Tradução x Versão

Não sei se todos vocês conhecem a comunidade do Orkut chamada Tradutores/Intérpretes BR. Vale muito a pena entrar na comunidade, onde podem ser encontradas discussões sobre os mais variados aspectos da profissão. Dê uma passeada pelos tópicos do fórum ou use a ferramenta de pesquisa e você verá que não é exagero.

Um tópico de 2005 foi “ressuscitado” há pouco tempo e achei pertinente falar um pouco sobre o assunto aqui no blog. A questão tratada é Tradução x Versão. O tópico começou com um debate sobre preços e o significado do termo versão e depois resultou na questão talvez mais importante: o tradutor deve ou não fazer versões? Ou seja, passar um texto de sua língua materna para a língua estrangeira com a qual trabalha?

Na minha opinião, o ideal seria não fazer versões. No entanto, precisamos encarar a realidade da profissão e do mercado tradutório: muitas vezes, o iniciante é simplesmente obrigado a aceitar esse tipo de trabalho, ou corre o risco de ficar sem renda no final do mês. O que disse lá no tópico, repito aqui:

(…) faço versões, e muitas. (…) porque a grande maioria dos textos que minha empresa pega são para passar para o inglês. A grande vantagem é aprender. Fazer versão é uma escola e tanto, ainda mais que, no meu caso, há quem a revise depois e eu posso pedir um feedback ou o arquivo revisado. (…) Costumam lançar um olhar horrorizado quando digo que faço mais versões que traduções. Mas enfim, tudo depende da demanda e da sua necessidade. Se eu me negasse, estava sem emprego. Se a empresa se negasse, estava sem clientes. Já em trabalhos como freelancer, geralmente pego os acadêmicos, abstracts, nada muito fora da minha capacidade. (…) Acho que o sonho do novato é poder, um dia, escolher o que quer fazer. Eu espero deixar de fazer versões, mas sempre serei grata a elas.

Outras opiniões que achei interessantes e que seguem a mesma linha do meu pensamento são as da Kelli e da Marie, que assim como eu fazem parte da comunidade. Muitas outras pessoas também deixaram suas impressões sobre o assunto e vale a pena conferir os diferentes pontos de vista, é muito enriquecedor. A discussão completa está aqui. Um pouquinho da visão das duas destaco abaixo (os grifos são meus):

Kelli:

(…) Tem que comer, tem que pagar conta e não tem fluxo constante ou clientes fixos. Se o que aparece é versão (…) bom… é arregaçar as mangas e fazer o melhor possível, sempre.

(…) eu acho que depende do mercado. Fora do Brasil, realmente é uma prática muito incomum. Aqui, porém, a demanda por tradução do português para o inglês é imensa, e eu sinceramente duvido que existam tradutores nativos de inglês suficientes para darem conta.

Não acho que todos devam fazer versão. Demora horrores, é chato, paga mais mas compensa menos. Tudo isso é verdade. Mas é um exercício fantástico.

Marie:

(…) E faço mais versão também – principalmente porque meu nicho tem sido o acadêmico (…) Aliás, meu primeiro trabalho na área foi uma versão.

Sem autocrítica constante o barco do iniciante afunda! Por isso mesmo tenho um fluxo pequeno de trabalho, para manter meu barquinho são e salvo (…) iniciante não tem escolha (…) E falo “não” com a maior tranquilidade – já peguei textos escabrosos que em segundos já sabia que não dava para encarar.

As decisões profissionais nem sempre (ou melhor, quase nunca) são fáceis. Cabe ao tradutor ter bom-senso para saber o que pode ou não e o que deve ou não fazer. Isso exige constante auto-análise e uma boa dose de desconfiômetro. Repito o que disse no post sobre responsabilidade: é inteligente recusar um trabalho quando sabemos que não somos capacitados. Por outro lado, correr riscos pode ser interessante, desde que dentro de limites muito bem estabelecidos. Com equilíbrio e persistência, o iniciante consegue se aperfeiçoar sem queimar o filme no mercado.

E já que, como vimos, versão é assunto importante, amanhã começa a SÉRIE DE POSTS que mencionei aqui e que pode facilitar a vida dos novatos.

Não deixem de passar no blog para conferir!

