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Rotina de trabalho: organização para uma tradução de qualidade

Não raro ficamos tão preocupados com a qualidade da nossa tradução que concentramos toda nossa energia apenas no ato de traduzir. Com isso, acabamos esquecendo  que um projeto vai muito além da tradução propriamente dita.

A verdade é que o bom resultado de um projeto depende não somente de como traduzimos o texto ou de quantas vezes o revisamos, mas também da nossa rotina de trabalho como um todo. Quando sentamos para trabalhar, é necessário fazer uma preparação antes de começar a traduzir de fato. Sem essa organização prévia ficamos mais suscetíveis a cometer erros e a perder mais tempo do que deveríamos. E isso, é lógico, compromete a qualidade final do serviço.

Para que você possa garantir uma tradução bem feita e não se desgastar por mera desorganização, veja abaixo alguns procedimentos importantes que você pode seguir antes de colocar a mão na massa.

Abra uma pasta para o projeto

Tenha sempre um lugar específico para os seus projetos, onde você possa encontrar/salvar rapidamente os arquivos relacionados ao job. Costumo subdividir minhas pastas da seguinte maneira:

Nome do cliente > Ano > Mês > Nome do projeto [incluir subpastas aqui se necessário, por exemplo: Referências, TM, Glossários]

Leia atentamente o e-mail do cliente

Leia tudo sem pressa e salve as informações mais importantes. Para isso, costumo usar o Evernote (aguardem um post só sobre ele!), onde abro uma nota específica para cada job e reúno todas as instruções do cliente. Deixo essa nota aberta durante o projeto, para poder consultar sempre que necessário. O bom do Evernote é que não é preciso estar online ou com o navegador aberto para ter acesso às notas. E eu uso a versão gratuita mesmo.

Salve os arquivos

Baixe e verifique todos os arquivos enviados para ver se estão todos corretos. Se for usar uma ferramenta CAT, dê uma olhada em tags, segmentações, contagem de palavras, TM, glossários, etc.  Quanto antes você fizer isso melhor, pois se houver algum arquivo com problema, logo o cliente poderá lhe passar a versão correta, não comprometendo o seu prazo ou o dele.

Organize as referências do projeto

Abra, salve ou deixe acessível os arquivos e links que precisará consultar ao longo do job: glossários, guias de estilo, documentos para referência visual, etc.

Leia rapidamente o texto

Você provavelmente fez isso quando o cliente o consultou pela primeira vez. Agora, antes de começar a traduzir, dê uma nova passada de olho para sentir o tom e manter o padrão do texto desde o começo.

Consulte o guia de estilo

Eu sempre costumo abrir o guia de estilo enviado pelo cliente e dar uma lida rápida antes de começar a traduzir. Sempre tem uma ou outra instrução especial para seguir e é mais seguro tomar conhecimento delas desde o início. Depois, vou consultando o guia quando preciso ou quando bate alguma dúvida.

Tire as primeiras dúvidas

Muitas vezes, depois da primeira passada de olho no original, surge alguma questão sobre terminologia, padronização, público-alvo ou algum outro aspecto importante para a tradução. Se essas questões não estiverem inseridas nas instruções ou materiais enviados pelo cliente, aproveite para tirá-las antes de começar a trabalhar.

Reserve um lugar para anotações

No computador ou na sua mesa de trabalho, deixe disponível um lugar para registrar dúvidas durante o projeto. Assim, fica mais fácil reunir tudo para enviar um e-mail completo ao cliente (em vez de enviar vários e-mails e lotar a caixa de entrada dele) ou manter a padronização do projeto.

Ative o modo de produtividade

Deixe preparados recursos/ferramentas/programas que ajudem você a ser produtivo e manter a concentração.

Não se esqueça também de:

– Fechar todas as janelas, pastas e arquivos que não sejam necessários para o projeto
– Deixar por perto seus dicionários/glossários em papel preferidos
– Ativar os recursos de backup para não perder o trabalho todo ou parte dele
– Rever o cronograma e replanejar tarefas se necessário
– Livrar-se de distrações e deixar o ambiente agradável para trabalhar
– Se for ficar muitas horas trabalhando, já deixe um copo de água/suco/chá e um lanchinho à mão

Agora, sim, mãos à obra!

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Mãe e freelancer: o que aprendi até agora e algumas dicas

Essa é a segunda parte (leia a primeira aqui) do meu artigo respondendo a dúvidas de uma leitora que quer iniciar na tradução para, entre outras coisas, poder passar mais tempo com o filho pequeno. Portanto, hoje o artigo será dedicado ao que se pode esperar da rotina de mãe e freelancer. Clicando nos links ao longo do texto, você poderá ler outros artigos sobre o assunto.

2013 foi o primeiro ano em que me dividi entre maternidade e trabalho. Aprendi muita coisa e a palavra que definiu esse período foi “adaptação”, sem sombra de dúvidas. Para que essa adaptação seja mais tranquila, compartilho abaixo um pouco da minha rotina e algumas dicas de como tornar o dia-a-dia mais fácil.

Prepare-se para diminuir o ritmo

Antes de ter meu filho, eu chegava a trabalhar até 12 ou 13 horas num dia, dependendo do tamanho ou da quantidade de projetos. Como estava começando na vida de autônoma, me acostumei com esse ritmo pois era um momento de muita prospecção de clientes, de tentar coisas novas, de testar a produção diária.

