos idiomas com os quais trabalha, fazer uso correto da gramática e nunca deixar de estudá-la, ler muito para saber escrever melhor ainda. Isso quer dizer que esse “gostar” exige estudo e disciplina, o que o tira da categoria “hobby” e o insere na categoria “profissão”.

4- Supondo que uma pessoa goste de escrever (criar textos), ainda assim não é garantia de que será um bom tradutor. As habilidades do tradutor não estão apenas concentradas na construção de um texto, mas em muitas outras práticas necessárias a essa atividade profissional. O tradutor precisa fazer pesquisas muitas vezes detalhadas e aprofundadas sobre assuntos que não conhece bem (e também saber onde acessar as informações), ter um conhecimento geral consideravelmente vasto para não cair em armadilhas tradutórias, conhecer bem a cultura do idioma estrangeiro, cuidar da fluência e da coerência da tradução sempre pensando no público-alvo, estar inteirado com a tecnologia atual (não precisa ser um hacker, mas precisa conhecer bem suas ferramentas de trabalho), fora toda a parte comercial, como captar clientes e fazer networking.

5- Agora falando especificamente de versão. Por mais que uma pessoa conheça muito bem um idioma estrangeiro, ela nunca será falante nativa daquele idioma (com exceção de indivíduos bilíngües, aqueles que foram criados ouvindo e falando dois idiomas concomitantemente – e que, mesmo assim, nem sempre serão bons tradutores). Isso significa que um falante de português que aprendeu inglês jamais terá a mesma fluência e entendimento das pequenas nuances da língua inglesa como um americano ou um britânico. Ele terá aquela fluência do estrangeiro que fala uma segunda língua, ou seja, do brasileiro que sabe se comunicar em inglês, que fala e escreve bem, mas que produz um texto ou participa de uma conversa com o “sotaque” de sua língua materna, o português. Se você der uma pesquisada, vai ver que alguns livros e páginas na internet falam sobre “os erros mais comuns cometidos por estudantes de inglês”, os quais, no fundo, mesmo um profissional não está totalmente livre de cometer. Isso porque cada povo entende a língua e a cultura de formas distintas e isso fica bem claro em seus discursos. Por exemplo, por que será que em português falamos “interferir em”, mas em inglês é “interfere with”? E por que, de vez em quando, pipoca um texto com “interfere in”? Saber essas pequenas sutilezas é que vai distinguir os bons dos maus tradutores. E é por isso que fazer versão é complicado, porque são sutilezas que não nos são naturais, exigem olhar treinado, estudo e muita prática. Por isso, nunca é demais repetir: traduzir/verter não é apenas transpor palavras de um idioma para o outro.

6- Não que seja proibido um falante de português passar um texto para o inglês. Só que a atenção e o cuidado devem ser redobrados. Como vimos ontem nos comentários da Tradutores/Intérpretes BR, o mercado aqui no Brasil tem muita demanda por versões, mas não tem número de nativos suficientes para realizá-las. O tradutor brasileiro que se comprometer a fazê-las deve estar ciente de sua responsabilidade e, de preferência, contar com um revisor. Assim, poderá garantir a qualidade de seu trabalho e atender às necessidades de seus clientes.

7- Isabel, se você quer se dedicar ao ofício de tradutor, precisa encarar essa atividade como profissão e não como passatempo. Imagine que você compra uma blusa e, quando chega em casa, percebe que está com defeito. Você volta até a loja querendo uma blusa igual, porém sem defeitos, afinal você escolheu aquela loja porque gosta muito da marca. Mas o vendedor diz que não pode consertar sua blusa nem lhe dar outra nova e acaba devolvendo seu dinheiro. Como você se sente nesse tipo de situação? Você perdeu seu tempo indo até a loja (que não percebeu o defeito na peça) duas vezes (para comprar e para trocar) e a loja não conseguiu solucionar seu problema, resolvendo que é melhor você gastar seu dinheiro em outro lugar. Se fosse eu, nunca mais voltava na loja. Com o tradutor é a mesma coisa. Quando um cliente seu recebe a tradução e vê que ficou ruim, ele está fazendo o seu serviço. É você que tem que prezar pela qualidade de seu trabalho, não o cliente. E se ele não entende inglês? Imagine que ele, que não sabe uma palavra de inglês, pede para você verter o resumo de um artigo que deseja publicar em uma revista científica internacional. O artigo (que, tudo dando certo, poderá ser seu próximo trabalho) será aceito com base apenas nesse resumo. Se você fizer uma versão ruim, prejudicará a carreira de seu cliente e todo o trabalho que ele teve escrevendo o artigo terá sido em vão (além de você perder o que seria seu próximo trabalho). É como se você se produzisse toda para uma festa e não visse o defeito da blusa, saindo com o sutiã (ou coisa pior) aparecendo. Quero dizer, a responsabilidade do tradutor não é nada pequena. Se você pensar que os tradutores traduzem bulas de remédio, manuais de máquinas pesadas e perigosas, manuais de instrumentos cirúrgicos, etc., perceberá que não é exagero. Um erro na tradução e uma pessoa pode perder um braço, tomar uma medicação errada ou até morrer.

8- Além disso, você nunca conseguirá se firmar no mercado se seus clientes precisarem devolver seu trabalho, pois dificilmente eles lhe procurarão novamente. Cliente não dá em árvore e uma hora você se verá sem nenhum. Portanto, se quer seguir esse caminho estude, como você disse (inclusive nunca deixe de aperfeiçoar o português, sua primeira língua). Estude muito e tenha sempre consciência de suas limitações. Quando receber textos, leia e avalie se terá condições de vertê-los. Não é errado dizer não, como eu disse ontem. É melhor negar um serviço e se preservar, do que aceitar o que está acima de sua capacidade e deixar seu cliente sair com uma blusa furada.

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