 


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7 responses to “Tradução x Versão”

  1. isabel says :

    não entendi por que não fazer versoes. e se a pessoa gostar de escrever em inglês, qual o problema? nao entendi por que nao fazer versoes, por favor me explique melhor. obrigada, isabel.
    algumas vezes quando trabalho nao fica legal eu devolvo o dinheiro mas adoraria estudar mais e fazer versoes por que é o que eu gosto, adoro escrever em ingles.

    • Lorena Leandro says :

      Oi, Isabel!

      Obrigada pelo comentário, passe aqui amanhã que responderei em forma de post. Acho que pode ser interessante para muita gente.

      Abraços!

  2. Thays says :

    Tenho muito medo desses extremos que as pessoas parecem querer adotar como regra: não faço nunca ou faço e não ligo de não ser minha lingua materna.

    O que faço muito são abstracts de trabalhos acadêmicos. Se você voltar sua atenção a um ou dois parágrafos por um tempo maior – e cobro levando isso em consideração – pode fazer um trabalho bom, sim. Mas já me aconteceu de cliente ligar desesperado pedindo uma versão – sempre de “uma coisinha simples e boba” – pra ontem, pelo amor de Deus, pagamos o que você quiser.

    Então dou meu preço e digo que normalmente faço esse serviço com um revisor nativo, pelo qual cobro um adicional. Às vezes, o cliente diz que não quer o revisor pois o trabalho não precisa estar perfeito e às vezes simplesmente não há tempo para a revisão.

    A ética profissional às vezes é mais do que só ter responsabilidade com a qualidade da tradução. Às vezes, também consiste em atender o seu cliente, que precisa, de fato, de um trabalho que nenhuma outra pessoa pode fazer. Há tradutores com mais conhecimento? Claro. Ao alcance do seu cliente naquele momento? Possivelmente, não. Então é você que tem que apagar o fogo. Como a gente vive fazendo trabalho de bombeiro nessa área, acho válido, sim – embora sempre olhe antes o trabalho e nunca encararia, por exemplo, uma dissertação inteira, mesmo que fosse da minha área.

    • Lorena Leandro says :

      Thays, você tocou num ponto muito interessante que talvez eu nem tenha deixado muito claro no meu post. A questão dos extremos. Nossa profissão realmente não permite que levemos as coisas a ferro e fogo, você está certíssima. E é por isso que nós tradutores tanto batemos nessa mesma tecla: de que devemos ter muito senso crítico. Até porque, o que o cliente quer nem sempre é o melhor para ele e, muitas vezes, nós temos que impor certos limites para preservar não somente a qualidade do trabalho, mas nossa integridade profissional. A questão do preço é importante nesse sentido, pois mostra ao cliente de maneira clara que se estamos cobrando mais, é porque o serviço exige mais. Ele pode não ter a plena noção de quais são essas exigências nem seus motivos (o que nós sempre podemos esclarecer), mas o preço mais alto indica que o tradutor preocupa-se com o resultado final e que ele quer estar disponível e atender seus clientes da melhor maneira possível.

  3. Heitor says :

    Fala, sócia!
    (Eu tô me saindo um sócio muito picareta, te deixando na maior espera… :P)

    Concordo com a Thays. Eu também faço (ou fazia, já que ultimamente tudo o que eu ando traduzindo é o livro!) muito mais versão do que tradução, porque é praticamente só o que a agência com que eu trabalho me pede. Até preferia não fazer, mas se eu recusar, fico sem a ver navios, né? Ainda mais que ainda tô engatinhando na profissão. Dá uma insegurança, mas quando a agência demonstra satisfação com o trabalho, ganho mais confiança. E à medida que vou fazendo, vou ganhando experiência e fazendo melhor. É claro (ou é muito provável…) que um falante nativo faria melhor e que nem todo mundo tem aptidão pra fazer, mas é bastante possível um tradutor brasileiro realizar uma boa versão.

    • Lorena Leandro says :

      Sócio! Deu sinal de vida, que bom! rsrsrs
      Muita verdade o que você disse: quanto mais faz, mais aprende. Às vezes a gente fica tão inseguro que só mesmo a satisfação do cliente para dar um certo alívio. Até a gente pegar a próxima versão e ficar inseguro novamente! 😉

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