Quando engravidei, o ritmo já não estava tão insano, mas ainda assim trabalhava o dia todo, entre seis e oito horas.  Já na própria gravidez comecei a desacelerar, especialmente porque o corpo pediu. Quando tive meu filho, fiquei quatro meses longe dos teclados.

A volta ao trabalho foi bem gradual. Precisei pensar muito bem em quantas horas poderia trabalhar por dia, e não seriam muitas. Sem babá ou empregada, quem cuidaria do pequeno seriam as vovós durante as tardes, então precisei me organizar de acordo com a agenda delas.

Sair de 13 horas de trabalho diárias para no máximo quatro é uma diferença brutal. No começo a gente sente como se ainda estivesse fora da vida profissional, como se fosse apenas um ensaio para a grande volta. Mas depois acostuma. E acabamos fazendo escolhas mais inteligentes por conta disso: escolhemos os clientes a dedo, não pegamos mais trabalho do que daremos conta, administramos melhor o tempo de trabalho.

Dica 1: se você está grávida, já vá pensando em quais clientes deseja manter e quais deseja dispensar quando voltar da licença. Cultive os primeiros e vá largando os segundos aos poucos.
Dica 2: se você está deixando a vida de CLT para a de autônoma, o começo vai ser devagar mesmo. No início, seu tempo de trabalho será dedicado para prospectar clientes, estudar, participar de eventos. Leve isso a sério, porque isso é trabalho também, e se você fizer direito, renderá ótimos frutos.

Saiba aproveitar o tempo

Procrastinação todo tradutor autônomo conhece. É difícil manter a concentração e a produtividade sempre, todos os dias. O problema é que quanto mais tempo a gente tem, mais procrastina, porque sabe que “pode” deixar para depois.

Mas quando a gente é mãe e nossos filhos ainda não vão para a escola, ou contamos com ajuda limitada, sabemos que se não fizermos o trabalho naquela hora, dificilmente teremos outro momento para continuar ou finalizar a tarefa. É uma espécie de “agora ou nunca”. Claro que, ainda assim, especialmente se o prazo for folgado, haverá aquelas dias de produção baixa, por causa de uma série de fatores: cansaço, doença, imprevistos. Isso só não pode se tornar regra.

Portanto, é preciso saber se organizar e alocar o tempo para cada serviço, tentando não deixar as coisas da casa invadirem o horário de trabalho e vice-versa.

Dica: não use todo e qualquer horário para colocar o trabalho em dia. O melhor é trabalhar na hora que precisa trabalhar, descansar na hora que precisa descansar. Assim você não gasta energia fora de hora e pode passar mais tempo com seu filho ou cuidando dos assuntos domésticos.

Não estranhe se suas prioridades mudarem

(…) lembre-se de que você é uma só e que, a partir do momento em que se torna mãe, essa é a sua profissão principal. (leia aqui o artigo completo da Rafa Lombardino)

A Rafa não poderia estar mais certa com essa frase! Quando a gente é mãe, o foco simplesmente muda. Se antes, toda a minha concentração e maior parte dos meus esforços iam para o trabalho, hoje é totalmente diferente.

Por mais que tenha sido difícil diminuir o ritmo de trabalho, hoje não me vejo trabalhando mais do que cuidando do meu filho e da minha casa. Eu confesso que era bastante negligente com os assuntos domésticos antes de engravidar, e achava que toda a minha energia tinha que ir para o trabalho.

Atualmente, não me importo de trabalhar menos (e, consequentemente, ganhar menos também). Eu fico feliz de ter encontrado o equilíbrio entre casa e trabalho, e acho que jamais voltaria a negligenciar meu lar por conta dos compromissos profissionais. Tenho plena noção de que, para muitas pessoas, essa negligência não é voluntária, mas sim uma imposição das circunstâncias. Por outro lado, escolher a vida de autônomo pressupõe justamente ter a liberdade de escolher também o que vamos priorizar.

Se você está passando da vida de CLT para a de autônomo a fim de passar mais tempo com seu filho, tenha essas coisas em mente. Enquanto seu(s) filho(s) forem pequenos, muito provavelmente você não ganhará tanto quanto antes, porque não trabalhará tanto quanto antes. E isso não é problema algum. É que, no começo, é difícil mesmo deixar de se enxergar somente como profissional. Mas, aos poucos, a equação vai mudando, e a proporção entre vida doméstica e trabalho também.

Dica: nem todo cliente é carrasco. Há clientes que compreendem sua situação se você jogar aberto com eles. Eu tenho deixado claro que não posso aceitar trabalhos de urgência ou prazos muito apertados, e não tem faltado trabalho. Se você for competente, o cliente vai passar serviço mesmo assim, porque ele sabe que receberá um trabalho bem feito. Portanto, nunca aceite um trabalho se você não vai dar conta. Perder um prazo ou entregar um trabalho de baixa qualidade é garantia de perder o cliente também.

Estabeleça uma rotina (sabendo que ela pode mudar)

Já tivemos várias rotinas desde que meu filho nasceu. As fases da criança mudam, nossa rotina também. Algumas são mais tranquilas, outras mais complicadas, mas a rotina é sempre bem-vinda.

