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O que tradutores e chaveiros têm em comum?

Outro dia estava folheando uma revista Seleções antiga e me deparei com o texto abaixo. Acho que poucas vezes me identifiquei tanto com um artigo de revista! Isso significa duas coisas: tradutores e chaveiros têm mais em comum do que imaginamos. E nada do que sofremos profissionalmente é privilégio dos tradutores. Divirtam-se [minha tradução em vermelho]!

13 coisas que seu chaveiro não vai lhe dizer

1. Não peça fiado, ninguém faz caridade! As pessoas cansam de levar calote de gente que pede para pagar depois… Não interessa se está tarde e você não foi ao banco.

Traduzindo: tradutor não tem culpa se a agência não recebeu do cliente final.

2. Quando alguém liga para um chaveiro às 2h da manhã porque ficou trancado do lado de fora do carro em frente a um bar, pode ter certeza que o serviço será cobrado em triplo. Afinal, você não deveria nem estar dirigindo alcoolizado!

Traduzindo: taxa de urgência, sim ou certeza?

3. Nada supera uma tranca bem instalada. Mas mesmo a melhor tranca do mundo não impede roubos se você a esquecer aberta.

Traduzindo: tudo pode acontecer com um PDF. 

4. Se houver janela na porta ou junto a ela, ferrolhos não ajudam muito. Basta quebrar o vidro, enfiar a mão e girá-los. Tranque a porta ao deitar e tire a chave da fechadura!

Traduzindo: se o texto foi jogado no Google Translator, revisões não ajudam muito.

5. Divórcio e fechaduras são um desafio. A ex-mulher liga e diz que ficou trancada do lado de fora; vai o chaveiro, abre a porta e traca a fechadura. Depois o marido liga com o mesmo pedido. O chaveiro finge que não sabe de nada e faz o mesmo serviço de novo.

Traduzindo: 100% match!

6. Não é só a concessionária que pode tirar cópias das chaves do carro. Chaveiros especializados cobram bem mais barato. Mas depende do modelo.

Traduzindo: os preços “vareiam”.

7. A faxineira ou diarista precisa de chave? Tenha duas fechaduras: uma simples e outra com segredo mais complexo. Dê apenas a chave da primeira a quem não conhece bem. Use a segunda nos outros dias da semana.

Traduzindo: dividir trabalho, só se confiar muito no seu colega.

8. Tente abrir a porta. Já visitei casas que já estavam abertas. (Mesmo assim, será cobrado a visita.)

Traduzindo: “dar só uma revisadinha” tem seu preço.

9. Se a chave não girar na fechadura, experimente WD-40 ou spray de silicone. Às vezes os pinos ficam agarrados e isso pode resolver.

Traduzindo: às vezes o arquivo traduzido não abre, mas nem precisa importunar o tradutor. Basta fuçar umas configurações aqui e ali.

10. Se ficou trancado do lado de fora, ligue para um chaveiro só. Nunca ligue para vários, pois poderá haver concorrentes no mesmo local. E poderá acabar sem nenhum chaveiro para o serviço.

Traduzindo: ou terá que pagar a todos eles. 

11. Não peça desconto em serviços baratos! Nos serviços mais complexos pode ser.

Traduzindo (ou melhor, adaptando): não peça desconto em serviços baratos, muito menos nos serviços mais complexos.

12. Não ache que o serviço é fácil e qualquer curioso pode resolver o problema. Eles detestam quando tentam resolver sozinhos e ainda dão palpite.

Traduzindo: não ache que o serviço é fácil e qualquer primo-da-tia-da-amiga-da-irmã-que-fala-inglês-porque-foi-pra-Disney pode fazer.

13. Teste bem a cópia da sua chave antes de colocar a culpa neles. Muitas vezes, o problema está no segredo. Usar a força bruta também não adianta.

Traduzindo: às vezes, é o original que é ruim mesmo. Xingar o tradutor não adianta.

