Dois assets de primeira necessidade para um tradutor

Observação 1: se você for do tipo velho(a) rabugento(a), teimoso(a) e apegado(a) às suas verdades, não recomendo a leitura deste artigo, pois ele é direcionado apenas às pessoas à frente do seu tempo e dispostas a melhorar suas vidas através da mudança de alguns conceitos. 😀

Observação 2: toda vez que desistir de investir nos dois ou em um dos assets aqui sugeridos, recomendo que volte a ler o texto até decidir tomar a atitude certa e investir. 😛

Quando a gente tenta colocar ordem na vida, a primeira palavra que vem à nossa cabeça é a f@3$d@%&*p@ da “organização”. Acho que já disse que estou ficando traumatizada com essa palavra. Quantas vezes você olhou para a bagunça inevitável ao seu redor (tá, alguma bagunça dá pra evitar, mas a gente não tem tempo, a gente pensa demais pra ter que ficar pensando em arrumação) e pensou: “Meu Deus, preciso dar um jeito nisso, onde já se viu? Um profissional lindo, poderoso, eficiente como eu, com uma zona dessas à minha volta? Se o cliente visse isso aqui, jamais confiaria na minha capacidade de organização para um projeto grande!”. Quantas?

E a bagunça não é só na sua mesa de trabalho. A essa altura, você provavelmente já se esqueceu de pagar alguma conta, falta leite na sua geladeira, a ração do gato já está sendo fracionada há uma semana, você precisa usar a mesma camiseta que vem usando há três dias porque ainda não teve tempo de tirar a roupa da máquina pra pendurar no varal, sua mãe manda o FBI te procurar porque você não telefonou pra confirmar que estava vivo depois das últimas 897 ligações. Melhor parar por aqui porque se algum de vocês tem tendências a problemas de ansiedade, deve estar prestes a ter um surto.

Só que quando você tem tempo pra perceber a coisa toda, você está normalmente exausto depois que entregou um projeto que consumiu até a última gota de glicose do seu cérebro. Está naquele estágio que eu chamo de pré-lobotomia, em que a única coisa que conseguimos fazer é ver algo bem idiota na TV e não pensar, não se movimentar, no máximo, comer. Uma coisa bem calórica, de preferência, porque merecemos, porque estamos exaustos (na verdade é o cérebro querendo que você se ache merecedor porque ele precisa de glicose pra não pifar de vez). Nessa fase, nem dormir a gente consegue! Colega, a fase de surtar e sair passando roupa ou lavando banheiro já passou faz tempo, aquilo foi um ensaio de loucura quando você estava em pânico achando que não ia dar tempo de entregar o projeto. Agora, sai pra lá com essa ideia de fazer compra, deixa pra amanhã, quando meu cérebro voltar a emitir alguma onda.

Depois que você volta ao mundo dos vivos, já tem outro projeto pra entregar, tem até algum prazo, então decide, à la Roberto, que “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”. Acontece que entra outro projetinho (ah, moleza, entrego logo e me livro), mais um, outro, outro maior com prazo que dá pra encaixar com o outro. Quando você vê, está na mesma loucura que estava no projeto anterior para a próxima semana, ou mais. Aí começa tudo lindinho arrumando a mesa, limpando tudo bonitinho, afinal, novo round. Joga tudo dentro de uma caixa – que provavelmente nunca mais será aberta. Se algum dia, por acaso, tiver que abrir a tal caixa, normalmente porque perdeu algo importante, como o passaporte, vai encontrar dois cartuchos novinhos pra impressora e vai querer bater a cabeça na parede porque perdeu 3 horas pra ir até a Kalunga comprar os malditos cartuchos ou porque gastou o equivalente a uns quatro chopes só de frete pra comprar on-line. Em seguida, começa o festival de fast food. Imagina se no meio disso tudo vai sobrar tempo pra fazer comida. Vamos rezar pra mãe ter piedade e trazer umas comidas pra você congelar, né?

E isso vai se acumulando ao longo dos anos (devo ter umas 20 caixas aqui, tenho até medo do que pode haver lá dentro). Tenho uma amiga que tem uma tática incrível que passarei a adotar. Ela bota as coisas na caixa, se em três meses não abrir a caixa, joga fora sem olhar. Cara, isso é o que eu chamo de desprendimento! Preciso disso. Agora, somado a tudo isso que eu disse, imagina se você tem filho(s), bicho(s) de estimação, e uma casa duas vezes maior do que tem hoje. Multiplica o tanto de louça, o tanto de comida, o tanto de roupa que tem que lavar/passar, o tanto de bagunça. Multiplicou? Pois bem, senta, respira, tenta imaginar um campo florido, lindo, com pássaros cantando. Ou imagina uma praia bem gostosa, Trancoso… Passou? Então voltemos.

Então, principalmente para quem tem família, acho de fundamental importância considerar a contratação de uma empregada, secretária, faz-tudo do lar, não importa o nome que você dê à sua salvadora. Muitos vão dizer que não precisa, que vai se virando, que é uma despesa desnecessária. Bom, se na sua casa funciona sem, feliz de você. Aqui não funciona. Somos dois tradutores e duas adolescentes (santas, em vista de muitos que conheço) e o dinheiro que gastávamos com diaristas e pedindo comida era pelo menos o dobro do que gastamos hoje mantendo uma empregada registrada que faz tudo (inclusive as compras). O tempo que perdíamos nos dedicando às tarefas domésticas, por mais que intercalado com outras atividades e de forma compartilhada entre todos, acabava somando para a desvantagem financeira.