É preciso pensar em diversos fatores quando queremos definir uma rotina que inclua os serviços profissionais e domésticos, sem embaralhar tudo. Por exemplo:

Em que horários você poderá ficar sozinha para trabalhar?
Dá para conciliar esses horários com seus horários mais produtivos?
Qual a melhor hora para cozinhar para o seu filho?
Dá para congelar a comida e não precisar fazer almoço todo dia?
E a limpeza? Tem faxineira, empregada ou é tudo por sua conta?
Em que horário você poderá limpar a casa sem atrapalhar a rotina profissional?
E os fins de semana?
Você trabalhará aos sábados e domingos?
Vai separar um dia da semana ou dois para descansar?

Enfim, são algumas perguntas básicas a se fazer antes de estabelecer seus horários. Como exemplo, posso falar um pouco do que funciona para mim.

De manhã me dedico somente à casa (limpeza, comida etc.) e ao meu filho. Mesmo quando tenho um tempinho nesse período, uso-o para mim. Pode ser para tomar um banho mais longo, ou para escrever um artigo para o blog. Enfim, as manhãs são nossas.

À tarde, meu filho fica com minha mãe ou minha sogra, dependendo do dia da semana. É hora de produzir o máximo que der, enviar e-mails, cobrar clientes.

À noite, é hora de descansar, cozinhar se precisar, sair um pouquinho nos dias quentes, ler, conversar com o marido, dormir,  enfim… Um apanhado de coisas que não deu para fazer durante o dia.

Fins de semana são para descansar (a rotina da semana já é muito pesada, não é?), passear e me dedicar à família. Raramente trabalho, mas se precisar, faço alguma coisa no sábado. No domingo, nunca.

Dica 1: a dinâmica da rotina pode mudar (inclusive de um dia para o outro). Para ajudar a manter uma certa consistência em meio às mudanças, estabeleça uma rotina ideal, que vai ajudar a manter a rotina real (entenda melhor aqui).
Dica 2: seja flexível. Não é sempre que conseguimos cumprir o que planejamos, do jeito que planejamos. Às vezes temos um dia muito produtivo e no outro estamos cansados demais. Veja as pequenas mudanças na rotina como algo natural e não se cobre pelo que acabou deixando de fazer. Saber re-planejar é essencial.

Dois assets de primeira necessidade para um tradutor

Observação 1: se você for do tipo velho(a) rabugento(a), teimoso(a) e apegado(a) às suas verdades, não recomendo a leitura deste artigo, pois ele é direcionado apenas às pessoas à frente do seu tempo e dispostas a melhorar suas vidas através da mudança de alguns conceitos. 😀

Observação 2: toda vez que desistir de investir nos dois ou em um dos assets aqui sugeridos, recomendo que volte a ler o texto até decidir tomar a atitude certa e investir. 😛

Quando a gente tenta colocar ordem na vida, a primeira palavra que vem à nossa cabeça é a f@3$d@%&*p@ da “organização”. Acho que já disse que estou ficando traumatizada com essa palavra. Quantas vezes você olhou para a bagunça inevitável ao seu redor (tá, alguma bagunça dá pra evitar, mas a gente não tem tempo, a gente pensa demais pra ter que ficar pensando em arrumação) e pensou: “Meu Deus, preciso dar um jeito nisso, onde já se viu? Um profissional lindo, poderoso, eficiente como eu, com uma zona dessas à minha volta? Se o cliente visse isso aqui, jamais confiaria na minha capacidade de organização para um projeto grande!”. Quantas?

E a bagunça não é só na sua mesa de trabalho. A essa altura, você provavelmente já se esqueceu de pagar alguma conta, falta leite na sua geladeira, a ração do gato já está sendo fracionada há uma semana, você precisa usar a mesma camiseta que vem usando há três dias porque ainda não teve tempo de tirar a roupa da máquina pra pendurar no varal, sua mãe manda o FBI te procurar porque você não telefonou pra confirmar que estava vivo depois das últimas 897 ligações. Melhor parar por aqui porque se algum de vocês tem tendências a problemas de ansiedade, deve estar prestes a ter um surto.

Só que quando você tem tempo pra perceber a coisa toda, você está normalmente exausto depois que entregou um projeto que consumiu até a última gota de glicose do seu cérebro. Está naquele estágio que eu chamo de pré-lobotomia, em que a única coisa que conseguimos fazer é ver algo bem idiota na TV e não pensar, não se movimentar, no máximo, comer. Uma coisa bem calórica, de preferência, porque merecemos, porque estamos exaustos (na verdade é o cérebro querendo que você se ache merecedor porque ele precisa de glicose pra não pifar de vez). Nessa fase, nem dormir a gente consegue! Colega, a fase de surtar e sair passando roupa ou lavando banheiro já passou faz tempo, aquilo foi um ensaio de loucura quando você estava em pânico achando que não ia dar tempo de entregar o projeto. Agora, sai pra lá com essa ideia de fazer compra, deixa pra amanhã, quando meu cérebro voltar a emitir alguma onda.