Tradutora e, agora, mãe. Não necessariamente nessa ordem.

Oi, pessoal! Gostaria de contar para vocês como foi o primeiro mês na minha vida de mãe, e também falar sobre as minhas expectativas para o futuro próximo.

Como está sendo?

As primeiras semanas depois que o bebê nasceu foram muito intensas, tanto física quanto psicologicamente. Além da recuperação do parto (o meu teve que ser cesárea, apesar de eu sempre ter querido o normal), há também toda a questão hormonal, que nos faz passar da euforia ao desânimo em poucos segundos.

Nesse período, eu só conseguia pensar em dar de mamar, trocar fraldas e tentar dormir quando desse. Era meu quarto – quarto do bebê – banheiro. A cozinha eu visitava de vez em quando. A sensação é de que eu estava num mundo paralelo e que não existia mais nada além disso. Lembro de, na primeira ou segunda semana, ter levado o bebê para vacinar e, uma mãe, com um bebê do mesmo tempo que o meu, estava ao celular marcando depilação. Eu só pude pensar: “Depilação, já? Mal consigo pentear o cabelo”!

Claro que essas coisas variam de mãe para mãe. No meu caso, foi um tanto difícil voltar ao eixo, talvez por ser mãe de primeira viagem. Hoje meu bebê tem um mês e meio e somente há pouco tempo passei a conseguir ficar mais acordada e retomar algumas atividades.

Mas nada de rotina ainda! Por enquanto, o bebê ainda segue um ritmo bem errático, então um dia nunca é igual ao outro. Parece que será assim até pelo menos os dois meses. No final da gravidez, li e reli mil vezes o “Nana, nenê“, na esperança de fazer tudo certinho desde o começo. Mas aprendi que, por ora, o melhor é seguir o ritmo do bebê e tentar discipliná-lo no que der, porque em tudo ainda não dá.

Como será daqui para frente?

Há mães tradutoras que logo no primeiro mês já pegam seus primeiros trabalhos. Eu, desde o começo, planejei e me propus a me dedicar exclusivamente ao bebê por três meses. Só não tenho certeza se precisarei de mais tempo depois disso.

Sei que é preciso manter os clientes e, claro, a renda da casa, mas tudo é questão de prioridade. Acredito que dê para voltar aos pouquinhos, retomando com os clientes que oferecem trabalhos mais fáceis e prazos razoáveis. A carga mais pesada fica para depois.

Por enquanto, estou tentando não me preocupar muito com o trabalho e curtir ao máximo essa aventura com o filhote. Afinal, o tempo passa rápido. Meu pequeno já perdeu algumas roupinhas e já não tem mais cara de recém-nascidinho. Está um mocinho robusto e comilão. Amo a tradução, porém sei que trabalhos e clientes vêm e vão. Mas os momentos preciosos com o filho são únicos e preciso aproveitar, porque esses sim não voltam mais!

Está chegando a (boa) hora!

Está chegando a hora: meu filhote deve nascer até o final desta semana!

Antes de mais nada, quero agradecer por todas as manifestações de carinho comigo e com ele durante a gestação. Um dos pontos altos da gravidez foi ver como uma nova vida é celebrada com alegria por todos!

Bem, vocês acompanharam um pouco da minha jornada por organização, rumo a esse momento tão esperado. Foram muitas mudanças e novidades ao longo desses meses, e também desde a última vez que escrevi sobre isso. Mas, mesmo com alguns tropeços, deu tudo certo até agora. Da próxima vez que falar sobre o assunto, será para contar a vocês se as coisas também se encaixaram na rotina com o bebê. Torçam por mim! 🙂

O último projetinho e a última fatura do ano foram enviados na semana retrasada. Depois disso, tratei  de desacelerar por completo e tentar descansar. Fui diminuindo o ritmo do trabalho aos poucos no último mês, falando com clientes e fazendo acertos para quando eu voltar.