Tá bom, se você mora sozinho ou se moram você e o cônjuge, talvez não precise de uma empregada diariamente. Eu, nesse caso, contrataria uma diarista umas duas vezes por semana. Ah, mas uma vez dá. Não, deixa de teimosia, não dá! Não se você pensar que ela vai limpar, lavar, passar, cozinhar e, eventualmente, fazer compras. Só pra dar jeito na roupa, por exemplo, precisa de dois dias, ou você acha que a mulher é mágica e lava/seca/passa tudo no mesmo dia? Bem, se ela estiver no verão em, vejamos… Brasília, pode até ser – se ficar o dia todo. Você pode combinar que um dia ela vem, lava, passa a da semana anterior e limpa, no outro só faz compras e cozinha para a semana.

A menos que a sua mãe ou a sua sogra (ou sei lá quem) faça tudo isso pra organizar sua vida de graça (em geral, isso nunca é de graça) ou que você more com seus pais/avós, vale a pena financeiramente. Você terá tudo em ordem (menos a sua mesa de trabalho), comida saudável, roupa limpa, armários organizados, gavetas arrumadas, cama cheirosa, banheiro limpinho, cozinha organizada. Isso não tem preço! E se você é do tipo que não sabe delegar, aprenda. Isso mesmo! Aprenda. Larga o osso e vai viver, criatura! Pare de querer controlar tudo porque você só vai ganhar cabelos brancos e rugas com isso. É lógico que alguns limites devem ser estabelecidos pra você também não perder o controle da sua vida, mas neurose, deixa pros malucos. Você é um tradutor, está no caminho certo para ter uma vida linda, cheia de conquistas e alegrias, precisa ter tempo pra curtir tudo isso (também pra se aperfeiçoar, aprender coisas novas, dormir, fazer sexo de qualidade, ir ao cinema, tomar vinho…).

Tenho certeza que os teimosos continuarão achando desnecessário. Eu levei quatro anos até ser convencida pelo meu persistente marido. Mas depois que decidi parar de lutar contra essa necessidade, minha vida mudou. Se hoje eu tenho tempo para dormir, em grande parte, devo isso à minha fiel escudeira. É claro que é difícil encontrar uma pessoa que faça as coisas do jeito que você quer. Acredite, nunca farão do jeito que você faria. Mas largue esse osso também, senão você nunca conseguirá arrumar alguém. Uma coisa que eu percebi é que eu não estava dando o devido valor às candidatas. Você tem que pagar o que vale. Faça uma conta de quantas horas você levaria nessas atividades (ou seja, quanto deixa de ganhar) e de quanto você gasta com pedindo comida ou comendo fora e veja quanto realmente vale esse asset. Pague o justo, registre para evitar problemas futuros e perda de tempo e dinheiro com advogados caso queiram “colocar você no pau” um dia, e não desista na primeira tentativa.

Se você realmente não quiser ou não conseguir encontrar alguém ideal, pelo menos considere comprar uma lava-louças – outro must have (eu tenho as duas, a lava-louças veio primeiro) para quem quer ter alguma qualidade de vida. Ah, não tenho espaço, meu apartamento é um ovo. Coloca na sala! Na cabeça! Mas não fique sem! Esse é outro asset em que eu jamais acreditei e que o santo persistente marido me convenceu que valia a pena. Se você é como qualquer humano, vai achar que é uma bobagem, porque você tem que passar na água a louça pra tirar o grosso. Vai achar que é frescura. Gente, não é! Sério!

Você passa a mesma água que passa em qualquer louça que vai deixar juntando na pia. Sim, aquela que não dá tempo de lavar sempre, que vai deixando a cozinha azeda. Bota lá e esquece, tira ela está seca! Ah, mas não lava panela! Lava sim! Mas mesmo que você não use pra isso (eu nunca usei), pensa comigo, o que dá mais trabalho ao arrumar a cozinha? São as coisas pequenas, aquele monte de talher dos infernos que você passa horas lavando, às vezes até mais de uma vez pra tirar toda a gordura. E depois enxugar tudo aquilo… Aí é que está a grande mágica da lava-louças, você coloca tudo lá e esquece. Sai tudo impecavelmente limpo e seco! As taças de vinho… Um espetáculo! Amo muito! Você deveria tentar. Té plus!

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2 responses to “Dois assets de primeira necessidade para um tradutor”

  1. Franco Urner says :

    Eu adoro seus textos, Adriana. Você parece ter espiões nas nossas vidas, fala como se estivesse ali na nossa sala e conhecesse nossa rotina intimamente. Sem contar que tem um senso de humor e uma leveza para falar que é realmente de admirar. Eu tinha dúvidas quanto à lava-louças, era tudo o que eu precisava, desta semana não passa. Um grande abraço, sou seu fã!

    • Lia Vieira Domingues says :

      Lava-louças! Um must!
      Eu também era incrédula, até que compramos. E olha que é uma enxutinha antiiiiiiiiiiiiiiiiiga, usadinha, mas não fico mais sem. O problema não está em panelas, mas talheres são coisa do demo!!! 😛

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