Depois que você volta ao mundo dos vivos, já tem outro projeto pra entregar, tem até algum prazo, então decide, à la Roberto, que “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Acontece que entra outro projetinho (ah, moleza, entrego logo e me livro), mais um, outro, outro maior com prazo que dá pra encaixar com o outro. Quando você vê, está na mesma loucura que estava no projeto anterior para a próxima semana, ou mais. Aí começa tudo lindinho arrumando a mesa, limpando tudo bonitinho, afinal, novo round. Joga tudo dentro de uma caixa – que provavelmente nunca mais será aberta. Se algum dia, por acaso, tiver que abrir a tal caixa, normalmente porque perdeu algo importante, como o passaporte, vai encontrar dois cartuchos novinhos pra impressora e vai querer bater a cabeça na parede porque perdeu 3 horas pra ir até a Kalunga comprar os malditos cartuchos ou porque gastou o equivalente a uns quatro chopes só de frete pra comprar on-line. Em seguida, começa o festival de fast food. Imagina se no meio disso tudo vai sobrar tempo pra fazer comida. Vamos rezar pra mãe ter piedade e trazer umas comidas pra você congelar, né?

E isso vai se acumulando ao longo dos anos (devo ter umas 20 caixas aqui, tenho até medo do que pode haver lá dentro). Tenho uma amiga que tem uma tática incrível que passarei a adotar. Ela bota as coisas na caixa, se em três meses não abrir a caixa, joga fora sem olhar. Cara, isso é o que eu chamo de desprendimento! Preciso disso. Agora, somado a tudo isso que eu disse, imagina se você tem filho(s), bicho(s) de estimação, e uma casa duas vezes maior do que tem hoje. Multiplica o tanto de louça, o tanto de comida, o tanto de roupa que tem que lavar/passar, o tanto de bagunça. Multiplicou? Pois bem, senta, respira, tenta imaginar um campo florido, lindo, com pássaros cantando. Ou imagina uma praia bem gostosa, Trancoso… Passou? Então voltemos.

Então, principalmente para quem tem família, acho de fundamental importância considerar a contratação de uma empregada, secretária, faz-tudo do lar, não importa o nome que você dê à sua salvadora. Muitos vão dizer que não precisa, que vai se virando, que é uma despesa desnecessária. Bom, se na sua casa funciona sem, feliz de você. Aqui não funciona. Somos dois tradutores e duas adolescentes (santas, em vista de muitos que conheço) e o dinheiro que gastávamos com diaristas e pedindo comida era pelo menos o dobro do que gastamos hoje mantendo uma empregada registrada que faz tudo (inclusive as compras). O tempo que perdíamos nos dedicando às tarefas domésticas, por mais que intercalado com outras atividades e de forma compartilhada entre todos, acabava somando para a desvantagem financeira.

Tá bom, se você mora sozinho ou se moram você e o cônjuge, talvez não precise de uma empregada diariamente. Eu, nesse caso, contrataria uma diarista umas duas vezes por semana. Ah, mas uma vez dá. Não, deixa de teimosia, não dá! Não se você pensar que ela vai limpar, lavar, passar, cozinhar e, eventualmente, fazer compras. Só pra dar jeito na roupa, por exemplo, precisa de dois dias, ou você acha que a mulher é mágica e lava/seca/passa tudo no mesmo dia? Bem, se ela estiver no verão em, vejamos… Brasília, pode até ser – se ficar o dia todo. Você pode combinar que um dia ela vem, lava, passa a da semana anterior e limpa, no outro só faz compras e cozinha para a semana.

A menos que a sua mãe ou a sua sogra (ou sei lá quem) faça tudo isso pra organizar sua vida de graça (em geral, isso nunca é de graça) ou que você more com seus pais/avós, vale a pena financeiramente. Você terá tudo em ordem (menos a sua mesa de trabalho), comida saudável, roupa limpa, armários organizados, gavetas arrumadas, cama cheirosa, banheiro limpinho, cozinha organizada. Isso não tem preço! E se você é do tipo que não sabe delegar, aprenda. Isso mesmo! Aprenda. Larga o osso e vai viver, criatura! Pare de querer controlar tudo porque você só vai ganhar cabelos brancos e rugas com isso. É lógico que alguns limites devem ser estabelecidos pra você também não perder o controle da sua vida, mas neurose, deixa pros malucos. Você é um tradutor, está no caminho certo para ter uma vida linda, cheia de conquistas e alegrias, precisa ter tempo pra curtir tudo isso (também pra se aperfeiçoar, aprender coisas novas, dormir, fazer sexo de qualidade, ir ao cinema, tomar vinho…).

Tenho certeza que os teimosos continuarão achando desnecessário. Eu levei quatro anos até ser convencida pelo meu persistente marido. Mas depois que decidi parar de lutar contra essa necessidade, minha vida mudou. Se hoje eu tenho tempo para dormir, em grande parte, devo isso à minha fiel escudeira. É claro que é difícil encontrar uma pessoa que faça as coisas do jeito que você quer. Acredite, nunca farão do jeito que você faria. Mas largue esse osso também, senão você nunca conseguirá arrumar alguém. Uma coisa que eu percebi é que eu não estava dando o devido valor às candidatas. Você tem que pagar o que vale. Faça uma conta de quantas horas você levaria nessas atividades (ou seja, quanto deixa de ganhar) e de quanto você gasta com pedindo comida ou comendo fora e veja quanto realmente vale esse asset. Pague o justo, registre para evitar problemas futuros e perda de tempo e dinheiro com advogados caso queiram “colocar você no pau” um dia, e não desista na primeira tentativa.

Se você realmente não quiser ou não conseguir encontrar alguém ideal, pelo menos considere comprar uma lava-louças – outro must have (eu tenho as duas, a lava-louças veio primeiro) para quem quer ter alguma qualidade de vida. Ah, não tenho espaço, meu apartamento é um ovo. Coloca na sala! Na cabeça! Mas não fique sem! Esse é outro asset em que eu jamais acreditei e que o santo persistente marido me convenceu que valia a pena. Se você é como qualquer humano, vai achar que é uma bobagem, porque você tem que passar na água a louça pra tirar o grosso. Vai achar que é frescura. Gente, não é! Sério!