A preocupação com a organização também se estendeu aos cuidados com o bebê. Estou lendo o livro Nana, nenê para, desde o início, criar uma rotina tranquila com o filhote e facilitar nossa vida lá na frente. Além, claro, de todas as leituras, vídeos e conversas durante esses 9 meses. Pesquisar tudo com cuidado e detalhadamente (juntamente com as coisas que coloquei em prática) me ajudou a ficar mais calma e confiante de que posso me organizar bem depois que o bebê nascer.

E a organização também chegou ao AP, claro! Andei preparando artigos novinhos para serem publicados na minha ausência. Estão todos programados para saírem periodicamente, assim vocês não ficam na mão. Quem quiser me escrever nesse período, fique à vontade. Pode ser que eu demore a responder, mas tentarei não deixar ninguém sem resposta.

Agora, deixa eu ir lá aproveitar os últimos dias de descanso! Até breve!

Perfil financeiro do tradutor

Gente, que correria louca!

Escrevi aqui em agosto… Setembro foi uma loucura com trabalhos e o compromisso de dar uma palestra na Conferência do ProZ, no Rio de Janeiro. O Heitor escreveu a respeito aqui, mas ele não assistiu à minha palestra.

Outubro e novembro foram recheados de muito trabalho e outras atribulações familiares e pessoais. Ufa! Ficaram cansados? Mas a Lorena pediu um texto e não se deve negar um agrado a uma futura mamãe, né?

Serei breve, porque a tia Dédi está aqui me olhando feio. Não conhece a Dédi Laine, a tia má de todo tradutor? Vou falar bem rapidinho da experiência de ter dado a palestra no ProZ e retomar um pouquinho de onde parei no texto anterior.

Tive a felicidade de dar a palestra no ProZ, o tema foi sobre A Vida Financeira do Tradutor. Tinha bastante gente na plateia, mesmo com uma programação simultânea sempre super interessante. Obrigada aos que compareceram! A apresentação está na página da Conferência no ProZ, mas acho que restrita a quem compareceu ao evento. Pretendo disponibilizá-la em algum outro local – “pra galera” -, não prometo uma data, mas está na listinha!

Agora vou tocar num ponto que deixei “pendurado” no último texto que escrevi aqui e que toquei de leve na palestra: a questão do perfil financeiro. É uma prática implementada pela Anbima (veja mais detalhes aqui). Em todos os bancos há um questionário de perfil de investimentos, com perguntas sobre sua idade, valor aproximado do investimento, o prazo que pretende deixar esse valor investido, etc. Tudo certo, essa análise é muito importante. É claro que ninguém quer perder dinheiro nessa vida, sabemos o quanto nos custa ganhá-lo! Mas temos que nos lembrar que o risco pode se diluir com o tempo e que o tempo é nosso amigão quando se trata de investimentos. Quem aqui ainda não foi lá brincar com os simuladores que postei no texto anterior?

Pois bem, sou partidária do perfil flexível. Não estou rasgando dinheiro, mas dependendo do prazo e do possível retorno, aceito mais risco. Por exemplo, meu filho tem lá uma carteirinha de ações. Em 2010 tirei todo o dinheirinho que a vovó dá (aniversário, Natal, dia das Crianças, etc) que estava na caderneta de poupança e coloquei quase tudo em ações. Ele tem uma merrequinha em Título do Tesouro. Por que eu vou prender o dinheiro do meu filho, que é pra usar no mínimo daqui a 15 anos, em um investimento que mal acompanha a inflação? A carteira dele no momento está até negativa, mas não me preocupa. A minha também está, porque lá tem o dinheiro para daqui a 15-20 anos.