Você passa a mesma água que passa em qualquer louça que vai deixar juntando na pia. Sim, aquela que não dá tempo de lavar sempre, que vai deixando a cozinha azeda. Bota lá e esquece, tira ela está seca! Ah, mas não lava panela! Lava sim! Mas mesmo que você não use pra isso (eu nunca usei), pensa comigo, o que dá mais trabalho ao arrumar a cozinha? São as coisas pequenas, aquele monte de talher dos infernos que você passa horas lavando, às vezes até mais de uma vez pra tirar toda a gordura. E depois enxugar tudo aquilo… Aí é que está a grande mágica da lava-louças, você coloca tudo lá e esquece. Sai tudo impecavelmente limpo e seco! As taças de vinho… Um espetáculo! Amo muito! Você deveria tentar. Té plus!

Rotina ideal x rotina real

Algumas pessoas me pediram para falar sobre minha rotina de trabalho depois que o bebê nasceu. Agora que ele chegou ao sexto mês (já!!!) e voltei ao trabalho há dois meses, dá para dividir com vocês como está sendo.

A rotina ideal

Há sempre uma diferença muito grande entre a rotina que a gente idealiza e aquela que consegue estabelecer. Porém, acho importante ter uma rotina ideal como parâmetro para definir a rotina real, assim a coisa não fica bagunçada. Com bebês, as mudanças são muito rápidas. Quando você está se acostumando aos horários e hábitos do seu filho, ele entra numa nova fase e tudo muda.

O período mais crítico de mudanças na rotina é nos primeiros meses, pois a criança ainda está se habituando ao mundo e, você, a ela. Por isso minha opção por não trabalhar nos três primeiros meses, o que para mim foi uma decisão acertada. Com meu filho, as coisas começaram a ficar mais estabelecidas quando ele estava indo para os três meses. Uma bela noite, ele dormiu cinco horas seguidas. Na noite seguinte, seis. Quando vi, estava dormindo a noite inteira.

Foi também nessa fase que ele começou a ter fome em horários mais regulares, e eu já conseguia prever que seus intervalos entre mamadas seriam entre três ou quatro horas. Nesse período, enquanto eu ainda não estava trabalhando, nossa rotina estava gostosa e tranquila. Ele já tinha tomado as principais vacinas, então podíamos incluir voltinhas rápidas nas nossas manhãs. A rotina ideal se definiu naturalmente, e estava mais ou menos assim:

Manhã ( +/- das 7h30 às 10h30):

Primeira mamada
Passeio
Soneca
Banho

Almoço e tarde (+/- das 11h às 17h):

Segunda mamada
Período de atividades
Soneca
Terceira mamada
Período de atividades
Soneca

Fim de tarde e noite (+/- das 18h às 23h):

Quarta mamada
Período de atividades
Soneca
Quinta mamada
Hora de ir para o berço

Há coisas importantes que ajudaram a manter uma rotina como essa. Por exemplo, tentar não trocar a ordem mamada – atividade – soneca*. O sono para o bebê é essencial, por isso também não é bom ficar alterando ou pulando as sonecas diurnas, senão eles não dormem direito à noite. Lembrando, também, que essa é a rotina DO BEBÊ e eu tenho todas as outras coisas para fazer na casa ou na rua.

A rotina real

As coisas estavam desse jeitinho quando decidi voltar a trabalhar. Partindo daí, precisei estabelecer que horários poderia reservar para traduzir/revisar, com base no quanto receberia de ajuda para ficar com o bebê, como já comentei. No momento, não poderia contratar babá ou empregada e, no fundo, nunca foi mesmo minha vontade (sou chata, confesso. Não gosto de gente “estranha” dentro de casa). O que não abro mão é de faxineira a cada 15 dias, porque alivia bastante a rotina de serviços domésticos.

Ficou acertado, então, que minha mãe ajudaria em duas tardes durante a semana. Meu marido ficaria com as noites nos outros dias e minha sogra nas emergências. E eu teria ainda o sábado de manhã. As sextas ficariam como stand-by porque é um dia mais complicado para nós, e  domingo é o dia de descansar, ir à missa etc..

Enquanto estou trabalhando, fico trancada no escritório. Minha mãe ou meu marido só me chamam se necessário. Como complemento a amamentação, tento contornar para dar a mamadeira no horário de trabalho, assim a vovó pode ficar com essa função. São apenas duas mamadas ou até menos com complemento, então geralmente acaba dando certo. Tenho um berço desmontável no escritório e uma cadeirinha de descanso para o bebê, caso esteja sozinha e precise ou queira adiantar alguma coisa. Mas, via de regra, tento não trabalhar enquanto estou com ele; gosto de dar atenção só para ele, ou de me concentrar para valer no trabalho.

Tem sido assim desde então. Voltei aos poucos, entrando em contato com os principais clientes. Minhas horas de trabalho estão super reduzidas perto do que eram antes. É estranho se acostumar a isso. Como freelancers, estamos acostumados a trabalhar muitas horas seguidas, ter dias com mais de 10 horas de trabalho ou ficar sem fins de semana. Agora, tudo que faço é picadinho. Umas duas horinhas aqui, outra horinha ali, uma adiantada enquanto o bebê dorme. E fico morrendo de medo de pegar mais trabalho e não conseguir cumprir.

O lado bom é que não dá tempo de procrastinar. Sei que se não fizer essa tarefa agora, sabe-se lá quando poderei fazer! Fui forçada a me organizar me concentrar ao máximo, e vejo isso como uma coisa ótima. Já trabalhar à noite é bem complicado, porque sinto muito sono. Outro dia o bebê deu um pouco mais de trabalho e COMECEI a fazer uma revisão depois das 22h (e tive que revisar minha própria revisão na manhã seguinte, claro). Mas não tenho outra opção.

Novas mudanças

A rotina que meu bebê estabeleceu aos três meses durou bastante tempo. Mas algumas coisas foram se modificando conforme o seu desenvolvimento. Por exemplo:

  • Às vezes ele pula a soneca da noite, antes da quinta e última mamada. Acho que ele está quase pronto a abandoná-la de vez. Já sei que não posso reservar trabalho para esse horário.
  • As sonecas estão mais curtas e os períodos de atividades mais longos.
  • Antes, as atividades eram curtos períodos de vigília em que ele ficava observando o móbile, ou sentado na cadeirinha ou explorando algum brinquedinho. Hoje, são períodos mais extensos com brincadeiras de vários tipos, rolar para lá e para cá na cama dos pais, ouvir música, treinar para ficar sentado e engatinhar etc.. Exige mais tempo e atenção de minha parte.
  • Temos mais flexibilidade. Às vezes saímos à tarde e são saídas mais longas, em que posso aproveitar para resolver alguma coisa. Só evito sair mais de uma vez, porque nessa fase eles se cansam fácil.

E, agora, a grande mudança é que ele começou a tomar suquinho e comer papinha. É um marco importante e começamos neste fim de semana. Por esses dois dias já vi que teremos que mudar bastante coisa para encaixar a hora do suco e da refeição, então criaremos uma nova rotina ideal e real. Quando estivermos mais estabelecidos, volto para contar como foi a adaptação de horários e como conciliei com o trabalho.

*Aqui deixo um aviso para as futuras mães que possam estar lendo este artigo: toda criança é diferente e esses parâmetros podem funcionar para meu filho, mas não para o seu. Não forcem seus bebês a rotinas muito rígidas (fiz isso no começo, o que foi muito precipitado e, claro, não funcionou). Deixe a criança chegar à sua própria rotina e, então, a ajude a mantê-la.
 
Foto do destaque retirada daqui.

Está chegando a (boa) hora!

Está chegando a hora: meu filhote deve nascer até o final desta semana!

Antes de mais nada, quero agradecer por todas as manifestações de carinho comigo e com ele durante a gestação. Um dos pontos altos da gravidez foi ver como uma nova vida é celebrada com alegria por todos!

Bem, vocês acompanharam um pouco da minha jornada por organização, rumo a esse momento tão esperado. Foram muitas mudanças e novidades ao longo desses meses, e também desde a última vez que escrevi sobre isso. Mas, mesmo com alguns tropeços, deu tudo certo até agora. Da próxima vez que falar sobre o assunto, será para contar a vocês se as coisas também se encaixaram na rotina com o bebê. Torçam por mim! 🙂

O último projetinho e a última fatura do ano foram enviados na semana retrasada. Depois disso, tratei  de desacelerar por completo e tentar descansar. Fui diminuindo o ritmo do trabalho aos poucos no último mês, falando com clientes e fazendo acertos para quando eu voltar.

A preocupação com a organização também se estendeu aos cuidados com o bebê. Estou lendo o livro Nana, nenê para, desde o início, criar uma rotina tranquila com o filhote e facilitar nossa vida lá na frente. Além, claro, de todas as leituras, vídeos e conversas durante esses 9 meses. Pesquisar tudo com cuidado e detalhadamente (juntamente com as coisas que coloquei em prática) me ajudou a ficar mais calma e confiante de que posso me organizar bem depois que o bebê nascer.

E a organização também chegou ao AP, claro! Andei preparando artigos novinhos para serem publicados na minha ausência. Estão todos programados para saírem periodicamente, assim vocês não ficam na mão. Quem quiser me escrever nesse período, fique à vontade. Pode ser que eu demore a responder, mas tentarei não deixar ninguém sem resposta.

Agora, deixa eu ir lá aproveitar os últimos dias de descanso! Até breve!

É possível conciliar o seu maior projeto de vida, os filhos, com o trabalho de tradução?

Rafa Lombardino*

“Menina, o que você já tá fazendo na frente do computador?!” ou “Por que você não respondeu o e-mail que eu enviei meia hora atrás?”

Essas foram as duas reações completamente diferentes que alguns dos meus clientes tiveram quando voltei a trabalhar poucos dias depois de os meus filhos nascerem. O plano original era tirar pelo menos 45 dias de licença maternidade e voltar à ativa aos poucos, em meio período, para aprender a conciliar o papel de mãe e o papel de tradutora. Não deu nem um mês…

A Marissa nasceu em setembro de 2008 e o Lorenzo em agosto de 2012. Ambos partos naturais na banheira de uma clínica-maternidade com o auxílio de uma parteira. Nas duas ocasiões, cinco horas mais tarde eu tive alta e já estava de volta em casa para dar início à recuperação, aproveitar o carinho da família e dos amigos e me apaixonar pelos meus bebês.