Você não precisa investir direto em ações se não quiser ou se não tiver o perfil. Mas procure um fundo que tenha um pouco de ações, com gestão ativa, para colocar um pouco de risco na sua carteira – sempre dependendo do prazo, claro! Não vá arriscar o dinheiro da reserva financeira, nem tentar dobrar na bolsa aquela grana já comprometida com alguma aquisição, hein? Por favor!!! 🙂

Já aquela parcela dos investimentos que você já vai separando para a sua aposentadoria pode ser analisada e colocada para trabalhar de forma mais agressiva, para gerar mais lucros.

Acabou aquela época em que dava para “ganhar” 15% ao ano deixando o dinheiro sem risco, num fundinho DI qualquer. Foi-se. Zé fini. Mais do que nunca, chegou a hora de batalhar pelo dinheiro – não só o que ganhamos, mas também aquele que investimos. É necessário conhecer e estudar para tomar boas decisões. E perder o medo e deixar de lado a acomodação – e até procurar gestores independentes para trabalhar pelo seu dinheiro… Quem você acha que vai correr mais atrás de resultados: um bancão daqueles já posicionados no mercado, onde você é menos que um grão de areia, ou os gestores menores e independentes que precisam conquistar e provar aos clientes que eles podem apresentar resultados melhores?

E vou parando por aqui, a tia Dédi acabou de estalar o chicote. Até!

É possível conciliar o seu maior projeto de vida, os filhos, com o trabalho de tradução?

Rafa Lombardino*

“Menina, o que você já tá fazendo na frente do computador?!” ou “Por que você não respondeu o e-mail que eu enviei meia hora atrás?”

Essas foram as duas reações completamente diferentes que alguns dos meus clientes tiveram quando voltei a trabalhar poucos dias depois de os meus filhos nascerem. O plano original era tirar pelo menos 45 dias de licença maternidade e voltar à ativa aos poucos, em meio período, para aprender a conciliar o papel de mãe e o papel de tradutora. Não deu nem um mês…

A Marissa nasceu em setembro de 2008 e o Lorenzo em agosto de 2012. Ambos partos naturais na banheira de uma clínica-maternidade com o auxílio de uma parteira. Nas duas ocasiões, cinco horas mais tarde eu tive alta e já estava de volta em casa para dar início à recuperação, aproveitar o carinho da família e dos amigos e me apaixonar pelos meus bebês.

Mas nem tudo é um mar de rosas. Criar um pingo de gente no seu ventre exige muita energia durante as quarenta semanas (ou mais!) de gestação. Apesar do alívio imediato depois que o bebê finalmente está nos seus braços, o seu corpo ainda leva tempo para voltar ao normal. Você reaprende a andar, reaprende a se sentar, reaprende a fazer tudo que levou nove meses aprendendo a fazer diferente para acomodar a barriga crescente, os pés inchados e a lombar dolorida.

E a mente? Ah… a mente mente! Você acaba trocando o dia pela noite, dependendo do ritmo de vida imposto pelo seu bebê. Seus pensamentos até parecem bem claros na sua cabeça, mas o cansaço e a falta de sono vão acabar interferindo no seu raciocínio. Pode apostar!

Tô ficando doida? – Você abre a boca para dizer alguma coisa e já não consegue completar frases, tentando economizar energia e torcendo para que todos ao seu redor consigam ler os seus pensamentos.

Você fica frustrada quando tudo cai da sua mão, menos o bebê e o precioso leitinho. Falando nisso, se quiser aproveitar a conveniência de ter mamadeiras prontas na geladeira, você passará pelo menos umas três horas apertando a bombinha tira-leite em quatro ou cinco sessões diárias. Dica: chá de feno grego funciona se o seu objetivo for se tornar uma vaca leiteira e produzir 1,250 L de leite por dia.

Você ouve vozes! No meu caso, o Guilherme Arantes cantou no meu ouvido um dia inteiro… Não, o rádio não estava ligado e não ouço uma música dele há muito tempo, mas o cara teimou de vir cantar aqui em casa. Talvez cérebro de mãe de recém-nascido funcione em uma frequência diferente e você acabe captando essas ondas misteriosas…

Apesar de todos esses contratempos, ao contrário do que muitos pensam, cuidar de um bebê não é algo assim tão complicado. Bom, complicado mesmo é correr atrás de uma menina de quatro anos, cheia de energia, que vai para o jardim da infância meio-período às segundas, quartas e sextas, faz ginástica olímpica às terças e quintas, balé às sextas e, mesmo assim, é movida a pilhas que duram mais do que as do coelhinho da Duracell.