Mas nem tudo é um mar de rosas. Criar um pingo de gente no seu ventre exige muita energia durante as quarenta semanas (ou mais!) de gestação. Apesar do alívio imediato depois que o bebê finalmente está nos seus braços, o seu corpo ainda leva tempo para voltar ao normal. Você reaprende a andar, reaprende a se sentar, reaprende a fazer tudo que levou nove meses aprendendo a fazer diferente para acomodar a barriga crescente, os pés inchados e a lombar dolorida.

E a mente? Ah… a mente mente! Você acaba trocando o dia pela noite, dependendo do ritmo de vida imposto pelo seu bebê. Seus pensamentos até parecem bem claros na sua cabeça, mas o cansaço e a falta de sono vão acabar interferindo no seu raciocínio. Pode apostar!

Tô ficando doida? – Você abre a boca para dizer alguma coisa e já não consegue completar frases, tentando economizar energia e torcendo para que todos ao seu redor consigam ler os seus pensamentos.

Você fica frustrada quando tudo cai da sua mão, menos o bebê e o precioso leitinho. Falando nisso, se quiser aproveitar a conveniência de ter mamadeiras prontas na geladeira, você passará pelo menos umas três horas apertando a bombinha tira-leite em quatro ou cinco sessões diárias. Dica: chá de feno grego funciona se o seu objetivo for se tornar uma vaca leiteira e produzir 1,250 L de leite por dia.

Você ouve vozes! No meu caso, o Guilherme Arantes cantou no meu ouvido um dia inteiro… Não, o rádio não estava ligado e não ouço uma música dele há muito tempo, mas o cara teimou de vir cantar aqui em casa. Talvez cérebro de mãe de recém-nascido funcione em uma frequência diferente e você acabe captando essas ondas misteriosas…

Apesar de todos esses contratempos, ao contrário do que muitos pensam, cuidar de um bebê não é algo assim tão complicado. Bom, complicado mesmo é correr atrás de uma menina de quatro anos, cheia de energia, que vai para o jardim da infância meio-período às segundas, quartas e sextas, faz ginástica olímpica às terças e quintas, balé às sextas e, mesmo assim, é movida a pilhas que duram mais do que as do coelhinho da Duracell.

Criança de quatro anos já fala e a resposta para tudo é: “Não!” Tem hora para comer, tomar banho, fazer lição de casa e de ir para cama. Mas criança de quatro anos também ajuda, participa, pega paninho para limpar quando o bebê dá golfadas em cima de você e dá aquele abraço gostoso que recarrega a suas energias.

Sim, bebês dependem de você para tudo, mas logo a gente se acostuma com o ciclo: dar de mamar, trocar fralda e colocar para dormir. Se a sua recuperação também está progredindo sem sobressaltos, nas horas vagas já dá para planejar a volta ao batente.

Aproveitando as preciosas horas do dia – Sou daquelas que não consegue ficar muito tempo parada. Preciso sempre fazer algo de produtivo, então poucos dias depois de dar à luz bateu aquela vontade de ouvir o barulho do teclado de novo. Porém, levando em conta todo esse vai-e-vem físico, psicológico e emocional, é preciso acima de tudo ser honesta consigo mesma e se perguntar: “Estou mesmo preparada?”

A última coisa que você quer é voltar a trabalhar e meter os pés pelas mãos, cometer erros imperdoáveis, não respeitar o prazo de entrega e depois dizer que a culpa é das noites mal dormidas. Você precisa se conhecer, saber qual é o seu horário mais produtivo e se planejar muito bem.

Você é daquelas que cai da cama cedo e traduz umas mil palavras antes de o estômago começar a roncar pedindo o café da manhã? Ótimo! Se você foi dormir à meia noite depois de andar pela casa gastando o seu repertório de canções de ninar até o bebê finalmente cair no sono e logo acordou às três da manhã para dar de mamar outra vez, aproveite a insônia para trabalhar umas duas horinhas assim que o bebê voltar à dormir. Desse jeito, você começa o dia mais cedo e vai adaptando o horário de trabalho com a rotina do pequerrucho.

É notívaga? Maravilha! Cochile durante pelo menos uma hora sempre que o seu bebê dormir depois de estar bem alimentado e de fralda limpinha. A noite será toda sua para batucar no teclado à vontade.

Quando emperrar naquela expressão chata, que nem o dicionário ajuda a traduzir naturalmente, tire uns quinze minutos para estender um cobertor no chão da sala e colocar o bebê de barriga para baixo, assim ele exercita os bracinhos e as perninhas e aprende a levantar a cabeça, treinando para logo começar a engatinhar. Enquanto se diverte vendo o bebê desenvolvendo as suas habilidades motoras, a mente da mamãe começa a trabalhar passivamente. Diversos estudos apontam que o cérebro funciona melhor quando precisa encontrar uma solução se você deixa de pensar no problema e executar uma outra tarefa (tomar banho, cozinhar, lavar a louça, lavar a roupa, etc.)

Use os minutos que passar amamentando ou apertando a bombinha tira-leite para ler os documentos que está se preparando para traduzir, fazendo uma interpretação preliminar ao passar os olhos pelo texto original e improvisar em voz alta a tradução do que está lendo, técnica também conhecida como “sight translation”.

A propósito, muita gente acaba adotando algum software de voz para ditar traduções para o computador, já que as suas mãos vão estar ocupadas demais. Confesso que essa opção não funciona para mim, já que o meu cérebro se comunica melhor com os meus dedos do que com a minha boca, então prefiro mesmo digitar a ditar.

Não importa a técnica que funcionar para você. Assim que conseguir reservar um tempinho para o trabalho, concentre-se ao máximo e aproveite a sua produtividade sem culpa antes de voltar para os deveres de supermãe.

O seu bebê e os “bebezões” – Assim como nenhum bebê é igual ao outro, cada tradutor é único e tem as suas peculiaridades. Uma ou outra dessas dicas poderá funcionar, outras você vai descobrindo por conta própria. Mesmo assim, lembre-se de que você é uma só e que, a partir do momento em que se torna mãe, essa é a sua profissão principal.

Sim, é difícil atender às necessidades do seu bebê e de todos os seus outros “filhos” ao mesmo tempo, mas cliente bom entende, já passou por isso e, se gosta mesmo do seu trabalho e valoriza a relação profissional de anos, não vai simplesmente virar-lhe as costas.

Às vezes, até os clientes mais rígidos amolecem assim que você manda um aviso, com meses de antecedência, de que vai entrar em licença maternidade. Aposto que eles, tanto mulheres como homens, vão encher você de perguntas sobre como está passando, se já escolheu o nome do bebê, para quando está previsto o nascimento e se você promete que vai mandar fotos assim que o bebê nascer.

Já outros clientes não tem a menor empatia mesmo… Nesses casos, a melhor coisa é ser bem realista, trazer o cliente de volta para terra firme e insistir que não, não dá para traduzir cinco mil palavras de um projeto super-hiper-ultra técnico para entrega até o fim do expediente.

Se o cliente não aceitou o “não” como resposta depois de você lembrá-lo que está de licença maternidade, explicar que deu à luz há três dias e ainda não está em condições de voltar a trabalhar no horário comercial, o negócio mesmo é apelar.

Diga para o cliente que você precisa se deitar e elevar os pés para aliviar o inchaço. Não funcionou? Parta para a próxima fase: explique que não pode se sentar direito durante horas a fio porque a parte inferior da barriga ainda dói por causa do útero que está desinchando e tentando voltar ao tamanho normal depois de nove meses em livre expansão.

Não foi suficiente? Pergunte se o cliente –principalmente se for a cliente– sabia que depois do parto a mulher sangra durante até seis semanas e ainda é muito incômodo sentar para trabalhar. Principalmente se você estiver usando fralda geriátrica durante a primeira semana…

Na maioria dos casos, quando você é levada a tal extremo, essa imagem tão gráfica ajuda a colocar tudo sob perspectiva e os clientes param e pensam: “Caramba, a minha tradutora acabou de ter um bebê e eu estou aqui, pedindo o que já era praticamente impossível sob condições normais.”

Das duas, uma: ou você descobre que o projeto não era tão urgente assim e consegue negociar uma data de entrega de acordo com a sua realidade ou, então, o cliente pergunta se tem algum colega em quem confie para cuidar desse documento.

Arma secreta – Quando você estiver pronta para fazer a transição de licença maternidade para o trabalho em meio período, seja três dias ou três meses após o parto, sempre é bom ter uma “arma secreta” para ajudar você a se concentrar no seu serviço.

No meu caso, a carta que eu tenho na manga é o maridão, que é um pai nota dez: troca fralda, dá mamadeira, coloca o bebê para balançar na cadeirinha ou de barriga para baixo para se exercitar. A sua arma secreta pode ser os seus pais, sogros, irmãos, cunhados, amigos…

Receber apoio é fundamental e todos saem ganhando: você começa a se organizar e a sua companhia aproveita algumas horas cuidando do bebê. O pequenino também leva muita vantagem nessa, já que interagir com pessoas diferentes ajuda o seu cérebro em desenvolvimento a estudar expressões faciais diferentes, identificar outras vozes e memorizar as características daquelas pessoas que serão tão importantes na vidinha dele.

Acredite, conciliar as mil coisas que você precisa fazer durante o dia é possível. Programe-se e tenha como o seu fiel escudeiro um bom sistema para se organizar, seja a boa e velha agenda de papel ou o calendário do Google. O segredo é não dar um passo maior do que a perna e ser honesta consigo mesma.

Pensando em todos esses prós e contras, todo esse sobe e desce, se eu tivesse que fazer tudo de novo eu não mudaria uma vírgula sequer.

* Rafa Lombardino nasceu em Santos/SP em 1980 e se mudou para San Diego em 2002, onde mora com o marido e os filhos. Formou-se no ensino médio técnico em 1997 com um certificado profissional em Processamento da Dados e concluiu os estudos universitários em 2002, formando-se em Jornalismo. Começou a trabalhar como tradutora em 1997 e hoje é presidente da Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais criada na Califórnia em 2004, que virou corporação em 2009. Foi aprovada no exame de tradução do inglês para o português da Associação Americana de Tradutores (ATA) em 2007 e, no ano seguinte, obteve o certificado profissional do curso de extensão em tradução do espanhol para o inglês oferecido pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD Extension), onde atualmente dá aulas e faz palestras sobre o papel da tecnologia na tradução. Rafa também escreve sobre tradução literária no blog bilíngue Literary News / Notícias Literárias.

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