Criança de quatro anos já fala e a resposta para tudo é: “Não!” Tem hora para comer, tomar banho, fazer lição de casa e de ir para cama. Mas criança de quatro anos também ajuda, participa, pega paninho para limpar quando o bebê dá golfadas em cima de você e dá aquele abraço gostoso que recarrega a suas energias.

Sim, bebês dependem de você para tudo, mas logo a gente se acostuma com o ciclo: dar de mamar, trocar fralda e colocar para dormir. Se a sua recuperação também está progredindo sem sobressaltos, nas horas vagas já dá para planejar a volta ao batente.

Aproveitando as preciosas horas do dia – Sou daquelas que não consegue ficar muito tempo parada. Preciso sempre fazer algo de produtivo, então poucos dias depois de dar à luz bateu aquela vontade de ouvir o barulho do teclado de novo. Porém, levando em conta todo esse vai-e-vem físico, psicológico e emocional, é preciso acima de tudo ser honesta consigo mesma e se perguntar: “Estou mesmo preparada?”

A última coisa que você quer é voltar a trabalhar e meter os pés pelas mãos, cometer erros imperdoáveis, não respeitar o prazo de entrega e depois dizer que a culpa é das noites mal dormidas. Você precisa se conhecer, saber qual é o seu horário mais produtivo e se planejar muito bem.

Você é daquelas que cai da cama cedo e traduz umas mil palavras antes de o estômago começar a roncar pedindo o café da manhã? Ótimo! Se você foi dormir à meia noite depois de andar pela casa gastando o seu repertório de canções de ninar até o bebê finalmente cair no sono e logo acordou às três da manhã para dar de mamar outra vez, aproveite a insônia para trabalhar umas duas horinhas assim que o bebê voltar à dormir. Desse jeito, você começa o dia mais cedo e vai adaptando o horário de trabalho com a rotina do pequerrucho.

É notívaga? Maravilha! Cochile durante pelo menos uma hora sempre que o seu bebê dormir depois de estar bem alimentado e de fralda limpinha. A noite será toda sua para batucar no teclado à vontade.

Quando emperrar naquela expressão chata, que nem o dicionário ajuda a traduzir naturalmente, tire uns quinze minutos para estender um cobertor no chão da sala e colocar o bebê de barriga para baixo, assim ele exercita os bracinhos e as perninhas e aprende a levantar a cabeça, treinando para logo começar a engatinhar. Enquanto se diverte vendo o bebê desenvolvendo as suas habilidades motoras, a mente da mamãe começa a trabalhar passivamente. Diversos estudos apontam que o cérebro funciona melhor quando precisa encontrar uma solução se você deixa de pensar no problema e executar uma outra tarefa (tomar banho, cozinhar, lavar a louça, lavar a roupa, etc.)

Use os minutos que passar amamentando ou apertando a bombinha tira-leite para ler os documentos que está se preparando para traduzir, fazendo uma interpretação preliminar ao passar os olhos pelo texto original e improvisar em voz alta a tradução do que está lendo, técnica também conhecida como “sight translation”.

A propósito, muita gente acaba adotando algum software de voz para ditar traduções para o computador, já que as suas mãos vão estar ocupadas demais. Confesso que essa opção não funciona para mim, já que o meu cérebro se comunica melhor com os meus dedos do que com a minha boca, então prefiro mesmo digitar a ditar.

Não importa a técnica que funcionar para você. Assim que conseguir reservar um tempinho para o trabalho, concentre-se ao máximo e aproveite a sua produtividade sem culpa antes de voltar para os deveres de supermãe.

O seu bebê e os “bebezões” – Assim como nenhum bebê é igual ao outro, cada tradutor é único e tem as suas peculiaridades. Uma ou outra dessas dicas poderá funcionar, outras você vai descobrindo por conta própria. Mesmo assim, lembre-se de que você é uma só e que, a partir do momento em que se torna mãe, essa é a sua profissão principal.

Sim, é difícil atender às necessidades do seu bebê e de todos os seus outros “filhos” ao mesmo tempo, mas cliente bom entende, já passou por isso e, se gosta mesmo do seu trabalho e valoriza a relação profissional de anos, não vai simplesmente virar-lhe as costas.

Às vezes, até os clientes mais rígidos amolecem assim que você manda um aviso, com meses de antecedência, de que vai entrar em licença maternidade. Aposto que eles, tanto mulheres como homens, vão encher você de perguntas sobre como está passando, se já escolheu o nome do bebê, para quando está previsto o nascimento e se você promete que vai mandar fotos assim que o bebê nascer.

Já outros clientes não tem a menor empatia mesmo… Nesses casos, a melhor coisa é ser bem realista, trazer o cliente de volta para terra firme e insistir que não, não dá para traduzir cinco mil palavras de um projeto super-hiper-ultra técnico para entrega até o fim do expediente.

Se o cliente não aceitou o “não” como resposta depois de você lembrá-lo que está de licença maternidade, explicar que deu à luz há três dias e ainda não está em condições de voltar a trabalhar no horário comercial, o negócio mesmo é apelar.

Diga para o cliente que você precisa se deitar e elevar os pés para aliviar o inchaço. Não funcionou? Parta para a próxima fase: explique que não pode se sentar direito durante horas a fio porque a parte inferior da barriga ainda dói por causa do útero que está desinchando e tentando voltar ao tamanho normal depois de nove meses em livre expansão.

Não foi suficiente? Pergunte se o cliente –principalmente se for a cliente– sabia que depois do parto a mulher sangra durante até seis semanas e ainda é muito incômodo sentar para trabalhar. Principalmente se você estiver usando fralda geriátrica durante a primeira semana…

Na maioria dos casos, quando você é levada a tal extremo, essa imagem tão gráfica ajuda a colocar tudo sob perspectiva e os clientes param e pensam: “Caramba, a minha tradutora acabou de ter um bebê e eu estou aqui, pedindo o que já era praticamente impossível sob condições normais.”

Das duas, uma: ou você descobre que o projeto não era tão urgente assim e consegue negociar uma data de entrega de acordo com a sua realidade ou, então, o cliente pergunta se tem algum colega em quem confie para cuidar desse documento.

Arma secreta – Quando você estiver pronta para fazer a transição de licença maternidade para o trabalho em meio período, seja três dias ou três meses após o parto, sempre é bom ter uma “arma secreta” para ajudar você a se concentrar no seu serviço.

No meu caso, a carta que eu tenho na manga é o maridão, que é um pai nota dez: troca fralda, dá mamadeira, coloca o bebê para balançar na cadeirinha ou de barriga para baixo para se exercitar. A sua arma secreta pode ser os seus pais, sogros, irmãos, cunhados, amigos…

Receber apoio é fundamental e todos saem ganhando: você começa a se organizar e a sua companhia aproveita algumas horas cuidando do bebê. O pequenino também leva muita vantagem nessa, já que interagir com pessoas diferentes ajuda o seu cérebro em desenvolvimento a estudar expressões faciais diferentes, identificar outras vozes e memorizar as características daquelas pessoas que serão tão importantes na vidinha dele.

Acredite, conciliar as mil coisas que você precisa fazer durante o dia é possível. Programe-se e tenha como o seu fiel escudeiro um bom sistema para se organizar, seja a boa e velha agenda de papel ou o calendário do Google. O segredo é não dar um passo maior do que a perna e ser honesta consigo mesma.

Pensando em todos esses prós e contras, todo esse sobe e desce, se eu tivesse que fazer tudo de novo eu não mudaria uma vírgula sequer.

* Rafa Lombardino nasceu em Santos/SP em 1980 e se mudou para San Diego em 2002, onde mora com o marido e os filhos. Formou-se no ensino médio técnico em 1997 com um certificado profissional em Processamento da Dados e concluiu os estudos universitários em 2002, formando-se em Jornalismo. Começou a trabalhar como tradutora em 1997 e hoje é presidente da Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais criada na Califórnia em 2004, que virou corporação em 2009. Foi aprovada no exame de tradução do inglês para o português da Associação Americana de Tradutores (ATA) em 2007 e, no ano seguinte, obteve o certificado profissional do curso de extensão em tradução do espanhol para o inglês oferecido pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD Extension), onde atualmente dá aulas e faz palestras sobre o papel da tecnologia na tradução. Rafa também escreve sobre tradução literária no blog bilíngue Literary News / Notícias Literárias.

Aonde nossas pesquisas estão nos levando?

Hoje gostaria de comentar sobre um assunto que nos diz respeito tanto pessoal quanto profissionalmente. É apenas uma breve reflexão que faço e compartilho com vocês. E quero que fiquem à vontade para discutir o tema nos comentários, ok?

Bem, todos nós fazemos pesquisas na internet, sejamos tradutores ou não. No ano passado, vi no TED a pequena apresentação a seguir, de Eli Periser (lembrei dela porque, esses dias, uma amiga minha colocou no Facebook o link para uma entrevista com Periser):

A época em que vi sua palestra no TED, no ano passado, coincidiu com um momento em que estava fazendo muitas pesquisas pessoais sobre assuntos bastante específicos. Eu estava contrariada por só conseguir encontrar os mesmos dados e opiniões sobre assuntos intrinsecamente controversos (ou seja, onde estava a controvérsia?) e sobre os quais tinha conseguido informações importantes que queria confirmar, mas nenhuma pesquisa me mostrava.

No entanto, como estava envolvida com esses assuntos mais pessoais, não parei para pensar em como os resultados de pesquisas, não somente no Google como em outros sites, fazem diferença também para nosso trabalho como tradutores. Afinal (e especialmente para quem trabalha com textos de humanas), as escolhas lexicais são parte fundamental de nosso trabalho, mas algo para o qual nem sempre damos a devida atenção. Porque, claro, não é a toda hora que pensamos o que guia essas nossas escolhas. Por que escolhi a palavra X e não Y? Quanto menos um termo for técnico ou um jargão de determinada área, mais somos responsáveis (sozinhos) por essas decisões.

Qual terá sido o caminho que percorremos para chegar até elas? O quanto os resultados de nossas pesquisas no Google, links do Facebook ou reportagens da grande mídia influenciam o tom da nossa tradução? Percebem como isso envolve uma série de questões? Estamos falando desde o que é considerado ou não politicamente correto, até os assuntos que estão em voga no mundo acadêmico, até as agendas políticas e ideológicas. Tudo o que consumimos diariamente, de certo modo, fica internalizado, e nem sempre filtramos as coisas de modo refletido, deliberado.

Cada vez mais chego à conclusão de que precisamos sair da zona de conforto e começar a fazer pesquisas de verdade. Hoje, as informações chegam até nós e o máximo que fazemos é clicar ou não em um link. Por que não buscar fontes de primeira mão, analisar dados com calma, questionar a veracidade das estatísticas cuspidas, conversar com pessoas que entendem mais sobre o assunto do que nós? Tenho certeza de que se começarmos a fazer isso no âmbito pessoal, muitos dos métodos que adotamos em nossas pesquisas profissionais também mudarão para melhor.

E vocês, o que pensam de tudo isso? Como nós, tradutores, podemos fugir dessas armadilhas?

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